Conjunto de procedimentos pelos quais uma narrativa selecciona, organiza e apresenta a informação sobre a história, definindo quem fala (voz), quem percebe (focalização) e a partir de que posição espacial, temporal, afectiva ou ideológica o universo ficcional é apreendido. Em sentido lato, equivale a ponto de vista; em sentido técnico estrito (narratologia genettiana), distingue-se da voz narrativa e designa a focalização (regulação do conhecimento e percepção). Envolve não apenas o posicionamento técnico do narrador, mas a sua atitude cognitiva, moral ou ideológica (ex.: “perspectiva colonial”, “perspectiva da infância”). Em qualquer das variantes terminológicas, designará sempre o conjunto de operações pelas quais o discurso narrativo regula e restringe a informação diegética transmitida ao leitor, determinando de que posição (espacial, temporal, cognitiva, afectiva e ideológica) o universo representado é dado a conhecer. Toda a narrativa implica necessariamente uma perspectiva: não há relato de grau zero, isto é, apresentação de acontecimentos que não seja já uma apresentação a partir de algum lugar. Neste sentido lato, a perspectiva narrativa é uma propriedade constitutiva e não facultativa do texto narrativo. Por exemplo, em Bernardim Ribeiro, Menina e Moça, a perspectiva feminina em primeira pessoa, com encaixe de narrativas segundas e célebre ambiguidade quanto à instância que assume o relato; em José Cardoso Pires, O Delfim, há narrador homodiegético-investigador, que confessa as lacunas do seu saber; e em Balada da Praia dos Cães organiza a narrativa como dossiê, confrontando autos, depoimentos e hipóteses; em Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas, registamos umnarrador autodiegéticopost mortem, que exibe e desmonta a própria perspectiva; em Clarice Lispector, A Hora da Estrela, há um desdobramento entre o narrador ficcional Rodrigo S. M. e Macabéa, com tematização explícita da violência inerente ao acto de perspectivar outrem; e em Luandino Vieira, Luuanda, há um narrador oral, comunitário, cuja perspectiva se marca sobretudo no plano fraseológico.
Enquanto sinónimo aproximado de ponto de vista, designa o ângulo de observação e de apreciação do mundo narrado, entendido como o “lugar” de onde a história é vista e contada. Nesta acepção, herdada de Henry James (The Art of the Novel, prefácios de 1907-1909) e de Percy Lubbock (The Craft of Fiction, 1921), a perspectiva confunde-se com a totalidade das opções técnicas do romancista quanto ao seu “centro de consciência” (central intelligence) ou “reflector”. A célebre imagem jamesiana da “casa da ficção”, com as suas mil janelas, cada uma delas ocupada por um observador diferente, condensa esta concepção: o que muda de romance para romance não é o espectáculo, mas a abertura por onde se olha. A distinção clássica entre showing (mostrar) e telling (contar), formulada por Lubbock e criticada por Wayne C. Booth em The Rhetoric of Fiction (1961), é solidária desta acepção.
Na sequência da crítica de Gérard Genette (Figures III, 1972), a perspectiva em sentido técnico corresponde à focalização, isto é, à selecção da informação narrativa em função de um “campo” ou de um saber. Genette impõe a distinção fundamental entre duas questões que a crítica anterior confundia:
- Quem vê? (ou, mais rigorosamente, quem percepciona, quem sabe) → perspectiva/focalização, categoria do modo;
- Quem fala? → voz narrativa.
O carácter operatório da distinção é evidente: num romance autodiegético de tipo memorialístico, quem fala é o narrador adulto, mas quem vê pode ser a criança que ele foi. Genette distingue três tipos:
- focalização zero(ou não-focalização): o narrador diz mais do que qualquer personagem sabe; corresponde grosso modo à omnisciência da narrativa clássica;
- focalização interna: fixa(um só reflector), variável (vários, sucessivamente), múltipla (o mesmo acontecimento visto por diferentes personagens);
- focalização externa: o narrador diz menos do que a personagem sabe; registam-se comportamentos e falas, mas não a interioridade (visão “behaviorista” ou “objectiva”).
Genette retoma e reformula a tipologia de Jean Pouillon (Temps et roman, 1946): vision “par derrière”, vision “avec”, vision “du dehors”, correspondentes, na formulação de Todorov, às relações Narrador > Personagem, Narrador = Personagem, Narrador < Personagem.
Mieke Bal, corrigindo Genette, propôs autonomizar o focalizador enquanto sujeito da percepção, distinto do narrador e susceptível de encaixe (focalização de primeiro e de segundo grau), assim como o focalizado enquanto objecto. Genette respondeu a esta e outras objecções no Nouveau discours du récit (1983), preferindo falar de focalização como restrição de campo e não como posse de um olhar.
Numa terceira acepção, corrente sobretudo na tradição germânica, a perspectiva designa o tipo global de configuração enunciativa do romance. Franz K. Stanzel (Theorie des Erzählens, 1979) descreve um círculo tipológico organizado por três oposições (pessoa, perspectiva, modo) e três “situações narrativas típicas”:
- autorial (narrador exterior, saliente, comentador);
- figural (o mundo é filtrado por uma personagem-reflector, sem mediação ostensiva);
- de primeira pessoa (narrador pertencente ao mundo narrado).
Norman Friedman, em “Point of View in Fiction” (1955), propusera já uma escala de oito posições, da editorial omniscience à camera, ordenadas segundo o grau decrescente de intervenção do narrador (grelha ainda hoje útil). Boris Uspenski (Poetika kompozicii, 1970) mostrou que a perspectiva não é apenas óptica, decompondo-a em quatro planos, susceptíveis de coincidirem ou de divergirem:
- plano fraseológico (marcas linguísticas: nomeação das personagens, registos, discurso indirecto livre);
- plano espácio-temporal (posição do observador, panorâmica ou próxima, simultânea ou retrospectiva);
- plano psicológico (acesso ou não à interioridade; visão “de dentro” ou “de fora”);
- plano ideológico (sistema de valores a partir do qual se avalia o narrado).
Nesta acepção, a perspectiva narrativa aproxima-se de visão do mundo e articula-se com a problemática bakhtiniana da polifonia e do dialogismo: o romance é o género em que se confrontam consciências axiologicamente autónomas, sem que a do autor as subsuma. A perspectiva torna-se então categoria sociológica e ética, e não apenas técnica.
A perspectiva envolve ainda a questão da fiabilidade. O narrador não fidedigno (Booth) é aquele cujos valores ou cuja informação divergem das normas implícitas da obra, obrigando o leitor a construir, por detrás da perspectiva declarada, uma segunda perspectiva correctiva. Estudos posteriores (Ansgar Nünning, Tamar Yacobi) deslocaram o problema do texto para o processo de leitura: a não fidedignidade seria uma estratégia de naturalização exercida pelo leitor perante incoerências textuais.
Na narratologia dos últimos decénios, a perspectiva é redefinida como fenómeno de deixis e deconstrução mental. Fala-se de deictic shift (transporte do leitor para o centro dêictico da personagem), de mind-style (Roger Fowler) – o idiolecto cognitivo que revela um modo idiossincrático de apreender o real -, de qualia e de perspectiva empática (Suzanne Keen). Monika Fludernik substitui a mediação narratorial pela “experiencialidade” como núcleo da narratividade, e Manfred Jahn recupera a metáfora óptica da “janela de focalização” para descrever campos perceptivos de amplitude variável.
Numa acepção mais recente ligada à intermedialidade literária, a perspectiva narrativa aplica-se à narrativa fílmica, dramática, banda desenhada e videojogo, onde importa distinguir a perspectiva ocular (ponto de vista da câmara, plano subjectivo) da perspectiva cognitiva (a que saberes o espectador tem acesso) e da perspectiva axiológica (com quem o dispositivo nos leva a alinhar). Seymour Chatman (Coming to Terms, 1990) propôs, para evitar equívocos, os termos slant (atitude do narrador) e filter (mediação da consciência da personagem).
Confusões correntes entre termos que devem ser evitadas:
- Perspectiva ≠ voz. A pessoa gramatical da narração não determina a focalização: há narrativas na primeira pessoa com focalização zero (o narrador retrospectivo que tudo sabe) e narrativas na terceira pessoa com focalização interna estrita.
- Perspectiva ≠ estatuto do narrador. As categorias hetero-,homo -e autodiegético respeitam à relação do narrador com a diegese, não ao campo de saber mobilizado.
- Perspectiva ≠ discurso. As formas de representação do pensamento (monólogo interior, discurso indirecto livre, psiconarração — v. Dorrit Cohn) são realizações verbais que servem a perspectiva, sem com ela se confundirem.
- Omnisciência é uma noção teologicamente conotada e hoje contestada (Jonathan Culler), preferindo-se falar de ausência de restrição de campo.
Em suma, a análise da perspectiva narrativa relaciona-se com os conceitos de focalização, ponto de vista, voz narrativa, narrador, distância, saber narrativo e fiabilidade. Em narratologia, a distinção entre voz e perspectiva é particularmente importante: uma narrativa pode ter um narrador na primeira pessoa e, ainda assim, apresentar mudanças na focalização; inversamente, um narrador na terceira pessoa pode adoptar a perspectiva interna de uma personagem.
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