Select Page

Termo originalmente utilizado no título de uma bula papal (Congregatio de propaganda fido) do séc. XVI contra o Protestantismo. Em Literatura, a propaganda pressupõe a divulgação de uma determinada ideia ou crença política, religiosa ou outra. Esta divulgação poderá ser intencional ou não e poderá revestir-se de um carácter de glorificação ou oposição a um sistema vigente.

A poesia é o género mais influente, pois possui a vantagem do ritmo, rima e imagética, que mais facilmente transmitem uma mensagem e a tornam de mais fácil memorização. A tradição da poesia oral épica em sociedades iletradas foi um importante meio para divulgar ideias. Pode-se dividir a poesia em quatro grandes campos: o mito versificado, que põe em evidência os valores corteses e a lealdade ao rei, à nação ou a Deus, o panegírico ou os poemas corteses de glorificação dinástica, a lírica, para incitamento a sentimentos religiosos ou bélicos, e a sátira, como instrumento para a humilhação de inimigos políticos.

Alguns exemplos de glorificação são os poemas The Faerie Queen, que apoiam a rainha Isabel I e o novo conceito de império marítimo inglês, Os Lusíadas de Luís de Camões, que focam o espírito empreendedor de Portugal, e a poesia patriótica alemã de Ernst Arndt e Ludwig Uhland, ambos do séc. XVIII, que desempenhou um papel importante na criação do clima adequado à unificação.

No teatro, as peças foram usadas pelos regimes políticos e pelos seus opositores com um carácter propagandístico; no entanto, a maioria destas obras, com uma forte matriz política, não singrou na história da literatura, porque eram demasiado complexas para serem entendidas fora do contexto político em que se inseriam ou eram excessivamente maçadoras. As mais célebres peças de oposição foram as sátiras, sendo o seu mais importante expoente Aristófanes, que com As Nuvens e As Vespas criticou, de uma forma mordaz, o poder político e a sociedade. Também no séc. XVIII, na Inglaterra, as representações dos textos de Henry Fielding no Little Haymarket Theatre eram de tal maneira ameaçadoras para o poder político que deram origem a uma lei que proibia este tipo de texto dramático. No século seguinte, passam a ser um instrumento de combate político mais subtil. E, no séc. XX, dois dos mais influentes dramaturgos políticos foram Berthold Brecht, especialmente com Mann ist Mann e Mutter Courage, e George Bernard Shaw.

No entanto, não só de oposição viveu o teatro. Pode-se observar um elogio à dinastia Stuart na cena das bruxas de Macbeth, de Shakespeare, e As Bodas de Fígaro, de Beaumarchais, que estreou em 1784, é uma das obras mais influentes nos preparativos para a Revolução Francesa. Muitos dirigentes políticos, tal como Cromwell, Robespierre e Mao Tsé-Tung, usaram também o teatro como forma de dar voz às suas ideias e influenciar as massas.

Tal como no plano político, o teatro também teve um grande papel na propaganda religiosa através das peças morais medievais e encenações de paixões e natividades. Isso deve-se ao facto de ser a única forma de representação que abrangia um público vasto, já para não dizer global, pois era promovida pelo Clero (uma das classes privilegiadas da Idade Média) e encenada no interior e exterior das igrejas, sendo, portanto, acessível e dirigida a todos.

O romance também tem sido muito usado como meio de propaganda de oposição. A oposição britânica do séc. XVIII deu origem aos romances de crítica política como New Atlantis, de Mary de la Rivière, e Gulliver’s Travels, de Jonathan Swift; no séc. XIX encontra-se um elemento liberal nas obras de Charles Dickens e de socialismo cristão nas de Charles Kingsley. Com a mesma função dos romances de Dickens, surge em França, também no séc. XIX, Émile Zola, que inclui nas suas obras um forte conteúdo propagandístico. Vai ser, no entanto, nos Estados Unidos da América, que Uncle Tom’s Cabin, de Harriet Beecher Stowe, se torna talvez o mais influente romance propagandístico desse século. O romance de oposição foi muito importante na história propagandística da Rússia; os principais autores foram Ivan Turgeniev e Tchernishevski, no séc. XIX, e Boris Pasternak e Alexander Soljenitsine, no séc. XX. Neste mesmo século, em Portugal, e como oposição ao regime político de António de Oliveira Salazar, surge todo um conjunto de romancistas (Soeiro Pereira Gomes, Alves Redol, Fernando Namora, Manuel da Fonseca, entre outros), que irão, através das suas obras, alertar para a necessidade de uma nova consciência da realidade portuguesa.

O romance também serviu de apoio a ideais políticos vigentes, embora não de maneira tão significativa. Já na China Ming do séc. XVI, a novela romântica era usada como meio de promoção de valores budistas e da política Ming. A afirmação do patriotismo e do entusiasmo militar são, de igual forma, despoletados pelo romance. Deste modo, John Buchan e Rudyard Kipling, entre outros, ajudam a construir a imagem do imperialismo britânico do séc. XIX e, na Rússia, Anatoli Ribakov, no século seguinte, com Os Filhos da Rua Arbat, foi considerado um apoiante das reformas de Gorbachev, havendo muitos mais exemplos noutros países. A literatura infantil torna-se no género mais perigoso, onde a manipulação das doutrinas poderá atingir sérias repercussões. As Fábulas de Esopo criaram um modelo moral para muitas gerações, assim como os irmãos Grimm contribuíram para o patriotismo germânico juvenil e Enid Blyton promoveu os valores da classe média.

{bibliografia}

A. P. Foulkes: Literature and Propaganda (1983); Christa Kamenetsky: Children’s Literature in Hitler’s Germany: The Cultural Policy of National Socialism (1984); David Bradby: Performance and Politics in Popular Drama: Aspects of Popular Entertainment in Theatre, Film and Television, 1800-1976 (1980); David Daiches: Literature and Western Civilization (1975); Jack Zipes: Fairy Tales and the Art of Subversion: The Classical Genre for Children and the Process of Civilization (1983); Oliver Thomson: Easily Led: A History of Propaganda (1999); Robert Giddings: Literature and Imperialism (1991); Susan Suleiman: Authoritarian Fiction (1993).