Ufanismo vem do espanhol ufano, “orgulhoso, vaidoso”, acrescido do sufixo -ismo; verbo cognato: ufanar-se. Designa a atitude, discursiva e ideológica, de exaltação acrítica e desmedida das virtudes, riquezas naturais, grandeza territorial e destino histórico de uma nação (por excelência, no uso consagrado do termo, o Brasil), manifestando-se tanto em textos de intenção pedagógica e cívica como em obras poéticas, ensaísticas ou propagandísticas que convertem o amor à pátria num optimismo nacionalista sem distância crítica face aos problemas e contradições do país celebrado. Não é uma escola ou um movimento literário formalmente delimitado, mas antes um modo retórico e ideológico transversal a diferentes géneros e períodos, cuja marca distintiva é a substituição do juízo crítico pela apologia incondicional, convertendo a nação numa espécie de objecto de culto quase religioso.
A palavra deriva directamente do título da obra do Conde Afonso Celso, Por Que Me Ufano do Meu País, publicada em 1900 por ocasião das comemorações do quarto centenário do achamento do Brasil, livro que, dedicado aos filhos do autor, se converteu no primeiro grande sucesso editorial da história do país. O livro, dedicado aos filhos, visava despertar na juventude brasileira um ilimitado amor à pátria, procurando mostrar a grandeza da nação através da sua extensão territorial, da exuberância da natureza, da riqueza do subsolo e da cordialidade do seu povo. A obra tornou-se leitura obrigatória nas escolas secundárias brasileiras, teve várias edições e traduções, e passou a ser uma verdadeira cartilha de nacionalidade, um distintivo que marcava a condição de brasileiro. Todavia, a visão acrítica e ingénua da positividade do país, incapaz de perceber os seus aspectos mais sombrios, veio a suscitar a reacção de mentalidades mais críticas, sendo a partir do título da obra que se cunhou a palavra “ufanismo”, já com o sentido pejorativo hoje registado nos principais dicionários da língua: vanglória desmedida, patriotismo excessivo.
Convém, no entanto, notar que o fenómeno que o termo descreve é anterior à sua cunhagem lexical, radicando já em textos coloniais e oitocentistas de exaltação da terra brasileira. No plano especificamente literário, o crítico Antonio Cândido observou que o famoso livro do Conde Afonso Celso exprimia, no grau de máxima exaltação e ingenuidade, uma visão que só mais tarde seria ironizada sob o nome de “ufanismo”. O termo tem sido também associado ao próprio Romantismo brasileiro do século XIX, movimento que, na sua primeira geração, cultivou intensamente a busca da nacionalidade e a sublimação do indígena como figura do herói nacional, num contexto histórico de afirmação identitária pós-independência. De notar que durante o século XIX, com o Romantismo europeu e americano, este discurso foi apropriado pelos projectos de nation-building (construção do Estado-Nação), em que a literatura assumiu o papel de forjar uma identidade nacional gloriosa.
No século XX, o discurso ufanista foi frequentemente instrumentalizado como ferramenta de propaganda por regimes autoritários para forjar a unidade nacional e silenciar a dissidência. Surgiram reactualizações particularmente intensas em momentos de mobilização nacionalista, sendo de assinalar o seu uso instrumental pelo regime militar brasileiro (1964-1985), que promoveu campanhas e slogans de exaltação patriótica ligados a êxitos desportivos, como o tricampeonato mundial de futebol conquistado em 1970, episódio em que o feito da selecção foi amplamente utilizado como forma de despertar o sentimento ufanista da população. É precisamente este uso político e propagandístico do discurso ufanista, dissociado de qualquer reflexão crítica sobre as desigualdades sociais do país, que consolidou definitivamente a conotação pejorativa do termo na língua contemporânea.
O corpus fundador do ufanismo é, evidentemente, brasileiro, situando-se a sua matriz clássica no já citado Afonso Celso, cuja obra elogiava a exuberância paisagística do país (o Rio Amazonas, a Cachoeira de Paulo Afonso, a Baía da Guanabara) e a bondade do carácter nacional resultante da mestiçagem entre índios, negros e portugueses. No plano estritamente poético, a crítica tem associado ao ufanismo poetas parnasianos como Olavo Bilac, Alberto de Oliveira, Raimundo Correia e Coelho Neto, que cultivaram, em diferentes graus, a exaltação da pátria e da sua natureza. Já na primeira geração do Romantismo, “Canção do Exílio” (1843), de Gonçalves Dias, com a idealização saudosa da paisagem e das aves da terra natal, é frequentemente apontado como paradigma da matriz nacionalista e enaltecedora que desaguaria mais tarde no ufanismo propriamente dito.
O modernismo brasileiro dos anos vinte e trinta, ainda que nascido em parte da reacção contra o ufanismo ingénuo, produziu também formulações que a crítica tem lido como reincidências do mesmo tópico, nomeadamente na obra de Cassiano Ricardo, cujo poema-mito Martim Cererê (1928) constitui um dos textos mais estudados a este propósito, ao lado da prosa nacionalista de Menotti del Picchia e Plínio Salgado, vinculados ao movimento verde-amarelo e, mais tarde, ao integralismo. Por contraste, Mário de Andrade, com Macunaíma (1928), e Oswald de Andrade, com o seu projecto antropofágico, podem ler-se como respostas paródicas e desconstrutivas ao mesmo imaginário ufanista que os precedeu. Já em pleno período da ditadura militar, a canção popular (de que é exemplo o verso de Jorge Ben Jor, “moro num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza”) absorveu e, simultaneamente, ironizou o léxico ufanista consagrado por Afonso Celso oito décadas antes.
No espaço literário português, não existindo propriamente uma tradição terminológica equivalente, reconhece-se contudo um fenómeno análogo de exaltação nacional messiânica na poesia de Fernando Pessoa, sobretudo em Mensagem (1934), obra que, embora de outra natureza simbólica e profética, ligada ao Sebastianismo e ao mito do Quinto Império, partilha com o ufanismo brasileiro o mecanismo retórico da idealização incondicional do destino colectivo da pátria.



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