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Alteração da duração da história narrada. O processo oposto chama-se isocronia. A anisocronia é um processo de modificação do ritmo ou da velocidade da narrativa (“efeitos de ritmo”, no léxico de Genette), que regula a relação entre o tempo da história, medido em segundos, minutos, horas, etc., e a extensão do texto, medida em linhas e páginas. Ocorre quando o narrador prolonga mais o tempo da história com descrições mais ou menos supletivas, ou quando, pelo contrário, esse tempo é reduzido, resumindo em poucas linhas factos que tiveram lugar num espaço de tempo maior, como neste exemplo de António Lobo Antunes que, em As Naus, resume os factos decorridos durante doze anos a poucas linhas: “Diogo Cão habitou Loanda doze anos, sete meses e vinte e nove dias, sempre numa casinha do Bairro de Alvalade que as glicínias tropicais e as lagartas de África erodiam (. . .)” (Publ. Dom Quixote, Lisboa, 1988, p.152).

Os processos que desencadeiam as anisocronias são a pausa, a elipse e o sumário, por um lado, como recursos da economia da narrativa, e as digressões, por outro lado, como forma de suspender a progressão do tempo da história, dilatando o tempo do discurso. Estão, neste caso, os exercícios de retrospecção e divagação especulativas sobre assuntos marginais à intriga principal. Pode ficar como exemplo clássico o capítulo IX de Viagens da Minha Terra, de Almeida Garrett, repleto de digressões que prolongam nitidamente o tempo do discurso, desde as considerações sobre o teatro de Manuel de Figueiredo até às reflexões sobre topónimos.

O processo de jogar com anisocronias no interior de uma narrativa, variando a relação tempo da história/tempo do discurso, tem sido explorado até aos seus limites dentro do que se convencionou chamar romance pós-moderno, porém, tal verifica-se prematuramente não só nas Viagens na Minha Terra, como, nos primórdios da história do romance, com o Tristram Shandy, de Laurence Sterne. Neste romance, o jogo anisocrónico permite ao narrador controlar criativamente o desenrolar da história, por exemplo, introduzindo uma personagem a bater a uma porta num dado capítulo e só a deixar entrar, dando sequência à cena, vários capítulos à frente.

{bibliografia}

D. Villanueva: Estrutura y tiempo reducido en la novela (1977); G. Genette: Figures III (1972) e Nouveau discours du récit (1983); Mieke Bal: Narratology: Introduction to the Theory of Narrative (1985).