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Embora, segundo os dicionários, a palavra análise se tenha incorporado aos léxicos das línguas modernas por via erudita, seu uso se generalizou de tal modo que o significado corrente parece dispensar maiores explicações: ato de decompor um todo em suas partes constituintes, a fim de melhor compreendê-lo. Como, no entanto, o vocábulo integra terminologia técnica de diversas especialidades, convém fixar sumariamente os conceitos que veicula, com atenção especial para o campo dos estudos literários.

Trata-se de termo a princípio empregado por matemáticos e geômetras, para designar as operações que conduzem à resolução de um problema. A partir do século XVII, porém, passa a circular num âmbito filosófico mais amplo, tornando-se usual utilizá-lo para nomear um método de raciocínio ou argumentação, dito analítico, definido por oposição e correlação ao método chamado sintético (cf. Ferrater Mora, 1971, v. 1, p. 93-4). Com a cautela que as questões filosóficas sempre recomendam, pode-se dizer que a via sintética favorece as grandes construções especulativas, ao passo que o caminho analítico previne contra a assunção de produtos conceituais genéricos sem prévia consideração particular de seus fatores.

No campo dos estudos do discurso, uma percepção primária entende o texto como objeto verbal íntegro, resultante, porém, de uma composição, e como tal passível de decomposição por meio de procedimentos analíticos. Assim, para ficar com exemplos bem simples e substantivos, dados um poema e um romance, admite-se que eles sejam decomponíveis (isto é, analisáveis) respectivamente em: estrofes, versos, rimas, etc.; capítulos, personagens, diálogos, etc. Constrói-se desse modo uma relação triádica envolvendo: 1º – o texto; 2º – a idéia de que textos são objetos analiticamente cognoscíveis, idéia logo desdobrada em sistematização de procedimentos aplicáveis na operação analítica; 3º – a prática da análise. A segunda instância constitui um saber geral e sistemático sobre os discursos, ao passo que a terceira possibilita a aplicação deste saber a casos particulares.

Entre a segunda e a terceira instâncias da relação triádica mencionada, têm sido propostas articulações diferentes. Num equacionamento indutivo, entende-se que o saber geral e sistemático constitui mera decorrência do acúmulo de experiências analíticas, assim alçadas a posição de destaque; numa solução dedutiva, a hierarquia se inverte, pressupondo-se que as análises específicas de textos particulares não passam de aplicação localizada dos princípios disponibilizados naquele saber geral e sistemático.

Freqüentemente, essa diferença entre conjunto de conceitos gerais e atenção a casos particulares, desprezada a hipótese mais razoável de um vínculo por implicação recíproca, simplifica-se na oposição entre grandes construções especulativas abstratizantes (privilégio da via sintética) e consideração da singularidade de cada texto concreto (ênfase no caminho analítico). Em termos ainda mais simplistas, a diferença acaba por assimilar-se à polaridade teoria versus prática, em que se concebe a primeira como um sortimento de modelos mecanicamente aplicáveis, vistos como dispositivos para a consumação da segunda. Tão forte tem sido a requisição de tal diferença que ela chega a determinar fronteiras disciplinares. É o que indica, por exemplo, a nomenclatura corrente em língua inglesa, que distingue na área do literary criticism (crítica literária) entre critical theory (teoria crítica) e practical criticism (crítica prática).

Seguindo outra linha de considerações, observe-se que a análise pode transformar-se num exercíco intransitivo, autocentrado, cujo acanhamento especulativo sequer vislumbre a possibilidade de questionar suas próprias motivações, conceitos operacionais e objetivos. Nesse caso, restinge-se à obrigação escolar de esmiuçar uma obra ou fragmento, obrigação cujo sentido costuma escapar por completo aos seus executores. Mas a análise pode também culminar em questões que a transcendem, visando assim a objetivos de importância suficiente para legitimá-la como empreendimento intelectual. Tais objetivos variam muitíssimo, sendo no entanto possível fazer idéia de seu papel de culminância e justificativa da trajetória analítica mediante consideração de um exemplo.

No modelo em que Dionísio da Trácia (século II-I a. C.) sistematiza a tradição grega de transformar a língua documentada nos textos em objeto de perquirição, por ele designado ars grammatica), articulam-se dois níveis. O primeiro, denominado arte menor, compreende as seguintes operações: leitura segundo a prosódia; explicação das figuras retóricas; esclarecimento de significantes e significados; estudo das etimologias; reconhecimento das regras de gramática. O segundo, chamado arte maior, consiste na emissão de um juízo sobre o texto em apreço, considerando sua qualidade e autenticidade (cf. Sousa, 1966, p. 198-9). Ora, verifica-se que, nesse escalonamento das referidas artes menor e maior, a primeira corresponde àquilo que em termos modernos chamaríamos análise; a segunda, conforme aliás o próprio nome sugere, projeta num âmbito mais amplo os resultados do esforço analítico, instrumentalizando-os para uma síntese que, ao redimi-los da gratuidade, os justifica.

Deve-se assinalar ainda que em certos conjuntos conceituais/terminológicos joga-se com a distinção entre análise e interpretação. Em alguns casos, mediante o segundo termo se nomeia o momento de simultânea transcendência e culminância do processo analítico, momento sujeito a diversas concepções históricas e aqui sumariamente exemplificado pelo modelo de Dionísio da Trácia; em outros casos, reserva-se o termo análise para as investigações centradas no texto entendido como obra de arte e linguagem, utilizando-se a palavra interpretação para o conjunto de juízos sintéticos interessados em esclarecer a série de motivações histórico-sociais da obra.

Por fim, observe-se que, em certos contextos, o emprego especializado torna equivalentes ao vocábulo análise as expressões leitura (ou leitura analítica) e crítica (no sentido de estudo de certa obra em particular).

{bibliografia}

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