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Doutrina estética e uma orientação literária, formuladas em França no início do século XX, que concebem os grupos humanos como realidades psíquicas colectivas, dotadas de impulsos, emoções e formas de consciência que não se reduzem à soma das experiências individuais. Na literatura, o unanimismo procura representar a vida simultânea de multidões, bairros, cidades, associações, assembleias e outras comunidades, tratando-as não como simples cenários, mas como sujeitos colectivos capazes de sentir, desejar e agir.

O termo deriva do francês unanimisme, formado a partir do latim unanimus, «que possui uma só alma» ou «que participa do mesmo sentimento». Foi consagrado por Jules Romains, sobretudo através do livro de poemas La Vie unanime, publicado em 1908. A palavra não significa, neste contexto, concordância absoluta entre todos os membros de um grupo, nem defesa política de uma sociedade sem divergências. Designa antes a hipótese poética de que, em certas circunstâncias, a reunião dos indivíduos produz uma realidade afectiva e espiritual nova: uma «alma colectiva» ou uma «vida unânime».

O unanimismo deve, pois, distinguir-se do uso corrente de «unanimidade». Uma multidão unanimista não necessita de possuir uma opinião única. Pode ser atravessada por diferenças, tensões e contradições. O que lhe confere unidade é a participação dos indivíduos num mesmo espaço, ritmo, acontecimento ou campo de forças. A cidade, a rua, a fábrica, o teatro ou a manifestação tornam-se organismos em que as consciências particulares entram temporariamente em comunicação.

O unanimismo surgiu no ambiente cultural francês das primeiras décadas do século XX. A rápida expansão das cidades, o desenvolvimento dos transportes, a industrialização, a imprensa de grande circulação e o aparecimento de novas formas de vida colectiva alteraram a percepção da sociedade. A multidão urbana deixou de ser apenas um elemento secundário da representação realista e tornou-se uma das figuras centrais da modernidade.

A literatura oitocentista preparara já este desenvolvimento. Honoré de Balzac procurara representar a sociedade como um sistema de relações; Victor Hugo conferira à multidão uma dimensão histórica e simbólica; Émile Zola apresentara grupos sociais submetidos a forças económicas e biológicas; Charles Baudelaire fizera da experiência anónima da cidade uma condição da sensibilidade moderna. Em Walt Whitman, cuja influência foi importante para vários autores europeus, a voz poética procura ainda incorporar uma pluralidade de corpos, profissões, lugares e identidades.

O unanimismo distingue-se, contudo, destas tendências pela atribuição explícita de uma existência psíquica ao grupo. O colectivo não é apenas observado por um narrador exterior, nem funciona somente como símbolo da sociedade. Constitui uma realidade emergente, com uma duração, uma energia e uma sensibilidade próprias.

O principal formulador do unanimismo foi Jules Romains, pseudónimo de Louis Farigoule. A sua concepção literária desenvolveu-se em contacto com o grupo da Abadia de Créteil, comunidade artística fundada em 1906 por Georges Duhamel, Charles Vildrac, René Arcos e outros escritores e artistas. A Abadia procurava criar uma forma de vida e de trabalho colectivo que contrariasse o isolamento do escritor e a mercantilização da produção artística.

Romains não permaneceu durante muito tempo na comunidade, mas partilhou algumas das suas preocupações: a recusa do individualismo extremo, a atenção à vida quotidiana e a procura de formas literárias capazes de representar a experiência colectiva.

Em La Vie unanime, a cidade surge como um organismo constituído por ruas, casas, transportes, grupos e ritmos. O poeta não se limita a descrever indivíduos reunidos no mesmo lugar. Procura apreender o momento em que a contiguidade física se transforma em comunhão afectiva. Um grupo forma-se, adquire intensidade, reconhece obscuramente a sua unidade e pode depois dissolver-se, deixando nos indivíduos os vestígios da experiência partilhada.

A teoria foi posteriormente exposta por Romains em textos como Manuel de déification. A «deificação» designa aí o processo pelo qual uma realidade colectiva adquire, para a consciência poética, uma existência superior à dos seus elementos isolados. Não se trata necessariamente de uma crença religiosa: é uma maneira de reconhecer a força imanente que emerge das relações entre indivíduos.

O unanimismo relaciona-se com várias correntes filosóficas e sociológicas do seu tempo, embora não possa ser reduzido a nenhuma delas.

É possível aproximá-lo da sociologia de Émile Durkheim, que estudou a sociedade como uma realidade distinta das consciências individuais. Conceitos como «consciência colectiva» e «efervescência colectiva» ajudam a compreender a ideia de que os grupos produzem representações, emoções e normas próprias. Não existe, porém, uma identidade integral entre a sociologia durkheimiana e a poética de Romains: a primeira procura explicar factos sociais; a segunda transforma a experiência do colectivo num princípio de criação literária.

O unanimismo também se aproxima, parcialmente, das teorias da multidão desenvolvidas no final do século XIX. Em Psychologie des foules, Gustave Le Bon sustentara que o indivíduo, quando integrado numa multidão, perde parte da sua autonomia e passa a agir sob a influência de uma mentalidade colectiva. Romains afasta-se, todavia, da visão predominantemente negativa de Le Bon. A multidão unanimista não é necessariamente irracional, violenta ou regressiva; pode constituir uma forma ampliada de sensibilidade e participação.

A filosofia de Henri Bergson oferece outro termo de comparação. A importância atribuída à duração, à intuição e ao movimento contínuo da consciência encontra correspondência na tentativa unanimista de apreender o grupo como processo vivo, e não como conjunto estático. Ainda assim, o unanimismo possui uma orientação mais directamente social e urbana.

A obra de Walt Whitman representa um antecedente poético decisivo. A enumeração de pessoas, actividades e lugares, a expansão do “eu” e a celebração de uma comunidade plural antecipam algumas características da escrita unanimista. Em Whitman, porém, a pluralidade é frequentemente reunida na voz expansiva do poeta; em Romains, o grupo pode adquirir uma existência relativamente autónoma em relação ao sujeito que o observa.

O unanimismo confere particular importância aos espaços de concentração humana: ruas, praças, fábricas, escolas, igrejas, quartéis, teatros, estações, cafés, reuniões políticas e espectáculos públicos. Cada um destes espaços pode formar uma unidade momentânea. Uma sala de teatro, por exemplo, começa por conter espectadores isolados; à medida que a representação decorre, as reacções individuais podem transformar-se numa emoção comum, como se o público constituísse um único corpo.

Esta formação colectiva não elimina necessariamente as consciências particulares. O efeito unanimista nasce muitas vezes da oscilação entre o singular e o plural: a percepção de uma personagem passa para outra, os gestos repetem-se, os sons atravessam o espaço e uma emoção sem proprietário individual definido circula entre os membros do grupo.

O unanimismo partilha com o futurismo o interesse pela cidade moderna, pela energia colectiva, pelas máquinas, pelos transportes e pela simultaneidade. As duas correntes procuraram superar uma poesia limitada à contemplação individual. Não devem, contudo, ser confundidas.

O futurismo privilegia frequentemente a velocidade, a ruptura, a violência, a técnica e a destruição dos valores herdados. O unanimismo interessa-se sobretudo pela formação de consciências colectivas e pela circulação afectiva entre indivíduos. A máquina pode estar presente, mas não constitui necessariamente o centro da experiência.

Também existem afinidades com o expressionismo e com certas formas do modernismo narrativo. A deformação da percepção, a multiplicação dos pontos de vista e a fragmentação da cidade são processos comuns a diversas correntes. A especificidade unanimista encontra-se na tendência para converter a pluralidade numa unidade viva, ainda que transitória.

A partir das primeiras décadas do século XX, muitos destes processos deixaram de pertencer exclusivamente a uma escola. A montagem, a simultaneidade e a voz colectiva foram incorporadas pelo romance modernista, pela poesia de vanguarda, pela narrativa cinematográfica e, posteriormente, pelo romance político e pela literatura urbana.

A moderna teoria da literatura não conservou geralmente o unanimismo como sistema doutrinário autónomo. Incorporou, porém, vários dos problemas por ele formulados.

narratologia estudou os modos de representar a simultaneidade, a alternância entre pontos de vista e a passagem entre consciências individuais. Conceitos como focalização, perspectiva múltipla, narrativa multipessoal e discurso colectivo permitem descrever com maior precisão processos que o unanimismo apresentara como manifestação de uma alma comum.

A teoria da polifonia, associada sobretudo a Mikhail Bakhtin, deslocou a atenção da unidade para a coexistência de vozes sociais distintas. Há, neste ponto, uma diferença importante. O unanimismo tende a procurar a unidade que emerge da pluralidade; a polifonia bakhtiniana acentua a autonomia, o conflito e a irredutibilidade das vozes. A comparação entre ambos permite perguntar se uma obra representa verdadeiramente uma consciência colectiva ou se conserva a tensão entre posições inconciliáveis.

Os estudos sobre o romance modernista analisaram a montagem de acontecimentos simultâneos, a representação da metrópole e a multiplicação das perspectivas. Obras como Ulysses, de James Joyce, Manhattan Transfer, de John Dos Passos, e Mrs Dalloway, de Virginia Woolf, não são unanimistas em sentido estrito, mas desenvolvem problemas semelhantes: a relação entre indivíduo e cidade, a circulação de vozes e a experiência de um tempo partilhado.

sociocrítica e a sociologia da literatura retomaram a questão da presença do colectivo na forma literária. Em vez de pressuporem uma alma social unitária, estas correntes examinam a inscrição de classes, instituições, ideologias e discursos no texto. A sociedade não aparece apenas como tema; manifesta-se na estrutura dos géneros, na linguagem das personagens e nas posições disponíveis para o narrador.

Os estudos da voz colectiva, da literatura proletária, da poesia política e dos testemunhos comunitários aprofundaram igualmente o problema do sujeito plural. O pronome «nós» pode exprimir solidariedade, resistência ou memória partilhada, mas pode também ocultar desigualdades e impor uma unidade fictícia. A crítica contemporânea interroga, por isso, quem está autorizado a falar em nome do grupo e que vozes são excluídas dessa representação.

A principal dificuldade teórica do unanimismo reside na transformação metafórica do grupo num organismo ou sujeito. A ideia de uma “alma colectiva” pode fazer esquecer as diferenças sociais, políticas, culturais e individuais existentes dentro de uma comunidade. Uma multidão não sente literalmente como uma única pessoa, e a unidade que o texto lhe atribui é sempre uma construção estética.

A concepção unanimista pode ainda aproximar-se de uma visão harmoniosa da colectividade, na qual os conflitos são absorvidos por uma comunhão superior. Tal tendência torna-se problemática quando o grupo é atravessado por relações de poder, exclusão ou violência. A unidade nacional, por exemplo, pode ocultar diferenças de classe, género, origem ou posição colonial.

A moderna teoria da literatura conserva, por isso, a atenção unanimista ao colectivo, mas substitui frequentemente a noção de uma consciência una pela análise de redes, discursos, ritmos, afectos e relações. O grupo pode produzir efeitos que excedem os indivíduos sem constituir uma pessoa colectiva homogénea.

Importa também distinguir entre a perspectiva do texto e a realidade representada. Uma narração pode descrever uma multidão como um único corpo sem que a obra defenda uma teoria unanimista. A personificação do colectivo pode ser celebratória, irónica, crítica ou ameaçadora.

Na literatura de língua portuguesa, o unanimismo raramente se constituiu como escola declarada. É, contudo, possível reconhecer afinidades formais e temáticas em obras que representam multidões, cidades e experiências colectivas. Nestes casos, “unanimista” deve entender-se como categoria comparativa, não como prova de filiação directa.

 

Bibliografia:

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  • Durkheim, Émile. The Elementary Forms of Religious Life. Translated by Karen E. Fields, Free Press, 1995.
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  • Romains, Jules. La Vie unanime. Éditions de l’Abbaye, 1908.
  • Romains, Jules. Manuel de déification. Eugène Figuière, 1910.
  • Romains, Jules. Les Hommes de bonne volonté. 27 vols., Flammarion, 1932–1946.
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