Relação de co-presença, interacção ou transposição entre diferentes meios de comunicação e sistemas artísticos no interior de uma obra literária, de um conjunto de obras ou de uma prática cultural. A intermedialidade literária ocorre quando a literatura incorpora, evoca, imita, comenta ou transforma procedimentos, materiais, formas e modos de representação associados a outros meios, como a pintura, a fotografia, a música, o cinema, a banda desenhada, a televisão, a rádio, o teatro, a dança, a arquitectura, os jogos digitais ou as interfaces electrónicas.
Na acepção mais abrangente, intermedialidade funciona como designação genérica e programática para toda a investigação sobre as relações entre a literatura e as demais artes ou media, sucedendo às rubricas mais antigas de estudos interartes (interart studies), literatura comparada das artes e estudos de palavra e imagem (word and image studies). Nesta acepção institucional, o termo cobre desde a écfrase antiga até à literatura electrónica, e o seu valor é sobretudo o de reunir sob um horizonte comum tradições disciplinares dispersas (musicologia literária, estudos de adaptação fílmica, iconologia, teoria dos media).
O uso lato é criticado pela sua extensão indefinida: se tudo é mediado, tudo é intermedial, e o conceito perde poder discriminante. As acepções seguintes correspondem a tentativas de o restringir.
A sistematização hoje mais corrente deve-se a Irina O. Rajewsky (Intermedialität, 2002), que distingue três configurações irredutíveis entre si:
- Transposição medial (mediale Transposition): um produto mediático é transformado noutro medium — adaptação cinematográfica de um romance, libreto operático extraído de um drama, romance derivado de um filme. O “texto de partida” é a fonte de uma operação de transferência, e o objecto de estudo é o processo de transformação.
- Combinação de media (Medienkombination, também dita plurimedialidade ou multimedialidade): a obra resulta da conjugação efectiva de dois ou mais media, materialmente presentes — ópera, canção, teatro, cinema, banda desenhada, livro ilustrado, emblema, poema visual, instalação literária. A intermedialidade é aqui uma propriedade constitutiva do artefacto.
- Referências intermediais (intermediale Bezüge): um texto que permanece monomedial (verbal) evoca, tematiza ou imita, com os seus próprios meios, um medium que não pode incorporar (descreve um quadro, simula uma montagem cinematográfica, organiza-se segundo um princípio musical). É esta a modalidade especificamente literária, e a única em que o medium estrangeiro está presente apenas como efeito de sentido, por “ilusão” ou “citação de sistema”.
De notar que o conceito não designa simplesmente a adaptação de uma obra literária a outro meio. A adaptação implica, em regra, a passagem de uma obra de um meio para outro; a intermedialidade abrange também a presença de vários meios numa mesma obra, a representação verbal de meios não verbais e a combinação estrutural de códigos heterogéneos. Por exemplo, A Jangada de Pedra, de José Saramago, embora seja um romance verbal, mobiliza procedimentos próximos da linguagem cinematográfica, como a mudança de escala, a montagem de episódios paralelos e a apresentação de cenas de carácter visual. Podemos verificar isso na adaptação ao cinema A Jangada de Pedra (2002), do realizador neerlandês George Sluizer.
Numa outra acepção, trata-se da representação verbal de formas, objectos ou práticas pertencentes a outro meio artístico. Nesta acepção, a literatura descreve ou ficcionaliza quadros, fotografias, filmes, canções, partituras, esculturas, edifícios, espectáculos ou dispositivos técnicos, fazendo desses elementos componentes da acção, da caracterização ou da reflexão estética. Por exemplo, em À la recherche du temps perdu, de Marcel Proust, a pintura e a música constituem referências decisivas para a percepção, a memória e a compreensão das personagens; em The Picture of Dorian Gray, de Oscar Wilde, o retrato pintado funciona como objecto artístico representado e como núcleo estruturante da intriga; em O Ano da Morte de Ricardo Reis, de José Saramago, a imprensa, a fotografia e o cinema participam na construção do ambiente histórico e na configuração da experiência moderna. O filme de João Botelho (2020) traduz essa reconfiguração da obra literária.
Numa outra acepção, sob influência de McLuhan, de Friedrich Kittler e da media archaeology, a intermedialidade é entendida como relação genética e concorrencial entre dispositivos técnicos. Jay David Bolter e Richard Grusin (Remediation, 1999) formularam a tese de que todo o medium se constitui representando, absorvendo e reconfigurando media anteriores (a remediação), oscilando entre a imediatez (apagamento do suporte) e a hipermediatez (exibição ostensiva da mediação). Nesta perspectiva, a literatura moderna define-se em larga medida pela sua reacção ao aparecimento da fotografia, do fonógrafo, do cinema e do computador: o romance do século XX seria já uma escrita pós-fotográfica e pós-cinematográfica, tal como o poema em verso livre é indissociável da máquina de escrever e da página composta mecanicamente.
O interesse teórico do conceito reside em ter deslocado os estudos literários de um paradigma exclusivamente linguístico-textual para um paradigma mediático, obrigando a interrogar a materialidade do suporte, o dispositivo de recepção e as condições técnicas da inscrição, questões que a poética de matriz estruturalista tendia a considerar exteriores ao objecto.
Distingue-se a intermedialidade da transmedialidade, entendida como a existência de fenómenos, formas ou estruturas que ocorrem em vários media sem serem específicos de nenhum e sem implicar transferência de um para outro: a narratividade, a metalepse, a ironia, o motivo temático. A narratologia transmedial (Marie-Laure Ryan, Narrative across Media, 2004) investiga precisamente que aspectos do narrar são independentes do suporte e que aspectos dele decorrem.
Distingue-se ainda a narrativa transmediática (transmedia storytelling, Henry Jenkins, 2006), em que um mesmo universo ficcional é desenvolvido de modo complementar e não redundante através de vários media — romance, filme, série, jogo, banda desenhada —, cada um contribuindo com uma parcela específica de informação diegética. Trata-se de um fenómeno de produção e de consumo característico da cultura da convergência, com implicações para a noção de obra e de autoria.
Com a passagem do suporte impresso ao suporte computacional, a intermedialidade torna-se condição estrutural: o hipertexto de ficção, a poesia animada e generativa, a videopoesia, a narrativa em bases de dados e a literatura interactiva integram texto, imagem, som, movimento e algoritmo num único dispositivo. O objecto literário deixa de ser estável e reprodutível para se tornar processual e dependente de uma execução — o que reconfigura as categorias de texto, leitura, versão e arquivo. Alguns teóricos preferem, para este domínio, falar de multimodalidade (categoria oriunda da semiótica social de Kress e van Leeuwen) ou de materialidade digital (N. Katherine Hayles), reservando intermedialidade para as relações entre artes historicamente constituídas. São exemplos hoje já amplamente estudados, Afternoon, a story, de Michael Joyce, que é um hipertexto literário em que os percursos de leitura dependem das escolhas do leitor; Patchwork Girl, de Shelley Jackson, que combina escrita hipertextual, fragmentação corporal, montagem e navegação digital; The Electronic Literature Collection, organizada pela Electronic Literature Organization, que reúne obras em que texto, imagem, som, código e interacção participam conjuntamente na construção literária.
O termo intermedialidade é próximo de intertextualidade, mas não é equivalente. A intertextualidade designa sobretudo as relações entre textos; a intermedialidade refere-se às relações entre meios e linguagens, podendo incluir relações intertextuais. Também se distingue de multimedialidade, que tende a designar a presença de vários meios numa mesma obra ou suporte, e de transmedialidade, que se aplica frequentemente à circulação de um universo narrativo ou de elementos ficcionais por diferentes meios.
- Bolter, Jay David, and Richard Grusin. Remediation: Understanding New Media. MIT Press, 1999.
- Bruhn, Jørgen, Asun López-Varela Azcárate, e Miriam de Paiva Vieira, editors. The Palgrave Handbook of Intermediality. Palgrave Macmillan, 2024.
- Clüver, Claus. «Inter Textus / Inter Artes / Inter Media.» Aletria: Revista de Estudos de Literatura, vol. 14, 2006, pp. 11-41.
- Cutchins, Dennis, Katja Krebs, and Eckart Voigts, editors. The Routledge Companion to Adaptation. Routledge, 2018.
- Diniz, Thaïs Flores Nogueira, org. Intermidialidade e Estudos Interartes: Desafios da Arte Contemporânea. Editora UFMG, 2012.
- Elleström, Lars, editor. Media Borders, Multimodality and Intermediality. Palgrave Macmillan, 2010.
- Freeman, Matthew, and Renira Rampazzo Gambarato, editors. The Routledge Companion to Transmedia Studies. Routledge, 2019.
- Genette, Gérard. Palimpsestes: La littérature au second degré. Seuil, 1982.
- Gumbrecht, Hans Ulrich, and K. Ludwig Pfeiffer, editors. Materialities of Communication. Translated by William Whobrey, Stanford UP, 1994.
- Hansen-Löve, Aage A. «Intermedialität und Intertextualität: Probleme der Korrelation von Wort- und Bildkunst.» Dialog der Texte, herausgegeben von Wolf Schmid und Wolf-Dieter Stempel, Wiener Slawistischer Almanach, 1983, pp. 291-360.
- Hatherly, Ana. A Reinvenção da Leitura: Breve Ensaio Crítico Seguido de 19 Textos Visuais. Futura, 1975.
- —. A Experiência do Prodígio: Bases Teóricas e Antologia de Textos Visuais Portugueses dos Séculos XVII e XVIII. Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1983.
- Hayles, N. Katherine. Writing Machines. MIT Press, 2002.
- Heffernan, James A. W. Museum of Words: The Poetics of Ekphrasis from Homer to Ashbery. U of Chicago P, 1993.
- Higgins, Dick. «Intermedia.» Something Else Newsletter, vol. 1, no. 1, 1966, pp. 1-6.
- Hutcheon, Linda. A Theory of Adaptation. 2nd ed., Routledge, 2013.
- Jenkins, Henry. Convergence Culture: Where Old and New Media Collide. New York UP, 2006.
- Kittler, Friedrich A. Gramophone, Film, Typewriter. Translated by Geoffrey Winthrop-Young and Michael Wutz, Stanford UP, 1999.
- Lessing, Gotthold Ephraim. Laocoonte ou Sobre as Fronteiras da Pintura e da Poesia. Traduzido por Margarida Morgado, Fundação Calouste Gulbenkian, 2011.
- Melo e Castro, E. M. de. Poética dos Meios e Arte High Tech. Vega, 1988.
- Mitchell, W. J. T. Picture Theory: Essays on Verbal and Visual Representation. U of Chicago P, 1994.
- Müller, Jürgen E. Intermedialität: Formen moderner kultureller Kommunikation. Nodus, 1996.
- Pethő, Ágnes. Cinema and Intermediality: The Passion for the In-Between. Cambridge Scholars, 2011.
- Praz, Mario. Mnemosyne: The Parallel between Literature and the Visual Arts. Princeton UP, 1970.
- Rajewsky, Irina O. «Intermediality, Intertextuality, and Remediation: A Literary Perspective on Intermediality.» Intermédialités, no. 6, 2005, pp. 43-64.
- Rippl, Gabriele, editor. Handbook of Intermediality: Literature — Image — Sound — Music. De Gruyter, 2015.
- Ryan, Marie-Laure, editor. Narrative across Media: The Languages of Storytelling. U of Nebraska P, 2004.
- Ryan, Marie-Laure, and Jan-Noël Thon, editors. Storyworlds across Media: Toward a Media-Conscious Narratology. U of Nebraska P, 2014.
- Torres, Rui, e Sandy Baldwin, editors. PO.EX: Ensaios de Poesia Experimental Portuguesa. Center for Literary Computing, 2014.
- Wellek, René. «The Parallelism between Literature and the Arts.» English Institute Annual 1941, Columbia UP, 1942, pp. 29-63.
- Wolf, Werner. The Musicalization of Fiction: A Study in the Theory and History of Intermediality. Rodopi, 1999.
- —. «Intermediality.» Routledge Encyclopedia of Narrative Theory, edited by David Herman et al., Routledge, 2005, pp. 252-56.



Comentários recentes