Em crítica literária, vagueness pode ser traduzido por vagueza, indeterminação, imprecisão significativa ou nebulosidade semântica. O termo designa uma qualidade da linguagem literária pela qual uma palavra, imagem, cena, voz narrativa ou situação não fixa completamente o seu referente, o seu sentido ou o seu valor interpretativo. Em vez de eliminar a compreensão, a vagueza frequentemente abre uma zona de hesitação produtiva, na qual o leitor é levado a completar, imaginar, inferir ou manter em suspenso diferentes possibilidades de sentido.
É importante distinguir vagueness de ambiguity. A ambiguidade ocorre quando uma expressão admite dois ou mais sentidos relativamente identificáveis; a vagueza ocorre quando os contornos do sentido permanecem difusos, graduais ou incompletamente determinados. Por exemplo, “banco” é ambíguo, porque pode significar instituição financeira ou assento; já expressões como “uma tristeza antiga”, “algo escuro”, “um lugar distante” ou “uma mulher de certa idade” são vagas porque não oferecem limites precisos para aquilo que designam. Em suma, a distinção principal é esta: uma expressão é ambígua quando permite duas ou mais interpretações relativamente distintas; uma expressão é vaga quando não possui fronteiras precisas de aplicação.
Na teoria literária anglófona, o termo aparece próximo de noções como ambiguity, indeterminacy, obscurity, suggestiveness, opacity e open-endedness. William Empson não toma vagueness como o centro terminológico da sua obra, mas o seu estudo clássico sobre a ambiguidade é fundamental para compreender como a crítica moderna passou a valorizar a multiplicidade, a indeterminação e a complexidade semântica da linguagem poética. Empson define ambiguity de modo muito amplo como qualquer nuance verbal que permita reações alternativas ao mesmo fragmento de linguagem; por isso, a sua teoria é frequentemente usada como ponto de partida para pensar também a vagueza literária.
A vagueza pode funcionar de várias maneiras:
- Vagueza referencial — não sabemos exatamente a que pessoa, lugar ou objeto o texto se refere.
- Vagueza psicológica — estados interiores são sugeridos, mas não claramente nomeados.
- Vagueza temporal ou espacial — o tempo e o espaço permanecem indefinidos.
- Vagueza moral — não é claro se uma ação, personagem ou acontecimento deve ser julgado positiva ou negativamente.
- Vagueza narrativa — lacunas na informação impedem uma interpretação definitiva dos acontecimentos.
- Vagueza simbólica — uma imagem ou objeto sugere sentidos múltiplos sem se reduzir a uma alegoria fixa.
Em Hamlet, a hesitação do protagonista é um exemplo clássico de vagueza psicológica e moral. Hamlet sabe que deve vingar o pai, mas o texto nunca reduz completamente a sua demora a uma única causa: covardia, excesso de pensamento, melancolia, escrúpulo moral, dúvida religiosa ou consciência teatral podem todos explicar parcialmente a sua conduta. O famoso monólogo “To be, or not to be” também funciona por vagueza: “ser” e “não ser” podem significar viver e morrer, agir e não agir, existir e desaparecer, suportar ou resistir. A força do verso está precisamente no facto de não se limitar a uma paráfrase única. Aqui, a vagueza não é defeito de expressão, mas condição da profundidade dramática da personagem. O Simbolismo francês foi talvez o primeiro movimento a elevar a vagueza a um princípio fundamental. No seu célebre poema “Art poétique” (1874), Paul Verlaine defende explicitamente o uso da linguagem imprecisa em detrimento da clareza excessiva:
“Il faut aussi que tu n’ailles point / Choisir tes mots sans quelque méprise : / Rien de plus cher que la chanson grise / Où l’Indécis au Précis se joint.” (É preciso também que não vás / Escolher tuas palavras sem algum equívoco: / Nada mais caro que a canção cinzenta / Onde o Indeciso ao Preciso se junta.)
Em Waiting for Godot, Godot nunca aparece e nunca é definido. Não se sabe ao certo se é Deus, a salvação, a morte, o sentido da vida, um patrão, uma promessa ou simplesmente uma ausência. A peça depende da vagueza dessa figura. Se Godot fosse identificado de modo preciso, a peça perderia grande parte da sua força filosófica e teatral. A vagueza permite que a espera se torne uma condição humana generalizada. Embora o termo seja inglês, o fenómeno é muito visível em literaturas de outras línguas. Em A Paixão segundo G.H., de Clarice Lispector, a experiência da narradora diante da barata é descrita em termos intensamente vagos, abstratos e paradoxais. O episódio pode ser lido como crise mística, colapso do eu, confronto com a matéria, experiência do informe ou dissolução da identidade burguesa. A vagueza não empobrece o texto; ao contrário, permite que a experiência narrada permaneça no limite do dizível.
- Channell, Joanna. Vague Language. Oxford University Press, 1994.
- Conrad, Joseph. Heart of Darkness. 1899. Penguin Classics, 2007.
- Eagleton, Terry. Literary Theory: An Introduction. 3rd ed., University of Minnesota Press, 2008.
- Eliot, T. S. The Waste Land and Other Poems. Faber and Faber, 2002.
- Empson, William. Seven Types of Ambiguity. 1930. 3rd ed., New Directions, 1966.
- Iser, Wolfgang. The Act of Reading: A Theory of Aesthetic Response. Johns Hopkins University Press, 1978.
- James, Henry. The Turn of the Screw. 1898. Oxford University Press, 2008.
- Kafka, Franz. The Trial. Translated by Breon Mitchell, Schocken Books, 1998.
- Keats, John. The Complete Poems. Edited by John Barnard, 3rd ed., Penguin Classics, 1988.
- Lispector, Clarice. A Paixão segundo G.H. Rocco, 1998.
- Melville, Herman. Moby-Dick; or, The Whale. 1851. Edited by Hershel Parker and Harrison Hayford, 2nd ed., W. W. Norton, 2002.
- Rimmon-Kenan, Shlomith. Narrative Fiction: Contemporary Poetics. 2nd ed., Routledge, 2002.
- Shakespeare, William. Hamlet. Edited by Ann Thompson and Neil Taylor, Arden Shakespeare, 2006.
- Woolf, Virginia. To the Lighthouse. 1927. Oxford University Press, 2006.



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