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Termo que designa uma narrativa dramática ficcional, transmitida pela televisão ao longo de aproximadamente uma centena de episódios individuais ligados, de uma forma geral, pela sequência de acontecimentos, eventualmente por uma linearidade cronológica, e pela manutenção de um núcleo duro de personagens.

O género tem as suas raízes mais remotas no romance sentimental inglês (sentimental novel) do séc. XVIII, de onde resulta a tradução incorrecta “novela” (difere da telenovela não só na estruturação da história mas também nas estratégias narrativas que adopta), e no folhetim romanesco francês do séc. XIX. No séc. XX, temos como origem do termo as soap operas americanas, séries radiofónicas dos anos 30 que retratavam um melodrama doméstico, dirigido ao público feminino, nomeadamente às donas de casa. A denominação irónica foi-lhe conferida por tentar elevar temas do quotidiano familiar a géneros considerados artisticamente superiores (opera). A palavra soap remete para as empresas de produtos de higiene doméstica, patrocinadoras destas emissões. Actualmente, este termo é aplicado com uma conotação pejorativa na designação de séries televisivas, filmes e até ficção, do mundo anglófono, simplistas e melodramáticas que, embora aparentadas com a realidade, revelam pouca verosimilhança com o quotidiano. Uma das personagens de Home Truths (2000), obra de David Lodge, compara a escrita destes argumentos à produção de carros numa linha de montagem.

Com o advento da televisão, o folhetim entrou em decadência e as séries radiofónicas foram transportadas para o grande ecrã, despertando o interesse de países da América latina como o Brasil, a Venezuela, México e Cuba, os novos importadores o modelo. É neles que a telenovela ganha novas características tornando-se um género autónomo, tal como o conhecemos, distinto do formato americano que lhe serviu de inspiração. A intriga centra-se num par romântico enquanto na soap opera a família e os seus conflitos são o elemento central da história; a narrativa americana não tem um fim previamente estipulado (como é exemplo General Hospital), ao contrário da telenovela, que, apesar do prolongamento de algumas narrativas até às duas ou três centenas de episódios (veja-se o caso da telenovela brasileira Os Emigrantes), tem sempre um fim programado. Os países da América latina foram ainda responsáveis pela introdução de um discurso mais coloquial aliado a alguma improvisação, pela diversificação de cenários, incluindo filmagens exteriores, e também pela transposição para o ecrã de acontecimentos reais, representativos de problemas sociais e questões culturais do país retratado (A Escrava Isaura e A Próxima Vítima abordavam, respectivamente, as temáticas da escravatura e da homossexualidade).

A acção da telenovela compõe-se de um conjunto de intrigas interligadas que se desenrolam em paralelo partindo, quase sempre, de um mistério surgido no episódio inicial (o desaparecimento de uma criança, um assassínio, um amor dificultado por muitos entraves, etc.) e convergindo para um final emocionante, apresentado no último episódio através de uma sucessão de revelações e desenlaces relativos a cada intriga. As personagens são, na sua maioria, estereotipadas embora se assista a uma crescente modelação do seu carácter, na tentativa de conquistar maior audiência. O público tem um papel preponderante na definição dos contornos narrativos uma vez que o destino de algumas personagens é determinado pela receptividade dos espectadores (a morte de duas personagens que representavam um casal de lésbicas na telenovela brasileira Torre de Babel, quando este não era o destino previsto no argumento inicial, demonstra a força das audiências na condução da narrativa e o crescente recurso às sondagens de opinião).

A maioria das telenovelas, com especial destaque para as brasileiras, têm na sua génese a adaptação de um romance. Esta traduz-se numa re-escrita da obra literária em função dos interesses dos media, atentos aos telespectadores e à concorrência entre as estações televisivas. A telenovela Porto dos Milagres, por exemplo, adaptada de dois romances de Jorge Amado, Mar Morto e Descoberta da América pelos Turcos, vê o seu final distanciar-se das obras literárias para culminar num desfecho feliz para os bons e na punição das personagens perversas – a conclusão habitual destas narrativas. Desta forma, a telenovela, através da ficção, desempenha um papel decisivo na transmissão e consolidação de valores éticos e morais, proporcionando entretenimento, suscitando discussões e reflectindo o imaginário colectivo de um povo.

A primeira telenovela a ser transmitida em Portugal, em 1977, foi Gabriela, Cravo e Canela, adaptada de um romance de Jorge Amado. A primeira produção portuguesa intitula-se Vila Faia e data de 1980.

{bibliografia}

Jean Cazeneuve, Sociologie de la radio-television (1962); Jorge Paixão da Costa: Telenovela: Um Modo de Produção (2003); Rui Nunes Cádima, A Emergência dos Media (1986).

http://www.mbcnet.org/ETV/S/htmlS/soapopera/sopaopera.htm

http://www.mbcnet.org/ETV/htmlT/telenovela/telenovela.htm

http://dossiers.publico.pt/jorge_amado/html/telenovela_carvo_canela.html

http://www.fapesp.br/com311.htm

http://www.mbcnet.org/ETV/B/htmlB/brazil/brazil.htm