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Termo francês que traduz o empenhamento político de um escritor ou de um intelectual. Historicamente, o conceito é uma herança do intelectual formado pelo iluminismo e pelo marxismo, porém foi Jean-Paul Sartre quem, no século XX, mais vivamente relançou o debate sobre o estatuto do intelectual engagé. Qu’est-ce que la littérature? (1948) e Questions de méthode (1960) são as duas obras onde se demora a definir tal estatuto. Sartre não encontra nada mais engagé do que as atitudes anti-religiosas: “Quoi de plus engagé, de plus ennuyeaux que le propos d’attaquer la Société de Jésus? Pascal en a fait Les Provinciales.” (Qu’est-ce que la littérature?, Gallimard, Paris, 1948, p.31). Mas o conceito vai mais longe e pode incluir todas as formas de luta em nome das classes populares e todas as formas de propaganda de uma literatura ao serviço de um ideal. Um roman à thèse presta-se a estes fins, por exemplo, porque esse género privilegia, por princípio, a expressão das convicções mais idealistas do escritor e coloca em plano secundário os problemas da escrita literária em si mesma. O engagement é um mais um problema ético do que literário. Ou um problema literário que, na sua versão sartriana, está limitado à prosa, não sendo compatível com o discurso da poesia, da música, da pintura ou de outras artes supostamente não adequadas a um espírito revolucionário: “l’empire des signes, c’est la prose; la poésie est du cotê de la peinture, de la sculpture, de la musique.” (ibid., pp.17-18); contudo, a distinção que Sartre faz entre a prosa e as restantes formas de expressão artística é muito discutível: “la prose est utilitaire par essence; je définirais volontiers le prosateur comme un homme qui se sert des mots.” (ibid., p.25). Se a prosa é o discurso engagé por excelência por ser o discurso “utilitário” por essência, fica por provar como é que a poesia didáctica, por exemplo, não é marcada pelo mesmo pragmatismo ou como é que a pintura e a escultura não são também “impérios de signos”. Mais pacífica parece ser a conclusão posterior para a condição do escritor engagé: “Je dirai qu’un écrivain est engagé lorsqu’il tâche à prendre la conscience la plus lucide, et la plus entière d’être embarqué, c’ést-à-dire lorsqu’il fait passer pour lui et pour les autres l’engagement de la spontanéité immédiate au réfléchi. L’écrivain est médiateur par excelence et son engagement c’est la médiation.” (ibid., p.84).

Escritor engagé foi então uma expressão que serviu durante a segunda metade do século XX para catalogar todos os intelectuais que se comprometeram com uma participação activa na vida política do seu país. Bastava para tanto escrever qualquer peça literária contra o regime em vigor, para se ganhar o epíteto que trouxe sempre muitos dissabores principalmente aos escritores de esquerda que desafiavam constantemente os governos totalitários e tirânicos. É, pois, por isso fácil rotular assim todos os escritores neo-realistas. Na prática, o engagement sugeria uma forma de compromisso sem saída: perde-se a liberdade individual de escolha do próprio caminho a seguir, para se sacrificar a obra produzida a um poder superior, a um ideal político a uma consciência colectiva. Por esta razão, muitos escritores preferem continuar a acreditar que a fórmula autêntica do engagement só pode ser aquela que não nos privar da liberdade de escrever sem comprometimentos extra-literários.

O engagement nunca é totalmente pacífico, sobretudo para quem o assume. Alexandre Pinheiro Torres, professor, escritor e crítico literário, que decidiu a votação do prémio da Sociedade Portuguesa de Escritores em 1962 ao livro Luuanda do escritor então preso Luandino Vieira e que levaria não só ao encerramento dessa Sociedade como à perseguição política dos membros do júri, distingue claramente qual o tipo de compromisso que deve ser assumido por um intelectual: “O compromisso com qualquer político equivale a compromissos com políticos, que na sua maioria são corruptos. Comprometer-se com semelhante canalha é altamente desprezível.” O engagement tolerável é o da “preocupação do intelectual com o saneamento moral do mundo, para se arranjar um melhor e mais justo” (“O ‘engagement’ dos intelectuais”, Público, 13-1-1996). Na década de 1960, Pinheiro Torres já havia discorrido sobre o conceito de engagement no romance contemporâneo, em particular nas obras de Albert Camus, que se apoiam no princípio: “Recusemo-nos a legitimar qualquer forma de opressão” (“Em que consiste o engagement de Camus”, in Romance: O Mundo em Equação, Portugália, 1967, p. 174). A mesma ideia de um engagement aberto à procura da verdadeira humanidade do homem — no fundo o programa estético de Sartre — encontramos num passo de O Senhor Embaixador, de Erico Veríssimo, numa discussão entre intelectuais totalmente comprometidos com a ideologia marxista e intelectuais burgueses: “Liberdade! — exclamou o Secretário-Geral. — Liberdade! Vocês, intelectuais, se comprazem com palavras como as crianças se distraem com brinquedos. Liberdade! Em nome desse mito vocês, escritores burgueses, há séculos vêm produzindo uma literatura completamente alienada da luta de classes, da realidade social.” “O famoso engagement! — exlamou Pablo. — Porque há-de o artista ou o escritor estar engajado necessariamente ao Partido Comunista como se este fosse o portador da verdade única, absoluta? Porque não um engajamento total com o homem? Porque não com a vida e todas as suas riquezas e ambiguidades, as suas incontáveis portas, caminhos, labirintos e mistérios?” (Editora Globo, Porto Alegre, 1965, p.386). O envolvimento de um intelectual com o mundo político do seu tempo não tem hoje a mesma característica dialéctica: o artista engagé não selecciona posições políticas, não está mais conotado a uma escolha socialista ou comunista, ou com uma escolha à esquerda ou à direita, não fala mais em nome de um ideal colectivo, não interpreta mais o papel de um reformador moral das massas. O engagement respeita agora tão somente a um empenhamento do indivíduo com os problemas sócio-políticos do seu tempo, sem que para isso se discuta o problema ético do compromissso. Hoje, apesar de a expressão ter caído em desuso na teoria da literatura, o engagement faz sentido se for sinónimo de responsabilidade cívica e de procura de ideiais tão pacíficos como a liberdade e a justiça.

{bibliografia}

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