Do grego táxis, ‘ordenação’, ‘disposição’, acrescido do sufixo -ema, característico das unidades linguísticas mínimas; fr. taxème; ing. taxeme]. Nos estudos literários e da semântica textual, o taxema é a pedra angular da arquitectura paradigmática de um texto. Consiste, numa definição rigorosa, na classe mínima e coerente de sememas (unidades lexicais ou de significação) que se encontram irmanados por um mesmo sema genérico (um traço de sentido comum de natureza categorial). O taxema funciona, assim, como um micro-universo fechado de opções semânticas onde os termos se atraem por afinidade e se distinguem através de contrastes subtis (os semas específicos). Na análise literária, a identificação dos taxemas permite mapear as escolhas do autor e compreender como a co-ocorrência destas palavras gera as isotopias (as linhas de força e coerência) que sustentam a profundidade e a multiplicidade de leituras de uma obra.
O termo foi cunhado originalmente na linguística distribucionalista norte-americana por Leonard Bloomfield, na sua obra magna Language (1933). Para Bloomfield, o taxema era a unidade mínima da forma gramatical, ou seja, um traço elementar de arranjo sintáctico (como a ordem das palavras ou a modulação da voz), desprovido, em si mesmo, de significado autónomo.
No entanto, com o advento do estruturalismo europeu e o subsequente desenvolvimento da semiótica e da teoria da literatura nos anos 60 e 70, o termo sofreu uma reconfiguração radical. Foi a escola francesa, herdeira de A. J. Greimas, e mais especificamente o investigador François Rastier, quem importou e adaptou a noção para a análise do texto literário. Na sua Sémantique interprétative (1987), Rastier deslocou o taxema do eixo sintagmático (a ordem gramatical) para o eixo paradigmático (o arquivo de sentidos). A partir desse momento, o taxema consagrou-se na análise literária moderna como uma ferramenta conceptual de eleição para dissecar a rede de afectos, símbolos e percepções que operam nas entrelinhas do poema ou da narrativa.
Muito antes da criação da palavra, a literatura organizava a experiência através de classes e oposições. As epopeias antigas distinguiam deuses, heróis, reis, guerreiros, estrangeiros e monstros; a tragédia classificava acções, paixões e posições familiares; a literatura medieval distribuía seres e objectos por ordens teológicas, morais e cosmológicas. Não é historicamente correcto afirmar que essas tradições “utilizavam taxemas”, mas é legítimo aplicar-lhes o conceito como instrumento moderno de análise.
Nas epopeias homéricas, por exemplo, o vocabulário das armas estabelece classes restritas de objectos (espada, lança, escudo, elmo) cujos elementos se distinguem pela função e pelo valor simbólico. Na literatura cavalheiresca, o mesmo objecto pode passar do taxema dos instrumentos de guerra para o das insígnias de legitimidade. Uma espada não é apenas uma arma: pode tornar-se relíquia, herança dinástica ou prova de eleição.
A partir do romantismo e, sobretudo, do simbolismo, a linguagem literária passou a explorar mais intensamente a aproximação de classes semanticamente afastadas. A sinestesia, por exemplo, associa elementos pertencentes aos taxemas da cor, do som, do tacto, do gosto ou do olfacto. Em vez de respeitar a classificação ordinária das sensações, a poesia cria correspondências entre elas.
Na poesia simbolista de Camilo Pessanha, concretamente no seu livro Clepsidra, deparamo-nos com uma arquitectura poética que assenta recorrentemente num taxema da liquidez ou da água (agrupando sememas como “fontes”, “mar”, “lágrimas”, “ondas”, “gelo”). O sema genérico que os une é a natureza fluida. Contudo, é o contraste literário no interior deste taxema − entre a água aprisionada (o gelo, o cálice) e a água que escorre irremediavelmente (as lágrimas, as ondas) − que projecta no espírito do leitor a isotopia principal da obra: o escoamento fatal e melancólico do tempo.
Um outro exemplo notável pode ser colhido em “O Sentimento dum Ocidental” de Cesário Verde. O poeta constrói meticulosamente um taxema da iluminação artificial urbana (“gás”, “luzes”, “lampeões”, “fogo-fátuo”). A intersecção e repetição destes vocábulos ao longo das estrofes não é uma mera colecção de objectos, mas antes a acção estruturante que instaura um cenário opressivo. Ao recorrer a este taxema restrito, a poesia de Cesário aprisiona o leitor na percepção de uma cidade fantasmagórica e doentia, contrastando-a tacitamente com o taxema ausente da luminosidade solar e natural.
Na crítica literária estruturalista, o taxema tornou-se útil para estudar a estrutura lexical das descrições, as oposições entre personagens, as classificações sociais do romance e as redes metafóricas da poesia. A crítica pós-estruturalista, sem necessariamente conservar o termo, interessou-se pela operação inversa: os momentos em que um texto desestabiliza as categorias de que depende.
Nos estudos literários contemporâneos, incluindo a estilística de corpus e as humanidades digitais, o conceito pode orientar a análise de conjuntos lexicais recorrentes. A identificação automática de vocabulário marítimo, religioso, jurídico ou corporal não constitui, porém, por si só, uma análise taxémica. É necessário demonstrar quais as relações diferenciais que o texto estabelece entre os elementos e como essas relações intervêm na produção do sentido.
- Bloomfield, Leonard. Language. Henry Holt and Company, 1933.
- Borges, Jorge Luis. “El idioma analítico de John Wilkins.” Otras inquisiciones, Sur, 1952, pp. 121-125.
- Foucault, Michel. Les Mots et les choses: Une archéologie des sciences humaines. Gallimard, 1966.
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- Greimas, Algirdas Julien, and Joseph Courtés. Sémiotique: Dictionnaire raisonné de la théorie du langage. Hachette, 1979.
- Hjelmslev, Louis. Prolegomena to a Theory of Language. Translated by Francis J. Whitfield, University of Wisconsin Press, 1961.
- Pike, Kenneth L. Language in Relation to a Unified Theory of the Structure of Human Behavior. 2nd ed., Mouton, 1967.
- Pottier, Bernard. Linguistique générale: Théorie et description. Klincksieck, 1974.
- Rastier, François. Arts et sciences du texte. Presses Universitaires de France, 2001.
- Rastier, François. Meaning and Textuality. Translated by Frank Collins and Paul Perron, University of Toronto Press, 1997.
- Rastier, François. Sémantique interprétative. Presses Universitaires de France, 1987.



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