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Termo derivado do latim cantica, para canto ou melodia. Na história da literatura, o termo deriva directamente da cansó provençal ou da chanson francesa, podendo ser confundido com os termos canção ou cantar. A cantiga medieval inclui texto poético e música.

Segundo a organização estrófica, uma cantiga pode ser de refrão, de mestria (sem refrão) ou de atafinda (com estrofes encadeadas até ao fim da composição). Quando as estrofes não constituíam uma unidade semântica ou sintáctica, “encavalgando-se” umas nas outras, tomam o nome de cantigas ateúdas (chamadas por alguns tratadistas de cantigas de atafinda, designação menos correcta). Quando a mesma ideia nuclear se repetia ao longo da composição, variando apenas algumas palavras terminais dos versos, chama-se cantiga paralelística. Tomando como ponto de referência principal o conteúdo temático das composições, costuma-se dividir a cantiga medieval em três subgéneros: cantiga de amor (é endereçada a uma senhor, geralmente de condição superior; copia mais de perto o modelo provençal da cansó cortês, segundo fórmulas convencionais de louvor da senhor; prefere a meestria ou omissão do refrão; opta pela rima e rejeita a assonância), cantiga de amigo (endereçada a um “amigo” amado e geralmente ausente, o que conduz ao tópico fundamental do morrer de amores; prefere o refrão e o paralelismo; opta pela assonância combinada com rimas perfeitas; é característica da lírica galego-portuguesa anterior à influência provençal; apresenta variedades temáticas como a cantiga de romaria ou de peregrinação, a barcarola ou marinha, a bailia ou bailada, de inspiração folclórica, a alba, alva ou alvorada, de origem provençal), cantiga de escárnio (endereçada indirectamente a alguém que se julgava merecedor de escárnio) e a cantiga de maldizer (endereçada directamente a alguém que se odiava ou que era merecedor de crítica severa). Esta divisão entre cantiga de escárnio e cantiga de maldizer é ditada pela obra de referência fundamental da teoria versificatória medieval galego-portuguesa, a anónima e fragmentária Arte de Trovar anteposta ao Cancioneiro da Biblioteca Nacional. No entanto, tal separação não é rígida na prática, sendo até difícil distinguir muitas composições por esse facto apenas. Existem duas grandes variações temáticas neste subgénero: a sátira política e social, personalizada e acusatória e o sirventês moral, embora a cantiga de escárnio e mal dizer prefira o riso e a paródia às lições morais. Há ainda a registar outras subespécies como a cantiga de seguir (texto que imita um outro que lhe é anterior), a cantiga de vilão (não exemplificada na lírica galego-portuguesa), a alba, o lais, a pastorela, o pranto e a tenção.

As cantigas medievais ficaram registadas em antologias chamadas cancioneiros, embora só uma composição se apresente com o título de cantiga: as Cantigas de Santa Maria, coligidas por Afonso X, o Sábio, no século XIII.

Durante o século XV, uma cantiga corresponde a uma composição curta, geralmente em versos de redondilha maior, alternando com redondilha menor, dividido em mote e glosa de oito a dez versos. O assunto da cantiga renascentista é invariavelmente o amor, a ausência e o sofrimento único do homem. Bernardim Ribeiro e Camões escreveram algumas das mais singulares cantigas portuguesas. Por força das suas influências cultas italianistas, a poesia maneirista recusou o modelo clássico da cantiga.

Depois da tradição trovadoresca e dos registos clássicos, o vocábulo cantiga evoluiu para toda e qualquer composição poética, não muito extensa e de versos curtos, que se destina a ser musicada.

{bibliografia}

Actas do IV Congresso da Associação Hispânica da Literatura Medieval (Lisboa, 1993); Giuseppe Tavani: A Poesia Lírica Galego-Portuguesa (1990); José Joaquim Nunes: Cantigas d’Amor dos Trovadores Galego-Portugueses (1972), Cantigas d’Amigo dos Trovadores Galego-Portugueses (vol.1, 1973); G. Videira Lopes: A Sátira nos Cancioneiros Medievais Galego-Portugueses (1994); M. Rodrigues Lapa: Lições de Literatura Medieval Portuguesa. Época Medieval, 10ª ed. (1981); O Cantar dos Trobadores, Actas do Colóquio de Santiago do Chile (1993); Wilton Cardoso: Da Cantiga de Seguir no Cancioneiro Peninsular da Idade Média (1977).