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Oposição nascida nos debates pós-estruturalistas para traduzir a possibilidade de determinar o sentido de um texto — posição rejeitada pela maior parte dos teóricos — e a impossibilidade de tal sentido poder ser alguma vez e/ou de alguma forma fixo ou estabilizado. A determinação do sentido de um texto passa, na crítica tradicional, pelo próprio texto, que contém já em si de forma intencional o sentido que lhe foi atribuído pelo autor, e passa ainda pelo contexto que pode influenciar o sentido. A crítica pós-estruturalista chamou a atenção para o facto de que quer o próprio texto quer o contexto podem conter as incidências capazes de impedir essa (pré-)determinação do sentido.

Não há um objectivo terminal para a teoria literária aplicada a um texto. Não pode haver uma teoria final, porque isso significaria não a morte do autor mas a morte filosófica do texto. A prerrogativa peculiar da teoria filosófica da textualidade é a sua indeterminação, mas esta não é fortuita, pois o pensador do facto indeterminado do texto é o responsável pela sua identificação. Se pudéssemos chegar a uma teoria final que servisse, por exemplo, qualquer hermenêutica textual, o efeito conseguido teria as mesmas consequências de uma hipotética resposta definitiva à pergunta ontológica maior: O que é o ser? Podia haver filosofia se a esta pergunta correspondesse uma única e definitiva resposta? Podia haver mito se à sua natureza se atribuísse uma condição de realização? Da mesma forma, não podemos dizer que possuímos uma teoria final para o texto. Faz parte da natureza do conhecimento o ser inesgotável. Faz parte da natureza do texto literário o ser indeterminado.

A arte pós-moderna joga também a indeterminação do sentido, por exemplo, nas vídeo-colagens do coreano Nam June Paik, não há qualquer possibilidade de nos fixarmos num sentido único: a “figuração” da World Wide Web (W3) é um bom exemplo que se tem tentado dizer a propósito da desconstrução do sentido nos textos literários: nenhum sentido está garantido à partida, todas as possibilidade de compreensão e explicação são possíveis e nenhuma pode ser fixada. A indeterminação do sentido na arte em vídeo, que decorre por exemplo em “Ars Electronica”, uma colagem de 20 televisores, está associada a uma singular forma de fazer paródia nesta arte: quando nos retrata os “habitantes da Internet” através de corpos em forma de televisores, assistimos ao espectáculo da nossa própria desintegração naquilo em que mais investimos: a crença na comunicação global que é em tudo idêntica à crença na tradicional determinação do sentido.

{bibliografia}

B. J. Martine: Indeterminacy and Intelligibility (1992); G. Graff: "Determinacy/Indeterminacy", in F. Lentricchia e T. McLaughlin: Critical Terms for Literary Study (1990); M. Perloff: The Poetics of Indeterminacy (1992); Wolfgang Iser: “Indeterminacy and the Reader’s Response”, in Aspects of Narrative – Selected Papers from the English Institute, ed. por J.Hillis Miller, Nova Iorque, 1971.