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Grupo de escritores contemporâneos e coetâneos que comungam dos mesmos ideiais, respondem aos mesmos desafios históricos, partilham a mesma estética e que muitas vezes procuram construir uma obra com características comuns. O conceito é naturalmente frágil se atribuído apenas em função do critério da contemporaneidade de um conjunto de escritores; também não é correcto agrupar escritores numa geração literária em função da idade, se não existirem afinidades ideológicas e estéticas e, sobretudo, um desejo colectivo de afirmação literária, condição que nos parece fundamental na canonização de uma geração literária; e ainda pode falhar o critério da familiaridade de opiniões e pensamento para agrupar certos escritores numa geração literária, porque esta admite a inclusão de indivíduos que não concordam com os mesmos ideiais, mas que, por razões históricas ou culturais, se encontram ligados a um grupo determinado. O conceito pode ser também de aplicação mais restrita, por exemplo, quando utilizado em expressões do tipo “a geração literária do autor A.”, que diz respeito, normalmente, ao conjunto de escritores revelados no momento histórico em que esse autor se anunciou, sem que necessariamente todos eles se tenham constituído em escola.

Uma das mais famosas gerações portuguesas, a Geração de 1870, de que fazem parte, entre outros, Eça de Queirós, Antero de Quental, Ramalho Ortigão e Oliveira Martins, só é agrupável se considerarmos a existência de uma programa estético colectivo e a aspiração comum de construção positiva de um dado caminho na história literária. O conceito já está, nesta altura, a germinar — é o próprio Antero que reconhece a existência de uma “geração nova” que está a nascer na vida literária portuguesa, o que se comprova no texto inconcluso que preparou entre 1872 e 1875, com o título de “Programa para os Trabalhos da Geração Nova”. Uma geração literária, como afirmação colectiva de um grupo de escritores, necessita de estabelecer quase sempre um corte de relações ideológicas com as gerações precedentes, sem com isso estarem obrigados a assinarem os mesmos textos nos mesmos momentos históricos. Um grupo de escritores da mesma idade também não faz por si só uma geração literária, que pode acolher escritores de diferentes formações académicas e revelados em momentos únicos. Uma geração literária pode, por esta razão, admitir a existência de dissidentes, que escolhem não seguir a mesma ideologia, mesmo que, eventualmente, sejam da mesma idade do conjunto de escritores que a constituem.

A ideia de inscrever na história literária determinadas gerações é praticamente uma invenção do século XIX, embora já Heródoto, nas suas Histórias, tenha dividido o século em três gerações (aetates). Uma das primeiras tentativas de identificar e caracterizar gerações literárias é a de Friedrich Schlegel, que, em História da Literatura Antiga e Moderna (1815), destaca três gerações de escritores alemães no século XVIII. Devemos, no entanto, a outro filósofo alemão, uma das primeiras reflexões teóricas sobre o conceito de geração: num estudo dedicado a Novalis (1865), W. Dilthey discute a aplicação do conceito, descurando, todavia, o critério da idade na sua formulação. Fidelino de Figueiredo, numa das primeiras tentativas portuguesas de fazer história crítica da literatura, divide essa história em épocas, mas não deixa de considerar, por exemplo, em História da Crítica Literária em Portugal (1910), que existiu uma geração de 1870 que se afirmou pelo gosto anti-romântico.

O conceito de geração pertence ao grupo de termos necessários para fazer história literária e sua respectiva didáctica. Aí se incluem os conceitos de era / época (podemos falar, por exemplo, de uma era monárquica e de uma era republicana; e podemos distinguir uma época romântica e uma época realista, como subdivisões epocais), período / fase (falamos, por exemplo, do período barroco; e falamos da fase barroquista do escritor A., como subdivisão do barroco), movimento ou corrente (termos sinónimos para caracterizar uma escola de escritores — não necessariamente uma única geração de escritores — que se reúnem numa mesma ideologia e possuem uma estética individualizada, geralmente traduzida num programa estético-literário, por exemplo, o movimento impressionista, expressionista, cubista, futurista, etc.). O conceito de geração literária partilha a mesma noção de grupo de intelectuais que pretendem afirmar-se social e culturalmente, rompendo com as regras estabelecidas para o momento histórico, época, período, movimento ou corrente em que pretendem estabelecer uma ruptura. Tal geração afirmar-se-á se conseguir formar uma escola de pensamento influente no progresso social, nos costumes civilizacionais, nas políticas culturais ou na educação literária dos indivíduos. O grau de combatividade de uma geração está, naturalmente, dependente do estado actual das coisas no momento em que se afirma o desejo colectivo de mudança.

{bibliografia}

António Machado Pires: A Ideia de Decadência na Geração de 70 (2ªed., 1992); Clara Rocha: “Gerações, gerações, gerações…”, Nova Renascença, vol.VI, nº21 (1986); Fernando J. B. Martinho: Tendências Dominantes da Poesia Portuguesa da Década de 50 (1996); Henry Peyre: Les Générations littéraires (1948) ; Ortega y Gasset : « La idea de las generationes », in Obras Completas, tomo III, 7ª ed. (s.d.); Ulrich Weisstein: “Epoch, Period, Generation and Movement”, in Comparative Literature and Literary Theory (1973).