O termo foi cunhado por Johann Wolfgang von Goethe, que o empregou pela primeira vez em 1827, em conversa com o seu secretário Johann Peter Eckermann (publicada postumamente nas Gespräche mit Goethe), a propósito da leitura de um romance chinês e da constatação de que a poesia é “património comum da humanidade” e não propriedade exclusiva de um povo. Goethe retomaria a ideia em vários textos da revista Über Kunst und Altertum, num momento de intenso cosmopolitismo pós-napoleónico, marcado pela circulação crescente de traduções na Europa. A noção seria reapropriada, em 1848, por Karl Marx e Friedrich Engels no Manifesto do Partido Comunista, que a associaram à expansão do mercado mundial burguês, dando-lhe assim uma dimensão histórico-material que a desligava do idealismo humanista goetheano.
No século XX, o filólogo Erich Auerbach, exilado na Turquia durante o nazismo, escreveu o ensaio “Philologie der Weltliteratur” (1952), no qual, com melancolia, questionava a possibilidade de subsistência de uma literatura mundial num tempo de nacionalismos exacerbados e de uniformização cultural. A partir dos anos 1990 e 2000, o conceito conheceu uma renovação decisiva com autores como Pascale Casanova, que propôs a ideia de uma “república mundial das letras” estruturada por relações de poder e de capital simbólico entre centros e periferias literárias; Franco Moretti, que defendeu uma abordagem sistémica e “distante” (distant reading) da literatura mundial como sistema desigual e combinado; e David Damrosch, para quem uma obra entra em regime de literatura mundial precisamente quando “ganha” com a tradução, circulando activamente fora da sua cultura de origem. Mais recentemente, Emily Apter e outros críticos têm sublinhado os riscos de homogeneização e as “intraduzibilidades” que tal circulação global comporta.
Ainda mais recentemente, os estudos pós-coloniais vieram problematizar a euforia cosmopolita e as noções de circulação mercantil do termo. Aamir R. Mufti (2016) desconstruiu a suposta neutralidade da Weltliteratur, argumentando que a categoria está historicamente enraizada no orientalismo europeu e assenta hoje na hegemonia indiscutível da língua inglesa. Segundo Mufti, a literatura mundial opera frequentemente como um crivo imperial que assimila e domestica as literaturas não-ocidentais, apagando as suas especificidades culturais.
Em contrapartida, Pheng Cheah (2016) procurou resgatar a dimensão ético-política do termo perante a globalização capitalista. Para Cheah, a verdadeira literatura mundial (com especial enfoque na literatura pós-colonial) não deve ser avaliada apenas pela sua circulação espacial e mercadológica, mas pela sua temporalidade e pela sua força normativa — isto é, a sua capacidade activa de “mundializar” (fazer mundo) e de projectar alternativas de resistência ético-política face a um mundo capitalista unificado e homogeneizador.
O caso mais evidente de inscrição plena de uma obra portuguesa na Weltliteratur, no sentido damroschiano, é o de José Saramago, cuja atribuição do Prémio Nobel da Literatura em 1998 consagrou internacionalmente uma obra já amplamente traduzida e lida fora do universo lusófono. Também Os Lusíadas, de Luís de Camões, conheceram, desde o século XVI, sucessivas traduções e comentários europeus que os inscreveram, ainda que de modo desigual, no cânone épico ocidental. No plano da prosa brasileira, Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa (obra de invenção linguística radical, quase intraduzível) tornou-se um caso paradigmático das tensões entre singularidade idiomática e aspiração universal próprias do conceito. Clarice Lispector conheceu, décadas após a sua morte, uma verdadeira “segunda vida” internacional, sobretudo através de novas traduções inglesas e da leitura que dela fez Hélène Cixous, exemplificando bem a ideia de que a literatura mundial se constrói também por efeitos tardios de recepção. No espaço africano de língua portuguesa, a obra de Mia Couto, distinguido em 2014 com o Prémio Neustadt de Literatura, ilustra a incorporação, cada vez mais visível, das literaturas lusófonas periféricas no sistema mundial das letras. Por fim, a obra de Fernando Pessoa, com a sua multiplicação heteronímica e a sua reflexão sobre a condição do escritor “sem pátria fixa”, tem sido lida pela crítica comparatista como um caso-limite da própria tensão constitutiva da Weltliteratur entre enraizamento nacional e vocação universal.
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Auerbach, Erich. “Philology and Weltliteratur”. The Centennial Review, vol. 13, no. 1, 1969, pp. 1-17.
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Casanova, Pascale. The World Republic of Letters. Traduzido por M. B. DeBevoise, Harvard University Press, 2004.
- Cheah, Pheng. What Is a World? On Postcolonial Literature as World Literature. Duke UP, 2016.
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Damrosch, David. What is World Literature? Princeton University Press, 2003.
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Goethe, Johann Wolfgang von. Conversações com Eckermann. Traduzido por Ilídio da Rocha, Relógio d’Água, 2001.
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Moretti, Franco. “Conjectures on World Literature”. New Left Review, vol. 1, 2000, pp. 54-68.
- Mufti, Aamir R. Forget English! Orientalisms and World Literatures. Harvard UP, 2016.



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