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Com este termo, faz-se referência a um tipo de criação literária que se desenvolve em Espanha no século XIX, de forma muito especial entre 1830 e 1850, manifestando-se principalmente através do denominado “Artículo de costumbres” ou “Cuadro de costumbres”. Estão em causa textos breves, escritos em prosa ou em verso, que tentam mostrar uma visão filosófica, festiva ou satírica dos costumes populares.

Os limites do género parecem não demasiado rígidos, já que na gestação dos artigos de costumes intervêm elementos próprios da narrativa ou até da dramatização teatral. De qualquer maneira, e tendo em conta precedentes do “quadro de costumes” que apareciam já na literatura espanhola do “Siglo de Oro”, parece que as fontes mais imediatas do género poderiam encontrar-se na obra Mis ratos perdidos (1822) de Ramón de Mesonero Romanos e, muito especialmente, no artigo “El café” de Mariano José de Larra, incluído em El duende satírico del día (1828), texto no qual aparece um modelo mais definitivo do género. O artigo de costumes vai desenvolvendo e imprimindo o seu próprio carácter, fruto de colaborações de autores como os mencionados Mesonero Romanos, Larra e Estébanez Calderón em revistas como Cartas españolas (fundada em 1831 por José María Carretero) e La revista española (coordenada pelo mesmo director). O artigo de costumes chegará a uma forma fixa em Panorama matritense (1832-1835) de Mesonero, onde já aparecem as características definidas e as variantes do género.

Em definitivo, os quadros de costumes configurarão um tipo de literatura menor que tenta reflectir os usos, costumes, profissões e ofícios da altura que a história não contempla nos seus estudos, configurando a sua própria idiossincrasia graças às seguintes características (cfr. Evaristo Correa (ed.): Costumbristas españoles (1950) e Margarita Ucelay DaCal: Los españoles pintados por sí mismos. Estudio de un género costumbrista (1951): composição breve, em prosa ou em verso, que cria um quadro independente; pouca relevância do diálogo; acção ou trama pouco desenvolvida ou nula; temática de contorno social que faz referência à descrição de costumes, cenas, tipos, instituições, lugares,etc.; género no qual se podem fundir, para além de aspectos dramáticos, questões de fundo e forma que fundem o ensaio e o conto; objectivo didáctico, moralizante, satírico, humorístico…; textos usualmente assinados com pseudónimo específico e que podem levar uma citação alusiva.

Com efeito, o género aparece apoiado em dois factores externos que dão corpo independente aos textos do novo costumbrismo: o propósito de registar uma sociedade em mudança e a constrição espacial e temporal que implicava a inserção dos escritores costumbristas na moderna imprensa periódica.

Os três autores mais importantes na configuração e desenvolvimento do quadro de costumes são os já citados Mesonero Romanos (com pseudónimo de “El curioso parlante”), com um costumbrismo afável e apolítico, no qual prevalecem a objectividade da descrição e um peculiar sentido do humor de forma a se aproximar das cenas mais populares e quotidianas; Mariano José de Larra (“El pobrecito hablador” ou “Fígaro”), inspirado por Jouy, com uma concepção mais comprometida e crítica de enfrentamento dos problemas e defeitos sociais, desde uma clara consciência moral, e com uma linguagem periodística de grande precisão e rigor estético; e Estébanez Calderón (“El solitario”), que inicia, de algum modo, uma abertura do ciclo costumbrista a aspectos regionais, de prosa castiça e pitoresca.

O quadro de costumes sofre uma evolução em que se observam duas claras vertentes: as cenas (escenas) e os tipos. Nos alvores do romantismo espanhol ganha mais importância o desenvolvimento de cenas, descrição de um ambiente social ou de um espaço ou instituição, com tipos gerais através dos quais “se describe, satiriza o comenta toda una clase psicológica, social, profesional o local. Pero poco a poco vemos cómo estos caracteres dejan de ser figuras en la composición total para pasar a ser el foco central de la atención de los costumbristas” (Margarita Ucelay DaCal (1951), pág. 63). Efectivamente, a partir da publicação do Semanario Pintoresco Español (1836), observa-se uma evolução do género que, pouco a pouco, vai concedendo mais importância aos tipos representados em detrimento das cenas, outorgando um valor essencial à apresentação de uma abstracção descritiva e crítica de um amplo conjunto de indivíduos. Neste sentido, é justo sublinhar o facto de que em 1841 se começam a traduzir do francês as denominadas “fisiologias” (descrições costumbristas de tipos com ilustrações gráficas), contribuindo para a proliferação do género.

Em 1843 e 1844 o editor Boix dá à imprensa uma obra colectiva recolhida em dois volumes e que se tornará um elemento chave na história do costumbrismo. Trata-se de Los españoles pintados por sí mismos, colecção de quadros nos quais se descrevem os tipos e costumes que se consideram mais característicos do país e das suas diferentes regiões. Nesta obra, elaborada sobre o modelo do que se tinha feito em França (Les Français, moeurs contemporaines, 1839, que passaria pouco depois a intitular-se Les Français peints par eux mêmes) e em Inglaterra (Heads of the people: or portraits of the English, 1840-1841) apresentam-se aproximadamente cem tipos, em cujas descrições se recusa o irrealismo da novela romântica em defesa de um critério de observação da realidade desde a mais pura objectividade. Tratar-se-à de preservar alguns aspectos típicos nacionais, deixando uma colecção que mostrasse um panorama completo da sociedade da época e de conseguir, de certo modo, modificar a imagem deformada que na Europa se tinha de Espanha. Em Los españoles pintados por sí mismos aparecem contribuições de Mesonero, Estébanez, José Zorrilla, Juan Eugenio Hartzenbusch, Manuel Bretón de los Herreros, Eugenio de Ochoa, Enrique Gil y Carrasco ou o Duque de Rivas, que oferecem uma galeria de tipos que vão desde os diferentes ofícios (“el aguador”, “la criada”, “la cigarrera”, “el sereno”, etc.) até aos políticos ou representantes públicos (“el senador”, etc.), passando por tipos sociais realmente pitorescos (“la maja”, “la coqueta”, “el lechugino”, etc.) ou elementos marginalizados socialmente (“la celestina”, “el mendigo”, “el bandolero”, etc.). A partir de aqui, e contando com a figura de Estébanez Calderón como precursor (Escenas andaluzas, 1846), começa a aparecer un costumbrismo regionalista, que tenta explorar as diferentes tradições peninsulares. Neste campo, serão importantes nomes como os de Gil y Carrasco, Antonio Flores, Antonio de Trueba, Vicente Barrantes, Tomás Rodríguez Rubí, Antonio Neira de Mosquera, Luis Taboada, Luis Mariano de Larra, Isidoro Fernández Flórez ou Luis Maldonado de Guevara.

Parece claro que o exercício das técnicas de descrição costumbrista será importante para os iniciadores da novela realista do século XIX, especialmente em autores como “Fernán Caballero”, Pedro Antonio de Alarcón, Juan Valera, Pereda ou o próprio Galdós.

{bibliografia}

Carmela Comella: “Note per una definizione ideologica e storica del Costumbrismo nella letteratura spagnola”, Annali Istituto Universitario Orientale, 19 (Nápoles, 1977); E. Correa Calderón: “Análisis del cuadro de costumbres”, Revista de ideas estéticas 7 (1949) e “Los costumbristas españoles del siglo XIX”, Bulletin hispanique 51 (1949); Eni de Mesquita Samara e Elaine Cristina Lopes: “Personagens Femininas nas Vozes Masculinas: O Casamento nos Romances de Costumbres do Século XIX “, Travessia, 23 (Florianopolis, 1991); M. Ucelay DaCal: Los españoles pintados por sí mismos. Estudio de un género costumbrista (México, 1951); J. F. Montesinos: Costumbrismo y novela. Ensayo sobre el redescubrimiento de la realidad española (1960); L. Fontanella: “Tha fashion and styles of Spain´s costumbrismo”, Revista canadiense de estudios hispánicos 6 (1982); J. Escobar: “Narración, descripción y mímesis en el cuadro de costumbres: Gertrudis Gómez de Avellaneda y Ramón de Mesonero Romanos”, Romanticismo 3-4 (Génova, 1988); Susan Kirkpatrick: “The Ideology of Costumbrismo”, Ideologies and Literature: A Journal of Hispanic and Luso-Brazilian Studies, 2, 7 (Univ. of Minnesota, 1978).