Do inglês, literalmente “conversa de mesa”; designa, por extensão consagrada pelo uso literário, um género ou modalidade de escrita que regista, com pretensão de fidelidade documental, os ditos, opiniões e conversas informais de uma personalidade eminente, recolhidos por um interlocutor ou discípulo presente nesses convívios. Diz-se, assim, do género literário-documental constituído pela compilação escrita, geralmente póstuma e da autoria de um terceiro (discípulo, secretário, familiar ou admirador), dos ditos, opiniões, anedotas e reflexões informais proferidos oralmente por uma figura intelectual, artística ou política de relevo, no decurso de conversas de sobremesa, de convívio doméstico ou de reunião social, e que se distingue tanto da entrevista (por lhe faltar a estrutura pergunta-resposta deliberadamente construída para publicação) como das memórias em sentido estrito (por não constituir narrativa autobiográfica contínua, mas antes um mosaico fragmentário de registos avulsos, organizados amiúde por ordem cronológica de recolha ou por assunto). O table-talk funciona, deste modo, como um híbrido genológico situado na fronteira entre o testemunho biográfico, o aforismo e a crónica de costumes, sendo a sua autoridade textual estruturalmente problemática, na medida em que o discurso registado passou sempre pelo crivo da memória, da selecção e da reformulação estilística do transcritor, questão que a crítica textual não deixou de assinalar repetidamente a propósito dos exemplos mais célebres do género.
Na Idade Média, as refeições monásticas e cortesãs continuaram a ser lugares de ensino, entretenimento e transmissão de narrativas. Compilações de exemplos morais, ditos de sábios, facécias e sentenças conservaram elementos que mais tarde integrariam a table-talk. Contudo, a passagem da oralidade para a escrita raramente era apresentada segundo os critérios documentais modernos.
O Humanismo recuperou os modelos clássicos do diálogo e do banquete. Os Colóquios, de Erasmo de Roterdão, usam conversas ficcionais para tratar questões religiosas, pedagógicas e sociais. Algumas decorrem em viagens, hospedarias ou refeições; a naturalidade coloquial serve uma intenção crítica cuidadosamente construída.
Também as colecções de facetiae, como as de Poggio Bracciolini, transformaram piadas, respostas engenhosas e histórias ouvidas em ambientes de sociabilidade numa forma literária. A brevidade, o efeito de presença e a atribuição dos ditos a pessoas identificáveis aproximam estas obras da posterior literatura de conversação.
Em Portugal, o diálogo humanista e cortesão conheceu uma expressão importante em Corte na Aldeia (1619), de Francisco Rodrigues Lobo. A obra apresenta um grupo reunido em serões numa casa senhorial, discutindo cartas, formas de tratamento, poesia, narrativa e comportamento social. Não se trata de uma transcrição de conversas reais, mas de uma composição dialogada que representa a sociabilidade culta da mesa e do serão. Por essa razão, constitui um dos antecedentes portugueses mais próximos da table-talk europeia.
A designação do género fixou-se sobretudo a partir da obra de Martinho Lutero, cujas conversas de mesa, registadas e compiladas por diversos discípulos e comensais ao longo de vários anos de convívio doméstico na Wittenberga do século XVI, foram publicadas postumamente sob o título Tischreden (1566), reunindo reflexões teológicas, comentários bíblicos, observações sobre a vida quotidiana e ditos de humor grosseiro que se tornariam um dos documentos mais vívidos e mais citados da personalidade do reformador, para além da sua obra teológica sistemática. O termo inglês table-talk, por seu turno, consagrou-se definitivamente através da obra homónima do poeta e crítico Samuel Taylor Coleridge, cujas conversas foram registadas pelo seu sobrinho Henry Nelson Coleridge ao longo dos últimos anos de vida do poeta e publicadas sob o título Specimens of the Table Talk of the Late Samuel Taylor Coleridge (1835), obra que viria a fixar definitivamente a designação genológica em língua inglesa e que constitui hoje uma das fontes documentais mais estimadas para o conhecimento do pensamento crítico e filosófico coleridgiano na sua forma mais espontânea e conversacional, frequentemente mais reveladora do que os seus escritos formais.
O género conheceu, ao longo do século XIX, diversas outras concretizações notáveis, como as Gespräche mit Goethe (1836-1848), de Johann Peter Eckermann, obra que, embora estruturalmente próxima do table-talk pela sua organização cronológica e pela fidelidade pretendida ao discurso oral do escritor registado, se distingue deste por assumir uma forma de diário de convívio mais elaborada e deliberadamente literária, tendo sido preparada e revista pelo próprio Eckermann com vista à publicação, e não uma mera compilação de apontamentos avulsos de terceiros. No século XX, o género subsiste, ainda que sob designações variadas, em obras como as Conversations with Igor Stravinsky (1959), de Robert Craft, ou nas conversações registadas por Denis Diderot, que, embora anteriores ao termo inglês, participam claramente da mesma lógica genológica de fixação escrita do discurso oral informal de uma figura intelectual eminente.
O género do table-talk, na sua forma mais estrita, teve uma implantação relativamente rarefeita na tradição literária de língua portuguesa, sendo mais frequente encontrar-se-lhe equivalentes funcionais sob outras designações genológicas, como a “conversa”, a “crónica de convívio” ou o volume de “memórias de conversação”. É, todavia, exemplar deste espírito a obra Conversas com Vergílio Ferreira (1985), organizada a partir de entrevistas e diálogos com o romancista e ensaísta, ainda que a sua estrutura de pergunta-resposta a aproxime mais da entrevista formal do que do table-talk na sua acepção mais estrita e espontânea. Mais próximo do género na sua concepção clássica é o volume Conversas com Miguel Torga (1989), de Fernando Venâncio e Augusto Seabra, que regista, num tom deliberadamente informal e coloquial, as opiniões e reminiscências do poeta transmontano recolhidas ao longo de sucessivos encontros pessoais. No Brasil, merece referência o volume Conversas com Guimarães Rosa (2011), organizado a partir dos apontamentos e entrevistas realizados pelo tradutor italiano Edoardo Bizzarri, que reúne reflexões do escritor mineiro sobre o processo criativo de Grande Sertão: Veredas e sobre a problemática da tradução da sua obra, documento de inegável valor genético e crítico para a compreensão da poética rosiana, ainda que estruturado, tal como a obra de Eckermann sobre Goethe, com maior elaboração literária do que a simples justaposição de apontamentos avulsos própria do table-talk na sua forma mais canónica.
- Bizzarri, Edoardo. Conversas com Guimarães Rosa. Ed. José Olympio, 2011.
- Coleridge, Henry Nelson, editor. Specimens of the Table Talk of the Late Samuel Taylor Coleridge. John Murray, 1835.
- Eckermann, Johann Peter. Gespräche mit Goethe in den letzten Jahren seines Lebens. Brockhaus, 1836-1848.
- Hazlitt, William. Table-Talk; or, Original Essays on Men and Manners. Oxford UP, 1901.
- Lobo, Francisco Rodrigues. Corte na Aldeia. Introdução, notas e fixação do texto de José Adriano de Freitas Carvalho, Presença, 1991.
- Lutero, Martinho. Luther’s Works. Vol. 54: Table Talk. Editado e traduzido por Theodore G. Tappert, Fortress Press, 1967.
- Melo, D. Francisco Manuel de. Apólogos Dialogais. Editado por Pedro Serra, Angelus Novus, 1999.
- Montaigne, Michel de. The Complete Essays. Traduzido por M. A. Screech, Penguin Books, 1991.
- Platão. Symposium. Editado por C. J. Rowe, Aris and Phillips, 1998.
- Plutarco. Moralia. Vol. VIII: Table-Talk, Books 1–6. Traduzido por Paul A. Clement e Herbert B. Hoffleit, Harvard UP, 1969.
- Plutarco. Moralia. Vol. IX: Table-Talk, Books 7–9; Dialogue on Love. Traduzido por Edwin L. Minar, F. H. Sandbach e W. C. Helmbold, Harvard UP, 1961.
- Selden, John. The Table-Talk of John Selden. Editado por Samuel Harvey Reynolds, Clarendon Press, 1892.
- Venâncio, Fernando, e Augusto Seabra. Conversas com Miguel Torga. Publicações Dom Quixote, 1989.
- Xenofonte. Memorabilia, Oeconomicus, Symposium, Apology. Traduzido por E. C. Marchant e O. J. Todd, Harvard UP, 2013.



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