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Ao que nos parece, somente a fisica emprega a palavra campo como termo técnico especializado, isto é, sujeito a definição rigorosa e por isso veículo de um conceito. Assim, nessa disciplina, "Se da el nombre de campo a toda magnitud A que queda descrita en un dominio espacial en función de las coordenadas. Ejemplos: campo de potencial, campo gravitatorio, campo eléctrico, campo de fuerzas, campo de ondas eletrónicas, campo mesónico, etc." (Franke, 1967, v. 1, p. 188‑9).

Fora da física, porém, campo constitui apenas uma metáfora mais ou menos evidente, passível de algum aproveitamento epistemológico menos como conceito do que como mera noção. Tentemos, pois, alcançar uma possível caracterização epistemológica da noção de campo, para verificar depois sua eventual pertinência aos estudos literários.

Como uma quase-metáfora — como noção aproximativa que a ninguém ocorre definir melhor — fala‑se com freqüência em campo de estudos. Trata‑se de idéia tangente à de objeto, mas dela distinta. Se quisermos exercer nosso empenho de rigor, podemos dizer que o primeiro termo nomeia algo mais fluido e amplo, ao passo que o segundo se refere a um recorte mais limitado e preciso que se pode operar no interior do campo. Nesse sentido, um campo de estudos se estabelece pela intervenção do elemento teoricamente primário do método cientifico, isto é, a observação, primeiro ato metodologicamente orientado no sentido de circunscrever certa região da realidade a fim de submetê‑la a investigação. Assim, a observação compõe um campo — dito de estudos, ou mesmo campo de observação (a expressão é empregada por Roland Barthes: A retórica antiga. In: Jean Cohen et alii. Pesquisas de retórica. Petrópolis [Rio de Janeiro]: Vozes, 1975. p. 148) —, constituído por um conjunto de dados por ela protocolados. Esse conjunto de dados produzidos pela observação, por sua vez, pode ser alvo de apropriações conceituais diversas e mais elaboradas, o que se viabiliza mediante a eleição de certo centro de interesse, ou, em outros termos, mediante a intervenção de elementos do método posteriores à singeleza da observação. Os dados constitutivos do campo, em princípio evidências observáveis mas que não apresentam maiores interconexões imediatamente visíveis, conduzem então à formulação de problemas, como, por exemplo, modos mais racionais e econômicos de ordená‑los visando à sua apresentação intersubjetiva, inter‑relações que possam contrair uns com os outros — do tipo causa e efeito, antecedente e conseqüente, complementaridade, implicação mútua, etc.—, processos de integração entre eles, explicações para seu funcionamento isolado ou integrado, utilidades práticas que possam revelar, etc. Ora, essa manipulação problematizante dos dados, segundo interesses variáveis e aparelhamentos conceituais específicos, é que permite, a partir de um campo de estudos (ou de observação), a construção de objetos.

Para que a explicação fique menos aérea, sejamos temerariamente amplos numa ilustração. Digamos que a natureza seja um campo de estudos; sua vastidão e fluidez, no entanto, impõem uma problematização segmentada, que permite o recorte de objetos construídos segundo interesses distintos e instrumentos conceituais apropriados. Assim, o campo de estudos natureza se decompõe em problemas propostos e equacionáveis em limites conceituais a que chamamos disciplinas, donde, no caso em apreço, a física, a química e a biologia com seus respectivos objetos específicos, embora recortados no mesmo campo (objetos sempre mais delimitados, por certo, são passíveis de construção no interior do macro‑objeto de uma disciplina; um biólogo, por exemplo, no interior do macro‑objeto vida pode fixar‑se no objeto reino vegetal e, daí, em níveis crescentemente específicos, na fisiologia, no desenvolvimento, na reprodução, etc.).

Segundo o entendimento ora exposto, um campo de estudos não coincide com uma disciplina, dando margem — isto sim — à constituição de diversas. Assim, pode‑se admitir que a expressão campo literário seja útil para designar um conjunto de dados estabelecido mediante observação de certos fenômenos da linguagem e suas implicações adjacentes. Esse campo tem sido recortado por diversas disciplinas, cada qual constituindo um objeto próprio a partir de seus específicos interesses e aparato conceitual, a saber: retórica Þ verossimilhança ou mimesis persuasiva; poética Þ verossimilhança ou mimesis catártica; estética Þ sensibilidade e beleza; história da literatura Þ origens e evolução; teoria da literatura Þ literariedade.

É claro que a relação de disciplinas ora apresentada pressupõe simplificações imprescindíveis para a viabilidade da presente exposição, segundo seus limites e objetivos, donde a necessidade das seguintes ressalvas: 1 ‑ para as designações utilizadas, teve‑se em conta o caráter corrente dos termos nas várias línguas ocidentais (assim, por exemplo, não se incluiu ciência da literatura, termo equivalente ao alemão Literaturwissenchaft, mal aclimatado em outros idiomas); 2 ‑ o termo crítica literária foi também preterido, não obstante seu amplo curso para nomear disciplina — cremos que sobretudo em inglês —, pois preferimos entender por crítica menos uma disciplina e mais uma espécie de atitude de interesse na questão do valor, atitude onipresente sob diversas formas nas mais variadas explorações do campo literário: 3 ‑ as disciplinas listadas sugerem uma série histórica evolutiva, bem como limites nitidos a separá‑las; no entanto, é indispensável considerar sobrevivências residuais de umas nas outras, como também uma rede complexa de interferências recíprocas aproxiamando‑as entre si; 4 ‑ o objeto ou interesse apontado para cada uma (por exemplo, "verossimilhança ou mimesis persuasiva" para retórica) pode certamente ser bem mais detalhado, ou ainda formulado em outros termos; 5 ‑ na expressão campo literário, o adjetivo deve ser entendido como derivado não de literatura — palavra que veicula conceito mais circunscrito, pelo menos segundo usos técnicos atuais —, e sim de letras — termo que se refere a espaço mais amplo e difuso constituído pelas questões do discurso em geral; por esse raciocício, não há sobreposição entre as idéias de literatura e de campo literário, sendo preferível que se compreenda aquela como um dos recortes possíveis deste (assim, por exemplo, a retórica se exerce sobre o campo literário, mas seu objeto não é propriamente a literatura).

Além desse delineamento do campo literário como espaço recortado por disciplinas da mesma área — nesse sentido, por assim dizer, "autóctones" desse campo —, outros rendimentos epistemológicos podem esperar‑se dessa noção. Imediatamente, o campo literário pode suscitar o interesse de outras disciplinas — sociologia, antropologia, lingüistica, história, psicanálise, etc. —, que nele poderão encontrar questões transformáveis em objetos de suas respectivas alçadas. Juntamente com essa possibilidade, o caráter menos determinado da idéia de campo permite viabilizar certa relativização das especialidades disciplinares correlativas do destaque concedido à idéia limitadora de objeto. A noção de campo, desse modo, favorece o que se tem chamado interdisciplinaridade, ou, mais apropriadamente, transdisciplinaridade: “Interdisciplinaridade quer dizer, para mim, em primeiro lugar, capacidade de diálogo entre cientistas, os eruditos provenientes de horizontes diversos, trabalhando sobre um tema comum, através da metodologia específica de sua matéria. É esta faculdade de compreender os outros e, por esse viés, de se questionar, que é determinante. Para fazer isto, a condição sine qua non é possuir um conhecimento profundo e sólido de sua própria disciplina. Seria muito mais apropriado, aliás, falar em transdisciplinaridade, em lugar de interdisciplinaridade, uma vez que nos referimos à faculdade de pensar além de sua própria disciplina” (Berchen, 1990, p. 21-2).

{bibliografia}

Berchen, Theodor. A missão da universidade na formacão e no desenvolvimento culturais: a diversidade dentro da universidade. Cadernos Plurais; série Universidade, Rio de Janeiro: Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 5: 7‑29, 1990; Danziger, Marlies K. & Johnson, W. Stacy. Frames of reference. In: —. An introduction to the study of literature. Lexington/Toronto/London: D. C. Heath, 1965. p. 129-56; Franke, H. Campo. In: ‑‑‑, org. Diccionário de física. Barcelona: Labor, 1967. V. 1, p. 188‑9; Khéde, Sônia Salomão, coord. Os contrapontos da literatura; arte, ciência, filosofia. Petrópolis [Rio de Janeiro]: Vozes, 1984; Lerner, L. The frontiers of literature. 1988; Reis, Carlos. O conhecimento da literatura; introdução aos estudos literários. 1995; Souza, Roberto Acízelo de. Formação da teoria da literatura. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico; Niterói: EDUFF, 1987; -‑‑‑­‑‑. Teoria da literatura. In: Jobim, José Luís, org. Palavras da crítica. Rio de Janeiro: Imago, 1992. p. 367‑89; ‑‑‑‑‑‑. Teoria da literatura e ciência. Cadernos do Mestrado/Literatura, Rio de Janeiro: Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 4: 7‑15, 1993; ——. Teoria da literatura. São Paulo: Ática, 1996.