ÜBERMENSCH

Der Übermensch é um conceito central da obra de Friedrich Nietzsche, filósofo alemão do século xix. Übermensch é usualmente traduzido como Superman, em inglês, e como Super-Homem, em português. Entretanto, é preciso cuidado para não confundi-lo com the Superman, personagem das histórias em quadrinhos criado em 1938, embora haja relação entre os termos. “Mensch”, em alemão, é um termo neutro, a indicar “ser humano”, enquanto “Mann” indicaria, aí sim, “homem”, por oposição a “mulher”. O Superman norte-americano seria, na verdade, correspondente a der Übermann. Über, por sua vez, significa “sobre; acima de; além”. A tradução mais próxima do conceito do filósofo talvez fosse, então: o “além-do-humano”. As traduções que se impuseram, todavia, foram aquelas que facilitam a confusão com o herói estadunidense. Magnus, Stewart e Mileur, no seu trabalho sobre “o caso Nietzsche”, evitam o termo superman exatamente “because the word ‘superman’ seems to us to have been preempted by Clark Kent in English”. A opção overman, por outro lado, além de não traduzir todas as possibilidades contidas na expressão alemã, compete, em desvantagem, com o largo uso de Superman. Logo, eles preferem dizer Übermensch e Übermenschlichkeit (equivalente a “sobre-humanidade”, por analogia a übermenschlich, adjetivo referente a “sobre-humano”), explicando e trabalhando os termos sem traduzi-los diretamente. O termo Übermensch não teve uma história tranqüila. No século xx, os nazistas apropriaram-se do termo, para melhor forjarem o mito da superioridade ariana. Os norte-americanos, certamente por oposição conveniente — the Superman versus der Übermensch —, valorizariam sobremaneira seu herói dos quadrinhos. Em que sociedade se precisa tanto de “super-homens”, defendendo, cada um a seu modo, a liberdade, os fracos, e os oprimidos? Talvez, como especula Umberto Eco, “numa sociedade particularmente nivelada, onde as perturbações psicológicas, as frustrações, os complexos de inferioridade estão na ordem do dia; numa sociedade industrial onde o homem se torna número no âmbito de uma organização que decide por ele”; numa sociedade de tal tipo o herói “deve encarnar, além de todo limite pensável, as exigências de poder que o cidadão comum nutre e não pode satisfazer”. A nossa é a sociedade em que o poder do ser humano, enquanto espécie, cresce em razão inversa ao poder do ser humano, enquanto indivíduo. Esse tempo parece precisar do Übermensch e do Superman, tanto que os criou, respectivamente, nos séculos xix e xx. The Superman difere, em aspectos essenciais, do Übermensch. O texto em que o filósofo mais falou do Übermensch é dos mais conhecidos, ao mesmo tempo romance e ensaio filosófico: Assim falou Zarathustra. Zaratustra existiu: foi um profeta iraniano, vivendo no século vii ac, que teria formulado os valores posteriormente desenvolvidos pela religião de Mani, exatamente, o maniqueísmo. O Zaratustra de Nietzsche, ao contrário, combatia o maniqueísmo, na sua variante cristã. Ele queria ensinar, ao povo, o super-homem, se o homem é, justo, “algo que deve ser superado”. O homem mesmo nada mais seria do que uma corda, “estendida entre o animal e o super-homem — uma corda sobre o abismo”. O homem se poderia admitir grande, sim, desde que se reconhecesse ponte, e não meta. Compreende-se melhor o conceito de Übermensch se o articularmos diretamente com a concepção do eterno retorno. Esta é a principal razão conceitual que inviabiliza confundir o Übermensch com o caminho de Clark Kent em direção à cabine telefônica mais próxima. Pela concepção do “eterno retorno”, deve-se viver cada instante sabendo que é um retorno e sabendo que retornará, isto é, deve-se afirmar cada instante, abandonando a posição ressentida e reativa de negar os instantes que não nos favorecem. “Foi assim? Então assim eu o quis e assim eu o quero!” — eis a mais do que exigente injunção do eterno retorno, que também se pode formular como: “torne-se o que você é”. Logo, o Superman não pode ser o Übermensch. Porque há Clark Kent, seu alter-ego medroso; porque ele mesmo, voando mais rápido do que uma bala, representa a negação dos poderes que temos, ou que poderíamos ter, e do ser humano que somos — ou que poderíamos ser. O Superman funciona antes como uma espécie de imagem das vidas “editadas” que levamos, optando por construir heróis e gestos espetaculares na sociedade do espetáculo, no lugar de construir atitudes cotidianas — no lugar de tornar-nos o que de fato seríamos. Nesse passo, cabe a “bronca” de Wilhelm Reich em cima do Zé-ninguém, indivíduo alienado que, apesar de tudo o que não é, ainda acreditaria cegamente no Império da Individualidade, assim confundindo Über, Unter e Super: “Foi-te oferecida a escolha entre a exigência de superação do Übermensch de Nietzsche e a degradação do Untermensch em Hitler. Berrando “Viva”, escolheste o Untermensch”, isto é, o infra-homem nazista (para o qual o Super-homem seria menos antagonista do que contraparte). O infra-homem é aquele que tem remorsos, que pede desculpas a todo mundo e a si próprio. E remorsos seriam obscenos, para Nietzsche (e também para Spinoza, antes dele), porque implicam tentativa racionalizante de negar-se como aquele que teria agido de tal ou qual maneira. A frase-emblema do infra-homem bem poderia ser: “se eu pudesse voltar atrás, faria tudo diferente, ah, não faria aquilo que fiz”. O arrependido tenta desobrigar-se de sua responsabilidade não só perante os demais, mas, principalmente, perante a si mesmo, uma vez que procura negar ser aquele que foi. Sustenta-se na possibilidade de poder voltar atrás e desfazer não só o que fez e disse, como ainda todas as conseqüências — quando essa possibilidade, simplesmente, não há. Se houvesse, por absurdo, voltaríamos “atrás”, mas para as mesmas circunstâncias que provocaram a atitude de que nos arrependemos, circunstâncias estas que incluem não saber o que sabemos hoje — logo, só poderíamos agir exatamente como agimos. O arrependido elide os fenômenos da sua história particular, tentando esgarçar e desmontar as relações em nome de um valor superior (aquele no qual pensa só-depois) que, todavia, não existe. O que há é irresponsabilização, se as conseqüências do que fizemos nos alcançam de qualquer modo, indiferentes a que tenhamos “melhorado” nesse meio-tempo. Se o fizemos, se o dissemos, é porque o quisemos, é porque foi de algum modo preciso, necessário; se o fizemos, se o dissemos, é porque assim mesmo nos constituímos o que agora somos, é porque de algum modo valeu a pena; se o fizemos, se o dissemos, logo, devemos desejar fazer e dizer novamente, celebrando a vontade e o desejo como a essência do que somos. Na verdade, só afirmando o tempo passado se pode afirmar o passar do tempo. Por isso, o eterno retorno compõe-se dentro de uma doutrina ética que, justamente, celebra a vida. Digamos que “me tenha” morrido o meu avô, ao qual eu seria muito ligado (talvez eu carregasse o seu nome, por exemplo), num momento particularmente importante da adolescência. Tudo o mais que eu haja vivido só faz sentido, só pode fazer sentido, a partir deste acontecimento. Pode ter sido doloroso, certamente foi doloroso, mas, inclusive por isto mesmo, o acontecimento me deu a vida que eu tenho — o acontecimento da morte do meu avô terá sido, em última análise, vida. É absurdo lamentá-lo, é absurdo pretender que a vida foi injusta comigo; a vida me “fez”, como sempre, aliás, vida — para diante, irreversivelmente. “Foi assim?; assim eu o quis. Era isso a vida?; pois muito bem, outra vez! ” É o que brada Zaratustra, com tranqüilidade: “todo o Foi assim é um fragmento, um enigma e um horrendo acaso — até que a vontade criadora diga a seu propósito: Mas assim eu o quis! ” Logo, o conceito de Nietzsche, der Übermensch, continua sendo necessário, e portanto desejado, pela crítica permanente e dinâmica que propõe, para a espécie humana, sobre ela mesma. Derivado de um personagem filosófico, ilumina nossas reflexões sobre os heróis e os infra-heróis dos quadrinhos, da literatura e do cotidiano. Associado à noção do eterno retorno, formula uma exigência moral da maior importância.{bibliografia}Bernd Magnus, Stanley Stewart & Jean-Pierre Mileur. Nietzsche’s case: philosophy as/and literature (1993). Friedrich Nietzsche. Also sprach Zarathustra & Zur Genealogie der Moral.. Philippe Choulet. “Nietzsche”, in Laurent Jaffro & Monique Labrune (orgs). Gradus philosophique (1994). Roberto Machado. Nietzsche e a verdade (1984). Umberto Eco. Apocalittici e Integrati (1964). Umberto Eco. Il Superuomo di Massa: retorica e ideologia nel romanzo popolare (1978). Wilhelm Reich. Rede na den kleinen Mann (1947).

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Der Übermensch é um conceito central da obra de Friedrich Nietzsche, filósofo alemão do século xix. Übermensch é usualmente traduzido como Superman, em inglês, e como Super-Homem, em português. Entretanto, é preciso cuidado para não confundi-lo com the Superman, personagem das histórias em quadrinhos criado em 1938, embora haja relação entre os termos. “Mensch”, em alemão, é um termo neutro, a indicar “ser humano”, enquanto “Mann” indicaria, aí sim, “homem”, por oposição a “mulher”. O Superman norte-americano seria, na verdade, correspondente a der Übermann. Über, por sua vez, significa “sobre; acima de; além”. A tradução mais próxima do conceito do filósofo talvez fosse, então: o “além-do-humano”. As traduções que se impuseram, todavia, foram aquelas que facilitam a confusão com o herói estadunidense. Magnus, Stewart e Mileur, no seu trabalho sobre “o caso Nietzsche”, evitam o termo superman exatamente “because the word ‘superman’ seems to us to have been preempted by Clark Kent in English”. A opção overman, por outro lado, além de não traduzir todas as possibilidades contidas na expressão alemã, compete, em desvantagem, com o largo uso de Superman. Logo, eles preferem dizer Übermensch e Übermenschlichkeit (equivalente a “sobre-humanidade”, por analogia a übermenschlich, adjetivo referente a “sobre-humano”), explicando e trabalhando os termos sem traduzi-los diretamente. O termo Übermensch não teve uma história tranqüila. No século xx, os nazistas apropriaram-se do termo, para melhor forjarem o mito da superioridade ariana. Os norte-americanos, certamente por oposição conveniente — the Superman versus der Übermensch —, valorizariam sobremaneira seu herói dos quadrinhos. Em que sociedade se precisa tanto de “super-homens”, defendendo, cada um a seu modo, a liberdade, os fracos, e os oprimidos? Talvez, como especula Umberto Eco, “numa sociedade particularmente nivelada, onde as perturbações psicológicas, as frustrações, os complexos de inferioridade estão na ordem do dia; numa sociedade industrial onde o homem se torna número no âmbito de uma organização que decide por ele”; numa sociedade de tal tipo o herói “deve encarnar, além de todo limite pensável, as exigências de poder que o cidadão comum nutre e não pode satisfazer”. A nossa é a sociedade em que o poder do ser humano, enquanto espécie, cresce em razão inversa ao poder do ser humano, enquanto indivíduo. Esse tempo parece precisar do Übermensch e do Superman, tanto que os criou, respectivamente, nos séculos xix e xx. The Superman difere, em aspectos essenciais, do Übermensch. O texto em que o filósofo mais falou do Übermensch é dos mais conhecidos, ao mesmo tempo romance e ensaio filosófico: Assim falou Zarathustra. Zaratustra existiu: foi um profeta iraniano, vivendo no século vii ac, que teria formulado os valores posteriormente desenvolvidos pela religião de Mani, exatamente, o maniqueísmo. O Zaratustra de Nietzsche, ao contrário, combatia o maniqueísmo, na sua variante cristã. Ele queria ensinar, ao povo, o super-homem, se o homem é, justo, “algo que deve ser superado”. O homem mesmo nada mais seria do que uma corda, “estendida entre o animal e o super-homem — uma corda sobre o abismo”. O homem se poderia admitir grande, sim, desde que se reconhecesse ponte, e não meta. Compreende-se melhor o conceito de Übermensch se o articularmos diretamente com a concepção do eterno retorno. Esta é a principal razão conceitual que inviabiliza confundir o Übermensch com o caminho de Clark Kent em direção à cabine telefônica mais próxima. Pela concepção do “eterno retorno”, deve-se viver cada instante sabendo que é um retorno e sabendo que retornará, isto é, deve-se afirmar cada instante, abandonando a posição ressentida e reativa de negar os instantes que não nos favorecem. “Foi assim? Então assim eu o quis e assim eu o quero!” — eis a mais do que exigente injunção do eterno retorno, que também se pode formular como: “torne-se o que você é”. Logo, o Superman não pode ser o Übermensch. Porque há Clark Kent, seu alter-ego medroso; porque ele mesmo, voando mais rápido do que uma bala, representa a negação dos poderes que temos, ou que poderíamos ter, e do ser humano que somos — ou que poderíamos ser. O Superman funciona antes como uma espécie de imagem das vidas “editadas” que levamos, optando por construir heróis e gestos espetaculares na sociedade do espetáculo, no lugar de construir atitudes cotidianas — no lugar de tornar-nos o que de fato seríamos. Nesse passo, cabe a “bronca” de Wilhelm Reich em cima do Zé-ninguém, indivíduo alienado que, apesar de tudo o que não é, ainda acreditaria cegamente no Império da Individualidade, assim confundindo Über, Unter e Super: “Foi-te oferecida a escolha entre a exigência de superação do Übermensch de Nietzsche e a degradação do Untermensch em Hitler. Berrando “Viva”, escolheste o Untermensch”, isto é, o infra-homem nazista (para o qual o Super-homem seria menos antagonista do que contraparte). O infra-homem é aquele que tem remorsos, que pede desculpas a todo mundo e a si próprio. E remorsos seriam obscenos, para Nietzsche (e também para Spinoza, antes dele), porque implicam tentativa racionalizante de negar-se como aquele que teria agido de tal ou qual maneira. A frase-emblema do infra-homem bem poderia ser: “se eu pudesse voltar atrás, faria tudo diferente, ah, não faria aquilo que fiz”. O arrependido tenta desobrigar-se de sua responsabilidade não só perante os demais, mas, principalmente, perante a si mesmo, uma vez que procura negar ser aquele que foi. Sustenta-se na possibilidade de poder voltar atrás e desfazer não só o que fez e disse, como ainda todas as conseqüências — quando essa possibilidade, simplesmente, não há. Se houvesse, por absurdo, voltaríamos “atrás”, mas para as mesmas circunstâncias que provocaram a atitude de que nos arrependemos, circunstâncias estas que incluem não saber o que sabemos hoje — logo, só poderíamos agir exatamente como agimos. O arrependido elide os fenômenos da sua história particular, tentando esgarçar e desmontar as relações em nome de um valor superior (aquele no qual pensa só-depois) que, todavia, não existe. O que há é irresponsabilização, se as conseqüências do que fizemos nos alcançam de qualquer modo, indiferentes a que tenhamos “melhorado” nesse meio-tempo. Se o fizemos, se o dissemos, é porque o quisemos, é porque foi de algum modo preciso, necessário; se o fizemos, se o dissemos, é porque assim mesmo nos constituímos o que agora somos, é porque de algum modo valeu a pena; se o fizemos, se o dissemos, logo, devemos desejar fazer e dizer novamente, celebrando a vontade e o desejo como a essência do que somos. Na verdade, só afirmando o tempo passado se pode afirmar o passar do tempo. Por isso, o eterno retorno compõe-se dentro de uma doutrina ética que, justamente, celebra a vida. Digamos que “me tenha” morrido o meu avô, ao qual eu seria muito ligado (talvez eu carregasse o seu nome, por exemplo), num momento particularmente importante da adolescência. Tudo o mais que eu haja vivido só faz sentido, só pode fazer sentido, a partir deste acontecimento. Pode ter sido doloroso, certamente foi doloroso, mas, inclusive por isto mesmo, o acontecimento me deu a vida que eu tenho — o acontecimento da morte do meu avô terá sido, em última análise, vida. É absurdo lamentá-lo, é absurdo pretender que a vida foi injusta comigo; a vida me “fez”, como sempre, aliás, vida — para diante, irreversivelmente. “Foi assim?; assim eu o quis. Era isso a vida?; pois muito bem, outra vez! ” É o que brada Zaratustra, com tranqüilidade: “todo o Foi assim é um fragmento, um enigma e um horrendo acaso — até que a vontade criadora diga a seu propósito: Mas assim eu o quis! ” Logo, o conceito de Nietzsche, der Übermensch, continua sendo necessário, e portanto desejado, pela crítica permanente e dinâmica que propõe, para a espécie humana, sobre ela mesma. Derivado de um personagem filosófico, ilumina nossas reflexões sobre os heróis e os infra-heróis dos quadrinhos, da literatura e do cotidiano. Associado à noção do eterno retorno, formula uma exigência moral da maior importância.{bibliografia}Bernd Magnus, Stanley Stewart & Jean-Pierre Mileur. Nietzsche’s case: philosophy as/and literature (1993). Friedrich Nietzsche. Also sprach Zarathustra & Zur Genealogie der Moral.. Philippe Choulet. “Nietzsche”, in Laurent Jaffro & Monique Labrune (orgs). Gradus philosophique (1994). Roberto Machado. Nietzsche e a verdade (1984). Umberto Eco. Apocalittici e Integrati (1964). Umberto Eco. Il Superuomo di Massa: retorica e ideologia nel romanzo popolare (1978). Wilhelm Reich. Rede na den kleinen Mann (1947).

2009-12-23 08:52:12
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