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São, hoje, poemas líricos, geralmente em quadras de redondilha maior, que os anjos do círio cantam ou declamam em louvor dos santos, mormente de Nossa Senhora, por ocasião das festividades de um giro. São distribuídas em pequenos cadernos ou em folhetos a todos os que participam nas solenidades. “As Loas – cânticos sagrados / De inocência e singelesa, / São frutos de amor criados / Na alma pura portuguesa. // Loas – orações do povo / Louvando a Virgem Maria / São como um Evangelho Novo / De Fé, de amor e poesia”. (A. Capucho, A Sra. da Nazaré, 1961).

O círio consiste numa procissão em que os mordomos de determinada comunidade vão fazer a entrega das insígnias, que retiveram durante um ano, aos representantes de outra comunidade. O giro é uma volta completa de tais insígnias por todas as freguesias pertencentes à irmandade. Por exemplo, os círios da Sra. da Nazaré e da Sra. do Cabo ligam dezassete e vinte e seis comunidades, respectivamente, pertencentes na sua maioria ao concelho de Sintra. “Círios e giro podem ser lidos como manifestações simbólicas tanto de posse e sagração do espaço físico como do abrandamento temporário das barreiras de vizinhança, graças a uma crença comum que tem por centro a Mãe de todos: a Senhora, seja qual for a invocação escolhida. E as Loas são, em cada círio, a expressão mais eloquente desse sentimento-desejo de fraternidade e domínio” O ritual integra, normalmente, cinco momentos: “a entrega da bandeira — tristeza de uns e alegria de outros; saída do círio — expectativa, desejo, temor; lugares do trânsito — recordações e apelos; chegada do círio — alegria esfuziante; e festa (igreja ou procissão) — confirmação da posse” (O. Paz, “Loas à Sra. do Cabo”, Jornal de Sintra, Julho de 1986). Virgem-Mãe-Protectora, Mãe Deificada (a Grande Mãe), Mãe Omnipresente (Mãe Colectiva), Senhora da Fertilidade são outros tantos epítetos que, por outras palavras, o povo atribui a Nossa Senhora nas suas Loas (cf. idem).

Acerca da origem das Loas, Teófilo Braga (Epopêas da Raça Mosarabe, 1871) afirma: “A esta fórma poetica se pode assignar tres periodos de existencia; o primeiro, religioso, reminiscencia do genio gothico; o segundo, sentimental e lyrico devido á influencia normanda que se determinou na nossa poesia no tempo de Dom Fernando e Dom Juan I; e o terceiro, dramático, usado como prólogo dos Autos hieraticos que é a forma em que parece ter estacionado”. O uso de loar nos cantares medievais aproxima-nos, de certa forma, da opinião de Teófilo Braga, no tocante ao lirismo do segundo período: “Quer’eu en maneira de proençal / fazer agora un cantar d’amor / e querrei muit’i loar mia senhor” (D. Dinis). “[…] ora quero fazer un cantar / en que vos loarei toda via” (J. Garcia de Guilhade). Vinte anos antes, Almeida Garrett (Romanceiro, II, 1850) tinha escrito que “A loa deita-se ainda hoje nos círios das províncias do Sul, recita-se nos presépios do Natal das províncias do Norte do reino. É um cantar de anjos, de génios, de espíritos; mas dramático, dialogado: é um coro hierático que se entoa, que se deita do céu para a terra, que entes superiores cantam para ouvirem homens e deuses.” E acrescenta: “Os Thespis do nosso teatro começaram talvez por aqui, antes que Gil Vicente e João da Encinã (sic) subissem ao seu tablado de novos Ésquilos”. No que se refere à Espanha, Demétrio E. Calderón (Diccionario de Términos Literarios, 1996), depois de afirmar que se trata de uma “pieza breve con la que sollia comenzar la representacion teatral en el Siglo de Oro”, atribui a origem do modo dramático à influência do entremez: “En un principio, la loa era simplemente recitada por un actor, pero más tarde, probablemente a imitacion del entremés, se introdujo una forma dialogada[…]”. A Loa mais antiga recolhida por Leite de Vasconcelos data do século XVIII, é dedicada à Sra. da Nazaré pelos “Irmãos do Círio de Lisboa”, e tem como “Interlocutores: Devoção, Festividade, Applauso, Fama, Pandorga (Velha), Gosto (Gracioso), Culto”, figuras simbólicas. Foi seguramente nos finais do século XIX que a Loa abandonou o diálogo, retomando a forma de poesia lírica. Por exemplo, em João de Deus, que escreveu “Loas à Sra. do Cabo – círio de Almargem” (Campo de Flores, 1893), o único vestígio do género dramático está na indicação: “Recitadas por anjos alternadamente”.

{bibliografia}

Braga, Teófilo, Epopêas da Raça Mozarabe, Imprensa Portuguesa Editora, Porto, 1871. Calderón, Demétrio Estébanez, Diccionario de Términos Literários, Alianza Editorial, Madrid, 1996. Deus, João de, Campo de Flores, vol. I, 9ª ed., Bertrand, Amadora, s/d. Fontes, Joaquim, “Aspectos populares de N. Sra. do Cabo”, Boletim da J. P. Estremadura, vol. 26-31, Lisboa, 1951/52. Guerreiro, Viegas, Guia de Recolha de Literatura Popular, Lisboa, 1976. Loas às Senhoras do Cabo e da Nazaré, Rec. e Org. de O. Paz, Inédito. Paz, Olegário, “Loas à Senhora do Cabo”, Jornal de Sintra, Sintra, Julho de 1986. Vasconcelos, J. Leite de, “Cirios Estremenhos”, Revista Lusitana, vol XXX, n. 1-1, Lisboa, 1932.