UBI SUNT (do latim Ubi sunt qui ante nos fuerunt?, “Onde estão aqueles que vieram antes de nós?”) é um topos literário e um motivo retórico que cristaliza a meditação elegíaca sobre a transitoriedade da vida humana, a efemeridade da beleza e a inevitável anulação das glórias terrenas. Traduz-se, estruturalmente, através de uma sucessão de interrogações retóricas que questionam o paradeiro de figuras ilustres do passado, de impérios sumptuosos ou de amores desvanecidos. Mais do que um simples inquérito melancólico, o ubi sunt funciona como um memento mori poético: ao sublinhar a ausência física daqueles que outrora possuíram poder ou juventude, o texto literário recorda ao leitor a vanidade e a fragilidade da sua própria existência face à voracidade do tempo e ao nivelamento absoluto imposto pela morte. Não se trata de uma pergunta que aguarde resposta lógica, mas de um artifício retórico cuja função é precisamente a de, pela ausência de resposta, sublinhar a irremediabilidade da perda e convidar o leitor ou ouvinte a uma meditação de teor moral ou religioso sobre a vanitas das coisas do mundo.
Embora as suas raízes filosóficas recuem à Antiguidade Clássica, encontrando ecos visíveis na obra de Boécio (A Consolação da Filosofia) e na poesia persa de Omar Khayyam, o ubi sunt atingiu a sua máxima expressividade e codificação durante a Idade Média cristã e o Renascimento. Numa época em que o pensamento teocêntrico enfatizava o desprezo pelas coisas mundanas (contemptus mundi), a interrogação sobre o destino dos poderosos servia um propósito eminentemente moral e didáctico.
Na literatura anglo-saxónica, o poema anónimo The Wanderer (século X) apresenta uma das mais antigas e pungentes manifestações do motivo, lamentando a ruína dos salões e a morte dos guerreiros. Contudo, o cume estético deste topos na literatura europeia encontra-se em duas obras fundamentais da transição para a modernidade:
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Em França, François Villon eternizou o motivo na sua “Ballade des dames du temps jadis” (1489), cujo célebre refrão “Mais où sont les neiges d’antan?” (“Mas onde estão as neves de antanho?”) se converteu no arquétipo da nostalgia pela beleza perdida.
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Em Espanha, Jorge Manrique, nas suas imortais Coplas por la muerte de su padre (1476), dedicou estrofes inteiras à interrogação sobre o destino da corte ibérica (“¿Qué se hizo el rey don Juan? / Los infantes de Aragón / ¿qué se hicieron?”), ilustrando como a morte não poupa faustos nem coroas.
O exemplo mais célebre e mais estudado do tópico na literatura em língua castelhana são essas Coplas por la muerte de su padre (1476), de Jorge Manrique, nas quais o poeta pergunta, a propósito dos grandes senhores do seu tempo, sendo o ubi sunt um dos tópicos principais desta obra, em que se pergunta pelo paradeiro dos grandes personagens da história e dos luxos da Corte: “¿Qué se hizo el Rey Don Juan?” Na literatura francesa, o tópico atingiu uma das suas formulações mais duradouras na Ballade des dames du temps jadis, de François Villon, poema do século XV cujo refrão, através da interrogação pelo destino das damas ilustres do passado, se tornaria proverbial na cultura ocidental. O filólogo Ernst Robert Curtius, na sua obra fundamental sobre os tópicos da literatura europeia, sistematizou o ubi sunt como um dos motivos históricos mais persistentes da tradição literária ocidental, distinguindo-o dos simples lugares-comuns da retórica clássica.
Convém notar que o tópico não se extinguiu com o fim da Idade Média, tendo conhecido sucessivas reactualizações ao longo dos séculos, mesmo em contextos literários e ideológicos muito distantes da sensibilidade medieval, continuando o ubi sunt vigente na poesia contemporânea, reforçando os tons elegíacos ligados ao fim da paixão amorosa, à decadência do vigor corporal, à morte dos seres queridos e à ruína do lar.
A literatura de expressão portuguesa, historicamente atravessada por sentimentos de saudade e pela consciência do declínio, apropriou-se deste motivo retórico em diversas épocas. Está bem documentado na tradição petrarquista portuguesa, integrando o repertório retórico de Luís de Camões, cuja poesia lírica recorre, entre outros lugares-comuns de origem clássica e medieval, ao “ubi sunt, olim florebat, contemptus mundi”, latinizando o mal-estar da civilização, ao lado de outros tópicos petrarquistas amplamente estudados pela crítica camoniana. Este fundo comum de motivos remonta já ao Cancioneiro Geral de Garcia de Resende (1516), matriz do petrarquismo peninsular que viria a desaguar na obra camoniana.
No espaço brasileiro, o crítico Augusto Meyer dedicou um estudo ao tema, tratando do ubi sunt e da sua evolução, exemplificando trechos de diversas literaturas. É particularmente significativo o modo como entre muitos que abordaram o ubi sunt na poesia brasileira, Manuel Bandeira se volta à questão, o que se percebe no poema “Antônia” (e já o havia feito, segundo Meyer, no poema “Profundamente”). No poema “Antônia”, a evocação de uma paixão antiga e da casa entretanto desaparecida ( “Amei Antônia de maneira insensata (…) Mas os anos foram passando. Os anos são inexoráveis. Antônia morreu. A casa em que Antônia morava foi posta abaixo”) actualiza, num registo despojado e coloquial, a estrutura elegíaca própria do tópico medieval.
No contexto do ensino e da crítica literária portuguesa contemporânea, é ainda de assinalar que o tópico costuma servir de base a abordagens pedagógicas de textos de Gil Vicente, de Camões, de Miguel Torga e de Sophia de Mello Breyner Andresen, o que atesta a persistência do motivo como categoria operativa na leitura da poesia portuguesa de várias épocas, da lírica quinhentista à poesia do século XX. Por exemplo, em Sophia de Mello Breyner Andresen, o motivo surge frequentemente despido de moralismo cristão e aliado a uma nostalgia puramente existencial e marítima. Nos seus poemas, a voz lírica questiona o desaparecimento de dias perfeitos e de deuses antigos, transformando o ubi sunt num lamento pela perda da harmonia primordial entre o homem e a natureza.
- Bandeira, Manuel. Estrela da Vida Inteira. José Olympio, 1966.
- Curtius, Ernst Robert. European Literature and the Latin Middle Ages. Traduzido por Willard R. Trask, Princeton University Press, 1953.
- Friedman, Lawrence J. “The Ubi Sunt, the Regrets, and Effictio.” Modern Language Notes, vol. 72, 1957, pp. 499-505.
- Gilman, Stephen. “The ‘Ubi Sunt’ Motif in Macabre Poetry”. Romance Philology, vol. 1, no. 2, 1947, pp. 115-132.
- Manrique, Jorge. Poesía. Edição de Vicenç Beltran, Crítica, 1993.
- Marnoto, Rita. O Petrarquismo Português do Cancioneiro Geral a Camões. Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2015.
- Meyer, Augusto. “Pergunta sem Resposta.” Poesia e Estilo, Ed. do Autor, 1955.
- Villon, François. Obras. Edição bilingue, traduzido por Vasco Graça Moura, Relógio d’Água, 1999.



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