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Conceitos fulcrais de quase toda a imensa obra ensaística de Harold Bloom – embora se encontrem mais sistematicamente estudados em três ou quatro livros (vd. Bloom, 1973, 1975, 1982, 1988) -, e estabelecem entre si a base teórica da teoria bloomiana da influência, ou daquilo que Bloom designa por ansiedade da influência.

O prefixo inglês mis ocorre em inúmeras palavras para contemplar as ideias de inexactidão, incorrecção, distorção, desvio, falsidade, etc., enfim, a ideia de que algo é ou foi mal executado (to misunderstand, por exemplo, quer dizer literalmente “compreender mal”). Contudo, aqueles três vocábulos (misprision, misreading, misinterpretation) não têm equivalentes directos na língua portuguesa, muito particularmente misprision que é uma construção do próprio Bloom—apesar do vocábulo provir aparentemente do Latim [misprisio] e de, em inglês, ser usado desde o século XV no domínio do Direito no seu significado de “crime por omissão”.

Tendo a ver com a compreensão dos mecanismos da influência poética, aqueles três conceitos, tal como H. Bloom refere na sua obra A Ansiedade da Influência, remetem para o modo como um poeta ajuda a formar outro, e bem assim para o modo como este outro desviou deliberadamente a sua leitura do primeiro poeta no sentido de servir os seus próprios interesses. O que se tem é, assim, um quadro das relações intra-poéticas, ou aquilo que Bloom designa por misprision. Através desta expressão, Bloom pretende sugerir a ideia da dependência inevitável do poeta em relação a poetas anteriores e, simultaneamente, de desvio deliberado em relação a eles. É nisto que consiste a ansiedade da influência. Bloom inspira-se em Lucrécio, e na sua noção de clinamen, para justificar o conceito de misprision: “Clinamen, which is poetic misreading or misprision proper; I take the word from Lucretius, where it means a “swerve” of the atoms so as to make change possible in the universe. A poet swerves away from his precursor, by so reading his precursor’s poem as to execute a clinamen in relation to it.” (The Anxiety of Influence, Oxford University Press, Oxford, 1973, 1978, p. 14). [Clinamen, que é a leitura poética desviante, ou a malversação poética propriamente dita; a palavra é usada por Lucrécio, de quem eu a retomo, para significar um “desvio” dos átomos a fim de que a mudança no universo se torne possível. Um poeta desvia-se do seu precursor através de uma leitura do poema do seu percursor que o leve a realizar um clinamen em relação a ele.]   (Tradução de Manuel Frias Martins)

Misreading e misinterpretation remetem, portanto, no quadro téorico de H. Bloom, para a noção de “desvio” e não para a noção de erro, exactamente o inverso do que acontece com o desconstrucionista Paul de Man, diga-se de passagem —e isto apesar da (ou contra a) “colagem” que Paul de Man tentou fazer das posições do seu amigo Bloom às posições dele próprio, Paul de Man. Aquele facto não quer dizer que, segundo Bloom, o poeta leia bem o seu precursor. Antes pelo contrário, na medida em que aquilo que o poeta tenta fazer constantemente é ultrapassar a ansiedade da influência, isto é, a pressão exercida sobre ele pelo precursor. E fá-lo exactamente gerindo mal o poema do seu precursor, isto é, “lendo-o de modo desviante” ou “interpretando-o de modo desviante”, a fim de alcançar uma alteração criadora desse poema anterior,  revelando assim a relação intra-poética contemplada na noção de misprision. O vocábulo português malversação é, salvo melhor opinião, o que corresponde mais satisfatoriamente à complexidade deste processo de influência poética e, ao mesmo tempo, à polivalência semântica do vocábulo misprision construído por Bloom para o designar.

Leitura desviante” (ou “ler de modo desviante”), “interpretação desviante” (ou “interpretar de modo desviante”) e “malversação” são, por este conjunto de razões, as correspondências portuguesas que eu proponho para a tradução, respectivamente, dos conceitos bloomianos de misreading, misinterpretation e misprision.

Existe um versão portuguesa, da autoria de Miguel Tamen, da obra The Anxiety of Influence (com o título A Angústia da Influência; Cotovia, Lisboa, 1991). Aqui encontramos “leitura errónea” para misreading; “interpretação errónea” para misinterpretation; e “encobrimento” para misprision.

Para além destas discrepâncias em relação à minha proposta de entendimento dos três conceitos bloomianos, vale a pena assinalar também que não me parece adequada a tradução de anxiety por “angústia”. Esta tradução, que parece decorrer de algumas versões psicanalíticas, não corresponde ao pensamento de Bloom, conforme ele próprio tem o cuidado de esclarecer: “A ansiedade da influência [anxiety of influence] não é uma ansiedade acerca do pai, real ou literário, mas, sim, uma ansiedade encontrada pelo e no poema, romance ou peça. Qualquer obra literária forte lê de modo criadoramente desviante [creatively misreads] e, portanto, interpreta de modo desviante [misinterprets] um texto ou textos precursores. Um autêntico autor canónico pode ou não interiorizar a ansiedade da sua própria obra, mas isso pouco importa: a obra mais fortemente conseguida é a ansiedade”. (H. Bloom, 1994, p. 8). Além disto, Harold Bloom tem o cuidado de utilizar separadamente, e em contextos próprios, os vocábulos ingleses anxiety [ansiedade] e anguish [angústia]. Cito, a título de exemplo, as seguintes observações:

A) “É famosa a definição que Freud deu da ansiedade [anxiety] como Angst vor etwas ou expectativas ansiosas [anxious expectations]. Há sempre qualquer coisa em relação à qual estamos antecipadamente ansiosos, mais que não seja de expectativas que seremos chamados a satisfazer. Eros, presumivelmente a mais agradável das expectativas, traz as suas próprias ansiedades [anxieties] à consciência reflexiva. É exactamente este o tema de Freud. Uma obra literária também desperta expectativas que precisa de satisfazer, caso contrário deixará de ser lida. As mais profundas ansiedades [anxieties] da literatura são literárias e, na minha perspectiva, elas definem o literário ao mesmo tempo que se tornam tudo excepto idênticas a ele” (Bloom, 1994, pp. 18-19).

B) “Enquanto escrevo estas linhas, dou uma vista de olhos pelo jornal e reparo numa história acerca da angústia [anguish] das feministas forçadas a ter de escolher entre Elizabeth Holtzman e Geraldine Ferraro para uma nomeação para o Senado” (id: 35).

C) “Para essas pessoas a universalidade de Shakespeare não é histórica mas fundamental, pois ele põe em palco as vidas de todas elas. Nas personagens de Shakespeare elas observam e confrontam a sua própria angústia [anguish] e as suas próprias fantasias…” (id: 38-39).

 

{bibliografia}

Harold Bloom: The Anxiety of Influence (1973); A Map of Misreading (1975); Agon: Towards a Theory of Revisionism (1982); Poetics of Influence (1988); The Western Canon (1994).