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No ecossistema da teoria literária, da narratologia e da estilística, o traço constitui a unidade mínima e irredutível de distinção e de significação. Numa definição transversal, é a marca singular (semântica, psicológica, física ou formal) que, ao isolar-se ou ao combinar-se com outras, permite a construção e o reconhecimento de uma identidade textual. O conceito desdobra-se em três eixos fundamentais: na narratologia (como traço de carácter), operando como o atributo que preenche e densifica o esqueleto de uma personagem (um vício, uma obsessão, um pormenor físico); na semântica (como traço sémico ou sema), funcionando como a fracção elementar de sentido que compõe as palavras e tece as isotopias de um poema (em íntima ligação com o taxema); e na estilística (como traço de estilo), revelando-se na recorrência de uma idiossincrasia sintáctica ou lexical que denuncia a assinatura e a cosmovisão do autor.

Na semântica estrutural, o traço foi concebido como componente mínimo do significado. Termos aparentados podem ser descritos através de propriedades comuns e diferenciais. Uma análise clássica de palavras pertencentes ao campo dos assentos, por exemplo, pode distinguir cadeira, poltrona, banco e sofá mediante traços relativos à presença de encosto, braços, pés ou capacidade para uma ou várias pessoas.

Na estilística, um traço é uma propriedade formal que se torna relevante por contraste com uma norma. A noção de norma pode referir-se à língua comum, a um género, a um período, ao conjunto da obra de um autor ou ao contexto imediato de uma passagem.

A conceptualização do traço na teoria literária é devedora das revoluções linguísticas da primeira metade do século XX. A sua génese teórica encontra-se na fonologia da Escola de Praga, onde Roman Jakobson e Nicolai Trubetzkoy definiram os “traços distintivos” (traits distinctifs) como as propriedades acústicas mínimas (sonoridade, nasalidade, etc.) capazes de diferenciar fonemas.

Nas décadas de 1960 e 1970, o estruturalismo francês importou e adaptou agilmente esta noção para a dissecação da narrativa. Algirdas Julien Greimas, na sua Semântica Estrutural (1966), propôs que o sentido de um texto literário não reside nas palavras como blocos estanques, mas nos feixes de traço» conceptuais que as atravessam e unem.

No domínio da construção de personagens, Roland Barthes, no seu seminal e disruptivo ensaio S/Z (1970), revolucionou a compreensão do traço de carácter. Para Barthes, a personagem literária clássica não é uma “pessoa” de carne e osso, mas sim um “nome próprio” que actua como uma força de atracção magnética, em torno do qual se aglomeram e fixam diversos traços semânticos e atributos (o que ele baptizou de Código Sémico). Paralelamente, na tradição anglo-saxónica, teóricos da narrativa como Seymour Chatman consolidaram a ideia de que a personagem se define exactamente como um “paradigma de traços” (paradigm of traits), libertando assim a análise literária da psicologização romântica e ingénua, e tratando o traço como um elemento estritamente estrutural e textual.

Por exemplo, em Eça de Queirós, o traço físico e comportamental funciona frequentemente como uma metonímia cruel e reveladora. A personagem do Conselheiro Acácio (em O Primo Basílio) é construída através de traços recorrentes e caricaturais: a calvície, a gravidade oca dos gestos, a sentenciosidade vazia do discurso. A acumulação e repetição destes traços petrifica a personagem no seu ridículo burguês, demonstrando como a estética realista dependia da selecção cirúrgica de traços fisionómicos para tipificar e criticar os vícios sociais da época.

Na poesia, os heterónimos de Fernando Pessoa são, na sua essência, constelações de traços psicológicos e filosóficos perfeitamente delimitados. O que distingue Ricardo Reis de Álvaro de Campos não é apenas a biografia ficcional, mas a oposição rigorosa de traços: o estoicismo, o paganismo e a fria contenção formal do primeiro colidem frontalmente com o futurismo, a angústia febril e o verso livre do segundo.

Jacques Derrida atribui ao conceito de trace uma função decisiva. Nenhum signo possui um sentido plenamente presente e autónomo: conserva marcas das diferenças que o constituem e remete para outros signos. O traço não é um resto empírico deixado por uma presença anterior inteiramente recuperável; é a condição pela qual qualquer presença significante se encontra desde sempre atravessada pela ausência e pela diferença.

Nesta perspectiva, a escrita deixa de ser considerada simples cópia de uma voz originária. Toda a significação implica repetição, espaçamento e diferimento. O texto literário torna especialmente visível esse processo através da citação, da alusão, da paródia, da tradução e da reescrita.

O conceito apresenta quatro dificuldades principais:

  1. A primeira é a atomização. A decomposição de um texto em traços mínimos pode fazer esquecer as relações, os ritmos e os desenvolvimentos que produzem a experiência da leitura. O traço só adquire sentido na configuração a que pertence.
  2. A segunda é a circularidade. Um crítico pode seleccionar como característicos apenas os elementos que confirmam uma definição prévia do autor ou do período. Para evitar esse problema, deve declarar a norma de comparação e considerar também os contra-exemplos.
  3. A terceira é a essencialização. Um traço físico, linguístico ou cultural pode ser indevidamente convertido numa essência psicológica ou colectiva. Esta operação é especialmente problemática na caracterização de grupos sociais e históricos.
  4. A quarta é a indeterminação do vestígio. Uma marca não revela automaticamente a causa que a produziu. O mesmo silêncio pode resultar de censura, esquecimento, escolha estética ou perda material. O traço indica que existe um problema de interpretação; não garante, por si mesmo, a solução.

Em suma, o traço ocupa uma posição de fronteira entre o mínimo e o complexo, a presença e a ausência, a materialidade e a interpretação. Pode ser uma linha, uma diferença, uma propriedade, um indício ou um resto. A sua unidade não resulta de uma essência comum, mas de uma operação: traçar é produzir uma marca que separa, liga ou conserva.

Na literatura, o traço permite reconhecer uma personagem num gesto, um estilo numa construção, uma tradição numa alusão e uma perda numa lacuna. Nunca corresponde, porém, à totalidade daquilo que dá a conhecer. A sua produtividade crítica reside justamente nessa incompletude: faz aparecer uma forma sem a encerrar definitivamente.

 

Bibliografia:

  • Barthes, Roland. S/Z. Tradução de Léa Novaes, Edições 70, 1980.
  • Chatman, Seymour. Story and Discourse: Narrative Structure in Fiction and Film. Cornell University Press, 1978.
  • Compagnon, Antoine. La Seconde Main, ou le travail de la citation. Seuil, 1979.
  • Deleuze, Gilles. Proust and Signs. Translated by Richard Howard, University of Minnesota Press, 2000.
  • Derrida, Jacques. De la grammatologie. Minuit, 1967.
  • Derrida, Jacques. L’Écriture et la différence. Seuil, 1967.
  • Genette, Gérard. Figures III. Seuil, 1972.
  • Greimas, Algirdas Julien. Semântica Estrutural: Pesquisa de Método. Tradução de Álvaro Cabral, Editora Cultrix, 1973.
  • Hamon, Philippe. “Pour un statut sémiologique du personnage.” Poétique du récit, edited by Gérard Genette and Tzvetan Todorov, Seuil, 1977, pp. 115-180.
  • Hjelmslev, Louis. Prolegomena to a Theory of Language. Translated by Francis J. Whitfield, University of Wisconsin Press, 1961.
  • Jakobson, Roman. Selected Writings. Vol. 3, Mouton, 1981.
  • Jakobson, Roman, Gunnar Fant, and Morris Halle. Preliminaries to Speech Analysis: The Distinctive Features and Their Correlates. MIT Press, 1952.
  • Jakobson, Roman, and Morris Halle. Fundamentals of Language. Mouton, 1956.
  • Kristeva, Julia. Sèméiôtikè: Recherches pour une sémanalyse. Seuil, 1969.
  • Pottier, Bernard. Linguistique générale: Théorie et description. Klincksieck, 1974.
  • Rastier, François. Sémantique interprétative. Presses Universitaires de France, 1987.
  • Reis, Carlos, e Ana Cristina Macário Lopes. Dicionário de Narratologia. Livraria Almedina, 1987.
  • Todorov, Tzvetan. As Estruturas Narrativas. Tradução de Leyla Perrone-Moisés, Editora Perspectiva, 1969.