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Em narratologia, diz-se do processo de interligação de sequências narrativas: uma dada sequência é entalhada numa outra e a sua importância diegética é normalmente determinada pela importância que o narrador atribui aos factos revelados no texto encaixado perante a força do texto que permite o encaixe. O processo, que se traduz para inglês pelo nome embedding (tradução directa do francês enclave), deve ser avaliado de acordo com a função do texto encaixado e a forma como influencia ou não o texto encaixador. O efeito conseguido pode ser o de retardamento da acção, o de fragmentação propositada para desconstruir o fio narrativo ou o de explicitação da informação ficcional. No romance Os Maias, de Eça de Queirós, o episódio da Corneta do Diabo é um encaixe na narrativa principal. Trata-se de um processo tradicional que não interfere no bom desenvolvimento da acção. No romance modernista e pós-modernista, essa função elementar do encaixe ganha maior dinâmica quando os autores procuram propositadamente um caminho não-linear para as suas narrativas. A escrita fragmentária que é comum em autores tão diversos como Proust (ver À la recherche du temps perdu) , James Joyce (ver Ulysses), Carlos de Oliveira (ver Finisterra) ou David Lodge, pode ganhar um sentido metanarrativo, como neste exemplo de fina ironia de Lodge em O Mundo é Pequeno: Morris Zapp, um dos protagonistas, proferiu uma palestra sobre crítica literária: “Têm à vossa frente — começou ele — um homem que, em tempos, acreditou na possibilidade da interpretação, isto é, eu pensava que o objectivo da leitura era estabelecer o significado dos textos. (…) “. O autor encastrou o texto incompleto da conferência na história, porque ele contém suficiente matéria para ajudar a desmistificar o trabalho académico de Zapp: é o próprio texto de Zapp que se virará contra ele. Um encaixe deste tipo pode ser eficaz para gradualmente o leitor concluir sobre o perfil das personagens.

{bibliografia}

C. Bremond: Logique du récit (1973); Mieke Bal: “Notes on Narrative Embedding”, Poetics Today, 2, 2 (1981); Sholomith Rimmon-Kenan: Narrative Fiction: Contemporary Poetics (1983); T. Todorov: “les catégories du récit littéraire”, Communications, 8 (1966).