Será a interdisciplinaridade um método, eficaz, sobretudo, na teorização do pós-modernismo, por exemplo, como postula, brilhantemente, no verbete “Pós-modernismo”, Carlos Ceia: “o que pode ajudar a datar o pós-modernismo na contemporaneidade é a sua teorização, que tem sido gradualmente mais complexa e interdisciplinar” (grifo nosso). Se o modernismo caracteriza-se, inclusive, pela cissiparidade do sujeito, pela fragmentação do eu, pela pulverização da personalidade, evidentes na vida e obra abissais de Mário de Sá-Carneiro (1890-1916) – “(…) que o seu gênio – talvez por demasiado luminoso – se consumiria a si próprio, incapaz de se condensar numa obra – disperso, quebrado, ardido. E assim aconteceu, com efeito. Não foi um falhado porque teve a coragem de se despedaçar” – e absurdamente contundentes em Fernando Pessoa (1888-1935) – “… a origem mental dos meus heterónimos está na minha tendência orgânica e constante para a despersonalização e para a simulação. Estes fenómenos – felizmente para mim e para os outros – mentalizaram-se em mim; quero dizer, não se manifestam na minha vida prática, exterior e de contacto com os outros; fazem explosão para dentro e vivo-os eu a sós comigo… Desde criança tive a tendência para criar em meu torno um mundo fictício, de me cercar de amigos e conhecidos que nunca existiram… Desde que me conheço como sendo aquilo a que chamo eu, me lembro de precisar mentalmente, em figura, movimentos, carácter e história várias figuras irreais que eram para mim tão visíveis e minhas como as coisas daquilo a que chamamos, porventura abusivamente, a vida real…” -, uma tensão dialética estabelece-se, pós-modernamente, através do movimento interdisciplinar, que busca, ansiosamente, uma travessia dos saberes, um diálogo entre as disciplinas, um entrecruzamento epistemológico. Com efeito, a especialização, pólo oposto à interdisciplinaridade, pode gerar a angústia do isolamento estéril, pode construir uma nova torre de marfim, pode circunscrever um gueto científico, artístico, investigativo. Contrariamente ao ditado pejorativo – “é melhor saber muito de pouco do que saber pouco de muito”, a pesquisa interdisciplinar propõe e promove um saber intercalado, entrosado, entretecido, onde o pesquisador busque os pontos de contato, os gonzos, as articulações entre as diversas áreas de estudo, pois o mar do saber engendra ondas que executam um concerto único, mesmo se cada onda, ou instrumento musical, possui sua natureza, sua essência, sua energia. Em La Vie intellectuelle, son esprit, ses conditions, ses méthodes (1965) – livro-paradigma de meus tempos de seminarista em Mariana-MG – o filósofo tomista francês Antonin-Dalmace Sertillanges (1863-1948) desenha, depois de fazer um «sermão» a favor da especialização, identificada por ele como profundidade, esta bela alegoria : « Dizíamos: é preciso entrar em diversas vias para ter o sentimento dos encontros; é preciso abeirar-se da terra largamente para terminar nas profundidades. Feito isto, se só se pensa em cavar no centro, o aperto mostra todo o céu. Desde que se conhece a fundo alguma coisa, contanto que não se ignore inteiramente o resto, este resto em toda a sua extensão tem o benefício da viagem para as profundidades. Todos os abismos se assemelham e todos os fundamentos comunicam entre si» (p. 107). Folgo em constatar que, nesse excerto, o tomismo reencontra-se, surpreendentemente, com o perspectivismo nietzscheano. Quem diria! Milagres da interdisciplinaridade, que remove radicalismos e desvairismos. Afinal, o outro saber é espelho do mesmo. Mais uma interessante alegoria, que visualizo sobre a interdisciplinaridade, recolho-a em Aula (1978), de Roland Barthes (1915-1980), que, tratando da semiologia literária, pondera : «Um escritor – entendo por escritor não o mantenedor de uma função ou o servidor de uma arte, mas o sujeito de uma prática – deve ter a teimosia do espia que se encontra na encruzilhada de todos os outros discursos, em posição trivial com relação à pureza das doutrinas (trivialis é o atributo etimológico da prostituta que espera na intersecção de três caminhos)» (p. 26). Por conseguinte, a interdisciplinaridade mancha a pureza do saber único, uno, absoluto; agir interdisciplinarmente significa estudar os saberes de forma humana, «demasiadamente humana».
Fincando raízes na história da ciência moderna, que, no carrossel dos séculos, se multiplica em uma infinidade de disciplinas especializadas, tais como, ciências sociais, sociologia, antropologia, psicologia, anatomia geral, anatomia especifica, neurologia, cardiologia, fisiologia, ciências da natureza, biologia, microbiologia, ciências exatas, química, fisica, e muitas outras, cada uma sendo responsável por uma pequena fração, ou especialidade da ciência, e cada uma com um especialista diferente, que domina somente a sua especialidade, determinada fração do conhecimento. Surgindo, sobretudo, no século XX, a interdisciplinaridade empreende um esforço para superar tanto o movimento de especialização da ciência quanto a fragmentação do conhecimento em diversas áreas de estudo e pesquisa, bem como a racionalização científica; comparecem, então, novas disciplinas agregadoras de áreas especificas do conhecimento a fim de compreender fenômenos que seriam imcompreensíveis por apenas uma área, como é o caso da bioengenharia, da bioquímica, da linguística… Ciências dos signos, a semiologia e a semiótica possuem uma natureza plenamente interdisciplinar, na medida mesma em que o signo e a linguagem – corpora dos estudos semiológicos e semióticos – são conceitos-chave em toda e qualquer ciência, humana e exata. No campo mais específico da arte, a semiologia e sua irmã-gêmea siamesa, a semiótica, dão conta de que a interdisciplinaridade rege o concerto intertextual das linguagens artísticas. Face à pulverização do saber, a interdisciplinaridade apareceria como uma espécie de “reconciliação epistemológica”, onde as ciências dos signos têm um papel preponderante: o de argamassa semiológica, o de alquimia semiótica.
Tratando da categoria “Episteme”, Carlos Ceia refere o Michel Foucault (1926-1984) de Les Mots et les choses. Une archéologie des sciences humaines (1966) e de L’Archéologie du savoir (1969): “A episteme nunca é definida por Foucault como um termo para uma forma particular de conhecimento, mas como o conjunto das relações epistemológicas entre as ciências humanas”; portanto, a interdisciplinaridade diz, sempre, respeito, a relações, a relações de saber, a relações investigativas. Continua o organizador e coordenador deste E-Dicionário de Termos Literários: “Não é inteiramente satisfatório que estejamos a viver uma qualquer idade da indeterminação, onde nada prevalece e nada pode ser representado. É verdade que um qualquer do pós-modernismo não pode ignorar um dado conjunto de conceitos ligados à ideia de indeterminação, que um dos primeiros teóricos do pós-modernismo, Ihab Hassan, vê como um composto de outras ideias que lhe estão próximas como: “heterodoxy, pluralism, eclectism, randomness, revolt, deformation. The latter alone subsumes a dozen current terms of unmaking: decreation, disintegration, deconstruction, decenterment, displacement, difference, discontinuity, disjunction, disappearance, decomposition, de-definition, demystification, detotalization, delegitimation.” (“Desire and Dissent in the Postmodern Age”, Kenyon Review, 5, 1, 1983, p.9).
À lista, em aberto, de traços do pós-modernismo, podemos acrescentar a marca interdisciplinar, que será ainda, como dito nos umbrais deste texto, uma óptica para se analisar a condição lyotardiana pós-moderna. Carlos Ceia reenvia, também, ao “próprio Fernando Pessoa (que) dissertou sobre esta questão (o modernismo) num pequeno prefácio à Antologia de Poemas Portugueses Modernos: “ (…) O tempo repugna as divisões, que a sua continuidade não conhece, como a terra as fronteiras, que não são linhas nela. Mas a história e a lógica, ambas produtos literários, têm que estabelecer fronteiras, em homenagem à literatura” (in Obras em Prosa, vol.2, Círculo de Leitores, 1987, p.89)”. Pós-modernamente, há uma ultrapassagem das fronteiras, não apenas de gêneros, como, principalmente, de disciplinas. Não haverá fronteiras entre moderno e pós-moderno, a não ser um mero hífen, que, separando, une.
No campo semântico da epistemologia, quatro categorias relacionam-se intimamente (interdisciplinarmente): interdisciplinaridade, pluridisciplinaridade, multidisciplinaridade e transdisciplinaridade, em que o núcleo comum – “disciplina” – identifica um lugar que deve, dialeticamente, ser deslocado, transposto, trasladado, sem, todavia, ser recalcado. Será cada disciplina um espelho ou speculum, termo que, na Idade Média, designava obras de caráter didático, moral, ascético e científico. O que será do espelho se não houver algo para refletir? Portanto, o espelho, ou a disciplina, implica a existência do outro a ser refletido (“refletir”, verbo pluriconotativo). Mister se faz também notar que o signo latino “disciplina” produz, ainda, como no vernáculo, além do sentido de “doutrina”, a significação de “ordem”, “regime”. Já os prefixos latinos diferenciados – “inter”, “pluri”, “multi” e “trans” – apontam o movimento, a direção, a travessia dos saberes, justapostos, acumulados e permeados. Em seu Dicionário básico de filosofia (o epíteto “básico” qualifica bem o livro; é de notar-se que outros dicionários de filosofia, não-básicos, como o clássico Diccionario de filosofía, do espanhol José Ferrater Mora, e o excelente Dicionário de filosofia, do italiano Nicola Abbagnano, não registram a entrada “interdisciplinaridade”), os professores cariocas Hilton Japiassu e Danilo Marcondes, depois de atinarem para as insofismáveis interpenetração e fecundação das disciplinas, definem a interdisciplinaridade como “um método de pesquisa e ensino suscetível de fazer com que duas ou mais disciplinas interajam entre si, esta interação podendo ir da simples comunicação das idéias até a integração mútua dos conceitos, da epistemologia, da terminologia, da metodologia, dos procedimentos, dos dados e da organização da pesquisa. Ela torna possível a complementaridade dos métodos, dos conceitos, das estruturas e dos axiomas sobre os quais se fundam as diversas categorias científicas. O objetivo utópico do interdisciplinar, diante do desenvolvimento da especialização sem limite das ciências, é a unidade do saber. Unidade problemática, sem dúvida, mas que parece constituir a meta ideal de todo saber que pretende corresponder às exigências fundamentais do progresso humano. Não confundir a interdisciplinaridade com a multi – ou pluridisciplinaridade: justaposição de duas ou mais disciplinas, com objetivos múltiplos, sem relação entre elas, com certa cooperação mas sem coordenação situada num nível superior” (p. 136). A filosofia básica volta-se, pois, para a interdisciplinaridade, na medida em que já nenhuma disciplina é rainha, sendo servas as outras disciplinas: sem hierarquia, todas as disciplinas conversam entre si.
A editora carioca Tempo Brasileiro organizou um dossiê, que tematiza a interdisciplinaridade, de que o primeiro volume, publicado em 1962, inaugura-se com um texto, de que extraímos alguns excertos: “Tais crises (do final do milênio passado) e questionamentos evidenciam a necessidade de superação de esquemas de pensamento encastelados nos limites estreitos de disciplinas que pretendem organizar o conhecimento. Num mundo que rediscute suas barreiras sócio-políticas, econômicas e culturais, retomando o debate sobre a questão do colonialismo de várias espécies, a postura interdisciplinar deve ser a garantia de um movimento reflexivo que, passando pela questão da pertinência ou não da noção de disciplina, possa conduzir a ação comprometida com o desenvolvimento e permanência da democracia entre a humanidade”. Já, na ouverture do volume 2, também de 1962, lemos: “Continuamos a investigação sobre as permutas interdisciplinares como exigência do saber atual. A compreensão interdisciplinar tornou-se ainda mais necessária a partir do momento em que nos vimos sitiados pela complexidade da vida cotidiana e pelas desconcertantes peripécias de uma história incerta”. O volume 3, datado de 1995, abre-se com uma nota, intitulada “Crítica da especialização pura”: “O fanatismo da especialização pura e dura tem levado o debate metodológico para uma espécie de beco sem saída. Fechar o saber possível na disciplina impossível corresponde a bloquear todas as passagens que conduzem a opções metodológicas oportunas e frutuosas. Já se disse de George Steiner que é um ‘especialista em idéias gerais’. A intenção era de denegrir o grande crítico. Mas a decrepitude da sentença mal disfarçava a sua indolência teórica. Steiner é um construtor de pontes e, por isso mesmo, reage ao regime carcerário das prisões disciplinares. Este terceiro número monográfico de nossa revista (os dois primeiros foram os de no. 108 e 113), dedicados à interdisciplinaridade, se esforça igualmente por construir novos espaços de convivência, de diálogo, de permutas, de divergências até”. Tais considerações, empreendidas por pesquisadores, brasileiros e estrangeiros, de várias áreas, pulsam uma atualidade a toda prova. Com efeito, o saber é caleidoscópico e, como tal, gira e reverbera.
No congresso Luso-Brasileiro sobre Epistemologia e Interdisciplinaridade na Pós-Graduação, realizado, nos dias 22, 23 e 24 de junho de 2004, na Pontifícia Universidade Católica de Porto Alegre-RS, Olga Pombo, da Faculdade das Ciências da Universidade de Lisboa, proferiu uma conferência, intitulada “Interdisciplinaridade e integração dos saberes”, cujo resumo se apresenta desta forma: “Com o objectivo de contribuir para a superação da equivocidade que envolve o conceito de interdisciplinaridade, começamos por uma proposta de estabilização do sentido da palavra. Num segundo momento, procura-se mostrar que aquilo que explica o carácter recorrente com que o conceito, apesar de equívoco, continua a ser utilizado, é a procura de uma resposta positiva para o fenômeno avassalador da especialização, a tentativa de ultrapassar os graves cultos culturais, institucionais e heurísticos dele decorrentes. Finalmente, defende-se que a interdisciplinaridade é a manifestação de uma transformação epistemológica em curso e apontam-se aquelas que nos parecem ser as suas duas consequencias principais: o alargamento do conceito de ciência e a transformação da Universidade”. Olga Pombo conclui belamente sua magistral fala: “ Ao contrário da fórmula repetida segundo a qual a nossa liberdade começa quando termina a liberdade do outro, para arriscar fazer interdisciplinaridade é necessário perceber que a nossa liberdade só começa quando começa a liberdade do outro. Ou seja, temos que dar as mãos e caminhar juntos”. Ao fim e ao cabo, a interdisciplinaridade é uma questão de liberdade da disciplina a fim de melhor saborear-se o saber.
Será, como propõe Stephen Bayley, em “Don’t have a vache: from Barthes to Bart”, o estruturalismo, que combina métodos literários, antropológicos, lingüísticos e freudianos, “um termo francês para interdisciplinaridade”? Interdisciplinarmente, reenvio meu provável leitor ao verbete “Estruturalismo”, incrustado neste E-Dicionário de Termos Literários.
Em suas Seis propostas para o próximo milênio (1988), milênio que já é o nosso, Italo Calvino apresenta um epílogo à quinta proposta (as outras são: “leveza”, “rapidez”, “exatidão”, “visibilidade”) – a multiplicidade -, intimamente relacionada com os outros valores propostos e que ressoa a mais impura interdisciplinaridade: “Chego assim ao fim dessa minha apologia do romance como grande rede. Alguém poderia objetar que quanto mais a obra tende para a multiplicidade dos possíveis mais se distancia daquele unicum que é o self de quem escreve, a sinceridade interior, a descoberta de sua própria verdade. Ao contrário, respondo, quem somos nós, quem é cada um de nós senão uma combinatória de experiências, de informações, de leituras, de imaginações? Cada vida é uma enciclopédia, uma biblioteca, um inventário de objetos, uma amostragem de estilos, onde tudo pode ser continuamente remexido e reordenado de todas as maneiras possíveis. Mas a resposta que mais me agrada dar é outra: quem nos dera fosse possível uma obra concebida fora do self , uma obra que nos permitisse sair da perspectiva limitada do eu individual, não só para entrar em outros eus semelhantes ao nosso, mas para fazer falar o que não tem palavra, o pássaro que pousa no beiral, a árvore da primavera e a árvore do outono, a pedra, o cimento, o plástico… Não era acaso este o ponto de chegada a que tendia Ovídio ao narrar a continuidade das formas, o ponto de chegada a que tendia Lucrécio ao identificar-se com a natureza comum a todas as coisas?” (p. 138). Rede de conexões, o conhecimento tange-se, definitivamente, sob o signo da interdisciplinaridade.
Terá este verbete sido construído interdisciplinarmente e, assim, será lido pelo virtual leitor, disposto a ficar na encruzilhada dos saberes, de onde se vislumbram horizontes, que, até, se hão de confundir numa profusão de significâncias ou, barthesianamente inscrevendo, numa “galáxia de significantes”.
BARTHES, Roland. Aula. Trad. Leyla Perrone-Moisés (2008). CALVINO, Italo. Seis propostas para o próximo milênio. Trad. Ivo Barroso (1990). FOUCAULT, Michel. As Palavras e as Coisas (1991). JAPIASSU, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário básico de filosofia (1990). PESSOA, Fernando. Obras em Prosa, vol.2. (1987). POMBO, Olga. Liinc em Revista, v. 1, março 2005, p. 3-15 http://www.ibict.br/liinc REVISTA TEMPO BRASILEIRO. Números 108 e 113 (1962) e 121 (1995). SÁ-CARNEIRO, Mário de. Confissão de Lúcio (1913). SERTILLANGES, A.-D. A vida intelectual. Trad. António Pinto de Carvalho (1940).



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