VANGUARDA

VANGUARDA

O termo “vanguarda” nasceu com o advento da primeira guerra mundial, originando o seu uso moderno: denominava a primeira linha de soldados numa batalha, e que recebe, em primeira mão, o ataque directo do exército oposto. É assim, desde logo, um conceito de acção, de movimento, opondo-se naturalmente à imobilidade, ao conservadorismo, ou, claro está, à “retaguarda”.

No famoso livro de Calinescu,  Five Faces of Modernity: Modernism, Avant-Garde, Decadence, Kitsch, Post-Modernism, por exemplo, o conceito de “vanguarda” é dado como uma das cinco faces da Modernidade, a par do seu outro conceito limítrofe (Modernismo). Já Osvaldo Silvestre no seu verbete sobre “Vanguarda”, refere vários usos cronológicos anteriores, de cariz literário, mas com semelhantes significados como este: “O humanista francês Etienne Pasquier (1529-1615), nas suas Recherches de la France, e num contexto que anuncia a Querela dos Antigos e dos Modernos, refere-se a uma ‘belleguerre’ contra a ignorância, indicando em seguida os nomes daqueles que constituíram a sua ‘avant-garde’.”  Por outro lado, é o próprio Calinescu que faz uma resenha histórica deste conceito no segundo capítulo do seu livro, defendendo haver uma vanguarda no Renascimento e no Romantismo, num sentido mais lato. Tal ideia não é estranha se aceitarmos o Renascimento como o início da Modernidade, onde o Modernismo é o seu último grande período.

É assim produtivo o cotejo que se pode fazer entre este termo e “Modernismo”, uma vez que se confundem frequentemente. A Vanguarda nasce do desejo, no início do século XX, de se ser absolutamente moderno, preconizando que a própria sociedade e cultura já não serviam nem espelhavam a ansiedade do indivíduo (o que a primeira guerra mundial veio, de certa forma, comprovar). Esta transformação da sociedade implicava, deste modo, estar mais à frente do seu tempo, criar uma arte que não se diferenciasse da vida. Esta é a atitude vanguardista, a de uma fusão total entre a vida e a arte.

Data-se então a Vanguarda, num sentido estrito, desse mega-momento da periodologia literária, o Modernismo, onde há uma grande ênfase na tentativa de ruptura e de transgressão do texto literário, recorrendo-se, por isso, a uma experimentação sem limites. Essa consciência será alimentada por um contexto estrutural disfórico – não só pelo cansaço dos artistas por um gosto burguês estafado e obsoleto, alimentado por uma poesia finissecular assente em lugares-comuns, mas igualmente por uma autêntica revolução das mentalidades, provocada, entre outros, pelos trabalhos seminais de Einstein e Freud sobre a relatividade e a psicanálise (a que os poetas e artistas do período claramente aderiram de imediato, como é exemplo D. H. Lawrence).

Esta experimentação estaria então ligada intrinsecamente à polémica literária, que  em Portugal é concomitante com o aparecimento do próprio Modernismo, com a revista Orpheu, em 1915. Neste sentido, há aqui uma clara co-existência temporal entre o conceito de Vanguarda e de Modernismo (ainda que tal termo não existisse e estivesse ainda para ser atribuído retrospectivamente). O crítico e poeta E.M. de Melo de Castro, ele próprio um (neo)vanguardista dos anos 60, esclarece, já em 1980: “Foi no nível de teorização que ela [Vanguarda] começou a ganhar peso internacionalmente e desde o começo da década de 60 se transformou num motor auto-reflexivo sobre a produção da arte ou de anti-arte, de cultura ou de contra-cultura.”

Assim se vê igualmente o carácter dinâmico deste conceito operativo – a vanguarda ocorre sempre dialecticamente, num sentido lato, ocorre num determinado momento temporal. Reage a um tempo eminentemente conservador, respeitoso da “tradição”, produzindo ‘manifestos’ que afirmam uma diferenciação ao tempo vigente (pense-se no Manifesto Anti-Dantas, do futurista Almada Negreiros). Por outro lado, certas vanguardas podem ser herdeiras de outro tempo, tal como as (neo)vanguardas dos anos 60, em que teóricos da vanguarda como Ana Hatherly e o próprio Melo e Castro, eram eles próprios vanguardistas, bem como herdeiros de outros ismos como o Futurismo, o Surrealismo, e as práticas dadaísticas. Neste sentido, a Vanguarda começa a ser contraditória, porque ao querer libertar o homem-artista e o objecto artístico por si produzido, acaba por circunscrevê-lo ao próprio objecto e à sua prática artística através da sua teorização, quando começa a recepção literária e a aceitação na academia (de lembrar que Roland Barthes defende “a morte das vanguardas” já nos anos 60, quando precisamente nasce verdadeiramente esse pendor reflexivo e crítico acima descrito).

Talvez pelas palavras de Ionesco se entenda, em suma, o conceito de Vanguarda:
Eu prefiro definir a vanguarda em termo de oposição e ruptura. Enquanto a maior parte dos escritores, artistas e pensadores acreditam que pertencem ao seu tempo, o dramaturgo revolucionário sente que está a correr contra o seu tempo…Um homem de vanguarda é como um inimigo dentro de uma cidade que ele pretende destruir, contra o qual ele se rebela; porque como qualquer sistema de governo, uma forma estabelecida de expressão é também uma forma de opressão. O homem da vanguarda é o opositor de um sistema existente. (Eugène Ionesco, Notes andCounter-Notes, London, J. Calder, 1964, pp. 40-41, apud Calinescu, 1999, p. 110)
{bibliografia}

BÜRGER, Peter, TheTheoryofthe Avant-Garde, Minneapolis, Universityof Minnesota Press, 1974. [Vega, 1993].

CALINESCU, Matei, Five Faces of Modernity: Modernism, Avant-Garde, Decadence, Kitsch, Post-Modernism, Durham : Duke University Press, 1987. [Vega, 1999.

GUIMARÃES, Fernando, Simbolismo, Modernismo e Vanguardas, Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1982.

HATHERLY, Ana, O Espaço Crítico do Simbolismo à Vanguarda, Lisboa: Caminho, 1979.

JACKSON, K. David, As Primeiras Vanguardas em Portugal: Bibliografia e Antologia Crítica, Frankfurt-Madrid, Vervuert-Iberoamericana, 2003.

MARNOTO, Rita (coord.), Vanguardas, Coimbra, Colégio das Artes da Universidade de Coimbra, 2016.

NOGUEIRA, Isabel, Teoria da Arte no Século XX – Modernismo, Vanguarda, Neovanguarda, Pós-Modernismo, Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2012.

MELO E CASTRO, E. M., As Vanguardas na Poesia Portuguesa do Século XX, Lisboa, ICLP, 1980.

SILVESTRE, Osvaldo, “Vanguarda”, in Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português, Lisboa, Caminho, 2008.

TORRE, Guillermo de, História das Literaturas de Vanguardas, 6 volumes, Lisboa, Presença, 1972 [1ªed, 1925].

Ricardo Marques
LITERATURA DE VANGUARDA
VANGUARDA

O termo “vanguarda” nasceu com o advento da primeira guerra mundial, originando o seu uso moderno: denominava a primeira linha de soldados numa batalha, e que recebe, em primeira mão, o ataque directo do exército oposto. É assim, desde logo, um conceito de acção, de movimento, opondo-se naturalmente à imobilidade, ao conservadorismo, ou, claro está, à “retaguarda”.

No famoso livro de Calinescu,  Five Faces of Modernity: Modernism, Avant-Garde, Decadence, Kitsch, Post-Modernism, por exemplo, o conceito de “vanguarda” é dado como uma das cinco faces da Modernidade, a par do seu outro conceito limítrofe (Modernismo). Já Osvaldo Silvestre no seu verbete sobre “Vanguarda”, refere vários usos cronológicos anteriores, de cariz literário, mas com semelhantes significados como este: “O humanista francês Etienne Pasquier (1529-1615), nas suas Recherches de la France, e num contexto que anuncia a Querela dos Antigos e dos Modernos, refere-se a uma ‘belleguerre’ contra a ignorância, indicando em seguida os nomes daqueles que constituíram a sua ‘avant-garde’.”  Por outro lado, é o próprio Calinescu que faz uma resenha histórica deste conceito no segundo capítulo do seu livro, defendendo haver uma vanguarda no Renascimento e no Romantismo, num sentido mais lato. Tal ideia não é estranha se aceitarmos o Renascimento como o início da Modernidade, onde o Modernismo é o seu último grande período.

É assim produtivo o cotejo que se pode fazer entre este termo e “Modernismo”, uma vez que se confundem frequentemente. A Vanguarda nasce do desejo, no início do século XX, de se ser absolutamente moderno, preconizando que a própria sociedade e cultura já não serviam nem espelhavam a ansiedade do indivíduo (o que a primeira guerra mundial veio, de certa forma, comprovar). Esta transformação da sociedade implicava, deste modo, estar mais à frente do seu tempo, criar uma arte que não se diferenciasse da vida. Esta é a atitude vanguardista, a de uma fusão total entre a vida e a arte.

Data-se então a Vanguarda, num sentido estrito, desse mega-momento da periodologia literária, o Modernismo, onde há uma grande ênfase na tentativa de ruptura e de transgressão do texto literário, recorrendo-se, por isso, a uma experimentação sem limites. Essa consciência será alimentada por um contexto estrutural disfórico – não só pelo cansaço dos artistas por um gosto burguês estafado e obsoleto, alimentado por uma poesia finissecular assente em lugares-comuns, mas igualmente por uma autêntica revolução das mentalidades, provocada, entre outros, pelos trabalhos seminais de Einstein e Freud sobre a relatividade e a psicanálise (a que os poetas e artistas do período claramente aderiram de imediato, como é exemplo D. H. Lawrence).

Esta experimentação estaria então ligada intrinsecamente à polémica literária, que  em Portugal é concomitante com o aparecimento do próprio Modernismo, com a revista Orpheu, em 1915. Neste sentido, há aqui uma clara co-existência temporal entre o conceito de Vanguarda e de Modernismo (ainda que tal termo não existisse e estivesse ainda para ser atribuído retrospectivamente). O crítico e poeta E.M. de Melo de Castro, ele próprio um (neo)vanguardista dos anos 60, esclarece, já em 1980: “Foi no nível de teorização que ela [Vanguarda] começou a ganhar peso internacionalmente e desde o começo da década de 60 se transformou num motor auto-reflexivo sobre a produção da arte ou de anti-arte, de cultura ou de contra-cultura.”

Assim se vê igualmente o carácter dinâmico deste conceito operativo – a vanguarda ocorre sempre dialecticamente, num sentido lato, ocorre num determinado momento temporal. Reage a um tempo eminentemente conservador, respeitoso da “tradição”, produzindo ‘manifestos’ que afirmam uma diferenciação ao tempo vigente (pense-se no Manifesto Anti-Dantas, do futurista Almada Negreiros). Por outro lado, certas vanguardas podem ser herdeiras de outro tempo, tal como as (neo)vanguardas dos anos 60, em que teóricos da vanguarda como Ana Hatherly e o próprio Melo e Castro, eram eles próprios vanguardistas, bem como herdeiros de outros ismos como o Futurismo, o Surrealismo, e as práticas dadaísticas. Neste sentido, a Vanguarda começa a ser contraditória, porque ao querer libertar o homem-artista e o objecto artístico por si produzido, acaba por circunscrevê-lo ao próprio objecto e à sua prática artística através da sua teorização, quando começa a recepção literária e a aceitação na academia (de lembrar que Roland Barthes defende “a morte das vanguardas” já nos anos 60, quando precisamente nasce verdadeiramente esse pendor reflexivo e crítico acima descrito).

Talvez pelas palavras de Ionesco se entenda, em suma, o conceito de Vanguarda:
Eu prefiro definir a vanguarda em termo de oposição e ruptura. Enquanto a maior parte dos escritores, artistas e pensadores acreditam que pertencem ao seu tempo, o dramaturgo revolucionário sente que está a correr contra o seu tempo…Um homem de vanguarda é como um inimigo dentro de uma cidade que ele pretende destruir, contra o qual ele se rebela; porque como qualquer sistema de governo, uma forma estabelecida de expressão é também uma forma de opressão. O homem da vanguarda é o opositor de um sistema existente. (Eugène Ionesco, Notes andCounter-Notes, London, J. Calder, 1964, pp. 40-41, apud Calinescu, 1999, p. 110)
{bibliografia}

BÜRGER, Peter, TheTheoryofthe Avant-Garde, Minneapolis, Universityof Minnesota Press, 1974. [Vega, 1993].

CALINESCU, Matei, Five Faces of Modernity: Modernism, Avant-Garde, Decadence, Kitsch, Post-Modernism, Durham : Duke University Press, 1987. [Vega, 1999.

GUIMARÃES, Fernando, Simbolismo, Modernismo e Vanguardas, Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1982.

HATHERLY, Ana, O Espaço Crítico do Simbolismo à Vanguarda, Lisboa: Caminho, 1979.

JACKSON, K. David, As Primeiras Vanguardas em Portugal: Bibliografia e Antologia Crítica, Frankfurt-Madrid, Vervuert-Iberoamericana, 2003.

MARNOTO, Rita (coord.), Vanguardas, Coimbra, Colégio das Artes da Universidade de Coimbra, 2016.

NOGUEIRA, Isabel, Teoria da Arte no Século XX – Modernismo, Vanguarda, Neovanguarda, Pós-Modernismo, Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2012.

MELO E CASTRO, E. M., As Vanguardas na Poesia Portuguesa do Século XX, Lisboa, ICLP, 1980.

SILVESTRE, Osvaldo, “Vanguarda”, in Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português, Lisboa, Caminho, 2008.

TORRE, Guillermo de, História das Literaturas de Vanguardas, 6 volumes, Lisboa, Presença, 1972 [1ªed, 1925].

2010-01-01 18:48:01
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