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Termo que se aplica às obras dramáticas que remetem para si próprias, enquanto textos de representação. Em La vida es sueño (in Primeira parte de las comedias de Don Pedro Calderón de la Barca, Madrid, 1636), de Calderón de la Barca, Segismundo faz uma pergunta que vamos encontrar em inúmeros textos de metaliteratura, quando se interroga se aquilo que está a viver é algo que realmente está a acontecer ou não passa de um sonho ou um produto da fantasia. Esta situação da personagem que interroga a veracidade da situação dramática é recorrente em quase toda a literatura ocidental. O teatro de Shakespeare lega-nos uma galeria de exemplos de metadrama, desde os mundos representados em Midsummer Night’s Dream, onde a fantasia dialoga com a realidade objectiva, até Hamlet, um exemplo clássico de metateatro por tratar de problemas de representação dentro do próprio texto de representação, em particular questões relacionadas com a arte dramática e a imitação (mímesis) verosímil da natureza humana em toda a sua complexidade. A esta técnica de auto-reflexão do teatro dentro do teatro, chamou a crítica inglesa the play within a play. A técnica tem particular expressão dramática quando uma personagem veste a pele de outra personagem, dentro do mesmo texto de representação, como acontece em Henry IV.

De notar que a colocação de uma história dramática dentro de outra é um processo que está devidamente explorado pelo menos deste o trabalho monumental de Ovídio, nos seus quinze livros de Metamorfoses, onde pretende representar toda a história conhecida da humanidade, recuperando inúmeros relatos de mitos conhecidos e transmitidos oralmente na Antiguidade arcaica. O próprio Shakespeare recupera um desses mitos para construir uma play within a play em Midsummer Night’s Dream, um “sonho” originalmente escrito para uma festa de casamento na vida real, que aproveita a fábula de Píramo e Tisbe, tal como a conhecemos recontada por Ovídio.

{bibliografia}

James L. Calderwood: Metadrama in Shakespeare’s Henriad (1979); Joseph B. Wagner “Hamlet Rewriting Hamlet.” Hamlet Studies 23 (2001); Judd D. Hubert Metatheatre: The Example of Shakespeare (1991); Lionel Abel: Metatheatre (1963); Michael Goldman: “Hamlet: Entering the Text.” Theatre Journal 44 (1992).