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Expressão francesa que designa uma poesia breve, elegante, espirituosa e circunstancial, destinada a circular em meios mundanos, salões, círculos cortesãos ou ambientes de convívio letrado, e caracterizada por leveza tonal, engenho verbal, urbanidade, graça conversacional e domínio técnico da forma. O termo emprega-se normalmente no singular colectivo (le vers de société, em francês) ou como expressão invariável em contextos portugueses. Deve conservar-se a grafia e a acentuação francesas. Em inglês, encontra-se tanto a expressão original como as designações society verse e, num sentido mais amplo, light verse.

O vers de société não corresponde simplesmente a “poesia social” no sentido político ou sociológico da expressão, mas a uma poesia de sociedade: poesia feita para a sociabilidade, para o trato galante, para a celebração ocasional, para o epigrama delicado, para o bilhete amoroso, para a homenagem, para o jogo espirituoso ou para a sátira branda dos costumes.

vers de société pertence frequentemente à poesia de circunstância, mas os dois conceitos não são equivalentes. Um poema composto para uma coroação, uma vitória militar, um funeral público ou uma comemoração nacional é circunstancial, mas pode ter tom solene e ambição monumental. O vers de société prefere, em regra, acontecimentos de escala menor e uma relação de proximidade entre autor, destinatário e público.

A expressão conserva-se habitualmente em francês, mesmo noutras línguas, porque remete para uma tradição cultural muito precisa: a da poesia mundana europeia, sobretudo francesa e inglesa, cultivada em ambientes aristocráticos e burgueses de conversação requintada. O termo reúne duas ideias fundamentais: vers, isto é, composição poética formalmente trabalhada, e société, isto é, mundo de relações, etiqueta, salão, companhia e convívio. O vers de société é, assim, poesia que vive da tensão entre arte e ocasião: nasce frequentemente de circunstâncias efémeras, mas aspira à permanência pela perfeição do fraseado, pela graça do conceito e pela agudeza do tom.

Na sua acepção mais rigorosa, o vers de société distingue-se da poesia lírica grave, da ode pública, da sátira violenta, da elegia íntima e da poesia didáctica. O seu domínio é o da inteligência ligeira. Pode tratar de amor, amizade, festas, jogos, aniversários, visitas, retratos, despedidas, prendas, modas, intrigas, pequenos ridículos ou episódios de salão. O que o define não é o assunto, quase sempre modesto, mas a maneira: polidez sem solenidade, ironia sem brutalidade, sentimento sem pathos excessivo, técnica sem ostentação pesada. A dificuldade do género reside precisamente em parecer fácil.

A genealogia do vers de société é longa. Na Antiguidade clássica, encontram-se antecedentes importantes no epigrama grego e latino, em certos poemas de Catulo, Marcial, Horácio e Ovídio, onde a brevidade, o endereço a destinatários concretos, a graça erótica, o retrato moral e a alusão circunstancial desempenham papel central. O epigrama, em particular, forneceu ao vers de société a concisão, a ponta final, o engenho e a inscrição da poesia no convívio social. Horácio legou-lhe ainda um ideal de urbanidade, medida e conversação culta.

Na Idade Média e no Renascimento, a poesia cortesã, os cancioneiros, os motes e glosas, as trovas de circunstância, os jogos de salão e a lírica palaciana constituem formas próximas, embora anteriores à fixação moderna do termo. A poesia trovadoresca, em especial, já estabelece uma relação estreita entre composição poética, código social e performance perante uma comunidade aristocrática. Contudo, o vers de société em sentido estrito pertence ao mundo moderno dos salões, das academias, das cortes e da comunicação manuscrita ou impressa entre letrados.

Em França, o género encontra terreno privilegiado nos séculos XVII e XVIII. A cultura dos salões, da conversação galante, da préciosité e da etiqueta cortesã favoreceu formas poéticas breves, espirituosas e socialmente codificadas. Autores como Vincent Voiture, Benserade, La Fontaine, Chaulieu, Voltaire e, mais tarde, Parny cultivaram modalidades de poesia ocasional, epistolar, galante ou epigramática que se aproximam do vers de société. O género cruza-se aí com o madrigal, o epigrama, a epístola em verso, o rondeau, a canção, o retrato e o poema de álbum. Mais do que uma escola, trata-se de uma prática social da literatura.

Na tradição inglesa, a expressão vers de société foi frequentemente aplicada à poesia ligeira, urbana e sofisticada de autores como Matthew Prior, John Gay, Alexander Pope, Lord Byron, Winthrop Mackworth Praed, Frederick Locker-Lampson, Austin Dobson e W. S. Gilbert. O século XIX inglês, com a sua cultura de clubes, revistas, álbuns, correspondência e sociabilidade literária, deu novo relevo ao termo. Frederick Locker-Lampson, em particular, contribuiu decisivamente para a sua codificação crítica com a antologia Lyra Elegantiarum, onde a poesia de sociedade é apresentada como arte de elegância, leveza, forma breve e civilidade espirituosa.

O vers de société relaciona-se com a chamada poesia ligeira, mas não se confunde inteiramente com ela. Toda a poesia de sociedade tende a ser ligeira, mas nem toda a poesia ligeira é vers de société. Este exige um horizonte de sociabilidade reconhecível, um sentido de destinatário e uma inscrição em códigos de trato mundano. Também se aproxima do epigrama, mas nem sempre possui a agressividade ou a conclusão mordaz deste. Aproxima-se ainda do madrigal, sobretudo na vertente galante; da poesia ocasional, pela dependência de eventos concretos; da sátira, quando comenta ridículos sociais; e da poesia de circunstância, quando responde a aniversários, casamentos, mortes, visitas ou acontecimentos públicos. A sua especificidade está na combinação de ocasião, engenho, elegância e urbanidade.

A história do género é inseparável de uma certa desvalorização crítica. Por lidar com temas menores, circunstâncias efémeras e ambientes mundanos, foi muitas vezes considerado inferior à grande poesia lírica, épica ou filosófica. Todavia, essa depreciação ignora a exigência formal do género. O vers de société depende de precisão métrica, leveza rítmica, adequação tonal e extrema economia expressiva. O excesso de sentimento torna-o melodramático; o excesso de espírito torna-o afectado; o excesso de moralidade torna-o pesado; o excesso de informalidade destrói-lhe a elegância. É uma arte de equilíbrio.

No contexto português, não há uma tradição terminológica tão estabilizada como a francesa ou inglesa, mas existem numerosos equivalentes funcionais. A poesia palaciana reunida no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende constitui talvez o antecedente mais importante: nela abundam composições de circunstância, jogos de mote e glosa, disputas poéticas, poemas dirigidos a damas, sátiras cortesãs, queixas amorosas codificadas e exercícios de engenho produzidos em ambiente aristocrático. Embora anterior ao termo francês, essa poesia desempenha funções sociais análogas: circula num meio de corte, responde a convenções de convivência e valoriza a agudeza verbal.

Também em Luís de Camões, para além da grandeza épica e da lírica amorosa mais alta, se encontram redondilhas, motes, glosas, trovas e composições de circunstância próximas da sociabilidade cortesã. Certas peças camonianas, escritas em torno de nomes, ocasiões, interlocutores ou jogos de engenho, mostram como a poesia quinhentista portuguesa participa numa cultura de salão e de corte onde a habilidade verbal é também forma de presença social. A tradição maneirista e barroca prolongou esta vertente em academias, certames e círculos letrados.

No século XVII e XVIII portugueses, o ambiente académico e cortesão forneceu amplo espaço a formas afins do vers de société. A poesia barroca de agudeza, os sonetos encomiásticos, os romances jocosos, os epigramas, as décimas e as composições de circunstância circulavam em academias, conventos, salões e redes de patronato. D. Francisco Manuel de Melo, pela sua inteligência mundana, gosto epistolar e domínio de formas breves, aproxima-se frequentemente dessa sensibilidade, ainda que a sua obra exceda largamente a categoria. No século XVIII, a Arcádia e a poesia neoclássica cultivaram igualmente a sociabilidade literária através de pseudónimos pastoris, dedicatórias, epístolas, elogios e poemas ocasionais.

Em Bocage, o campo é particularmente fértil. A par da lírica sentimental e satírica mais intensa, a sua obra inclui epigramas, sonetos de ocasião, improvisos, composições galantes e sátiras de convívio que se aproximam do espírito do vers de société. Bocage, todavia, frequentemente ultrapassa a moderação urbana do género, inclinando-se para a mordacidade, a obscenidade ou a violência satírica. Ainda assim, a sua presença em tertúlias, a rapidez de improvisação e o jogo verbal fazem dele uma figura essencial para compreender a poesia sociável em língua portuguesa.

No século XIX, a poesia de sociedade encontra condições novas na imprensa periódica, nos álbuns literários, nos saraus e nas relações mundanas da burguesia urbana. Em Portugal, autores como Almeida Garrett, António Feliciano de Castilho, João de Deus, Bulhão Pato e alguns poetas ultra-românticos ou parnasianos cultivaram formas de ocasião, dedicatórias, poemas galantes, epigramas e composições de álbum. Garrett, em especial, combina frequentemente elegância social, ironia e consciência da representação mundana, embora a sua importância literária esteja longe de se limitar a esse domínio.

A chamada “poesia de álbum”, muito praticada no século XIX, constitui uma manifestação portuguesa particularmente próxima do vers de société. Tratava-se de escrever composições breves em álbuns de senhoras, amigos ou figuras de prestígio, obedecendo a códigos de delicadeza, elogio, galanteria e espírito. O valor literário dessas peças é desigual, mas a sua importância histórica é considerável, pois mostra a poesia como prática de sociabilidade, como gesto de presença e como moeda simbólica no convívio letrado.

No Brasil, também se encontram equivalentes relevantes. A poesia arcádica e áulica de autores como Tomás António Gonzaga, em certas composições de circunstância, participa de códigos de sociabilidade letrada. No século XIX, a vida literária imperial, os salões, os jornais e os álbuns favoreceram poemas ocasionais, epigramas e peças galantes. Machado de Assis, embora mais reconhecido como prosador, escreveu poesia de circunstância e versos ligeiros em que a ironia, a medida e a civilidade se aproximam do espírito do género. No fim do século XIX e início do XX, Olavo Bilac e outros parnasianos cultivaram uma poesia de forma polida e sociabilidade mundana, embora muitas vezes mais solene do que propriamente ligeira.

Na poesia portuguesa e brasileira contemporânea, o vers de société raramente aparece como designação assumida pelos próprios autores. Os seus processos sobrevivem, contudo, em poemas-dedicatória, epigramas, homenagens jocosas, textos escritos para lançamentos de livros, versos trocados entre escritores e composições publicadas em redes sociais.

A aplicação do termo exige atenção ao contexto. Um poema breve sobre a sociedade contemporânea não é necessariamente vers de société; um texto aparentemente insignificante, dirigido a um amigo por ocasião de um jantar, pode sê-lo plenamente. O género não se define pela importância do assunto, mas pela transformação de uma relação social concreta num objecto verbal elegante e partilhável.

A modernidade alterou profundamente o estatuto do vers de société. O declínio da cultura aristocrática de salão e a emergência de uma concepção mais autónoma, crítica ou vanguardista da poesia reduziram o prestígio do género. Contudo, ele não desapareceu; transformou-se. A poesia humorística, a letra de canção sofisticada, o poema breve publicado em jornal, a sátira urbana, o poema epigramático e certas formas de poesia convivial herdaram algumas das suas funções. Em língua portuguesa, autores como Alexandre O’Neill e Mário Cesariny, embora ligados a horizontes surrealistas e críticos muito distintos, praticaram por vezes uma brevidade espirituosa, irónica e socialmente aguda que pode recordar, de modo moderno e subversivo, alguns mecanismos do vers de société. Também Manuel Bandeira, no Brasil, soube cultivar uma poesia de aparente simplicidade, graça conversacional e ironia delicada, embora a sua obra exceda largamente o âmbito mundano.

É importante, porém, não alargar excessivamente o termo. Nem todo o poema breve, humorístico ou ocasional é vers de société. Para que a designação seja rigorosa, devem estar presentes alguns traços fundamentais: relação com um contexto de convivência; tom elegante ou espirituoso; consciência do destinatário; brevidade relativa; domínio formal; recusa da grandiloquência; e inscrição em códigos de urbanidade. A obscenidade violenta, a sátira feroz, o panfleto político, a confissão íntima sem mediação social ou o lirismo trágico pertencem a domínios próximos, mas distintos.

O valor do vers de société reside precisamente na sua capacidade de converter a ocasião em forma. A circunstância que o motiva pode ser pequena; a arte que a transfigura não o é necessariamente. Nas suas melhores realizações, o género mostra que a poesia não nasce apenas da grande comoção, do acontecimento histórico ou da meditação metafísica, mas também da inteligência do convívio, da graça da resposta, da subtileza da alusão e da arte de dizer pouco com perfeita adequação.

Bibliografia

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