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Na língua nórdica antiga, o termo saga (pl. sögur) designa o que é dito, uma narrativa longa respeitante à história medieval escandinava, em particular sobre a história islandesa. O termo é comum e partilha o mesmo significado na maioria das línguas germânicas (Inglês say, Alemão sagen, Inglês Antigo secgan, Dinamarquês sige e Sueco/Islandês segja) (Edmund Gosse, 1911, 1000).

As sagas remontam a um período particular da história germânico-escandinava que podemos situar entre os séculos IX e XIV. Estes textos começam a ser compilados a partir do ano 1000 por literatos cristãos e representam memórias do folclore local relativas a um período histórico anterior marcado pela força e popularidade da tradição oral na transmissão e repetição das estórias e dos feitos dos povos nórdicos. As migrações alto-medievais dos viquingues da península escandinava e das ilhas britânicas para a Islândia e as viagens de exploração marítima tardo-medievais da Gronelândia e Vinlândia surgem como temas de destaque das sagas. A colonização da Islândia, ainda assim, é o tema par excellence deste género literário.

Se as célebres Eddas antiga e nova (ou poética e em prosa, respetivamente) são textos de cariz exclusivamente mitológico-religioso de poesia escáldica cantados e passados oralmente por menestréis, as sagas, embora não exclusivamente, devem ser classificadas como documentos historiográficos cuja autenticidade dos relatos, ainda que indelevelmente marcada pelas crenças pré e pós-cristianização, é pouco passível de ser colocada em causa. Estes relatos, compilados nos livros de sagas (sögubòk), eram geralmente objeto de representação em momentos solenes ou de entretenimento e o contador de sagas (sögumaðr) uma pessoa tida em elevada consideração pelo público (Clute & Grant, 1999, 831). De resto, na Saga de Harald “Hardrada” Sigurdarson (Haralds saga Sigurðarsonar), considerado o “último dos formidáveis reis viquingues da Escandinávia” (Magnusson & Pálsson, 1966, 9), encontramos 92 estrofes de verso escáldico intercalado com a prosa, o que atesta a natureza espetacular, teatral, da saga. A autoria de alguns destes versos é atribuída ao próprio rei Harald (Sturluson, 2015, 41-122).

O elevado estatuto público de que gozava a saga não deve constituir surpresa para o leitor. Como nota o escoliasta, as condições peculiares da sociedade islandesa medieval, particularmente da sua aristocracia, favoreceram a composição deste tipo de memória coletiva, que com ao virar do milénio começa a ser escrita (Edmund Gosse, 1911, 1000). Deve referir-se que a essência da saga residia no seu caráter oral. Todavia, a importância da escrita, ampliada pela introdução do cristianismo na Islândia e pela estabilização da sua aristocracia, é aliada à importante missão de salvaguardar a memória histórica dos islandeses. Eis reunidas as condições que propiciaram a compilação de muitos documentos de múltipla natureza, entre eles as sagas.

Contrariamente, por exemplo, aos épicos homéricos, a prosa das sagas nunca começa in medias res. E o facto de serem escritas em prosa no exato momento em que em poesia se consolidavam e consagravam as nascentes línguas europeias (recordemos Dante, Chaucer ou Chrétien de Troyes) é igualmente de realçar. É da formação da literatura e identidade islandesas que se trata, razão pela qual as sagas constituem um marco cultural da história do país num momento em que no Continente se formam, autonomizam e centralizam os grandes reinos europeus e a sua cultura própria e distintiva, a começar pela língua.

Os três temas mais comuns presentes nos diferentes tipos de saga dizem respeito a conflitos familiares ou sociais, a contendas legais e judiciais e a questões referentes às origens ancestrais e da estirpe dos envolvidos. A envolver estas temáticas há uma conjuntura de maior amplitude que as enforma. O mundo das sagas é um mundo fundamentalmente rural em que os trabalhos agrícolas e o comércio ocupam um lugar central (Smiley, 2000, xi). Ademais, focam-se invariavelmente na história de um protagonista, de uma família ou de uma região cujo papel na edificação da sociedade islandesa de então não foi esquecido pelo seu povo. A Saga dos Povos de Laxardal (Laxdœla saga), que se foca num dramático triângulo amoroso, é disso exemplo ao relatar também a vida e os costumes dos povos da região islandesa de Breiðafjörður. Outro exemplo paradigmático está presente na Saga de Ref “o Astuto” Steinsson (Króka-Refs saga). Uma disputa fútil entre vizinhos em torno de um terreno de pasto lança a narrativa.

Um dos pontos centrais destas estórias são as descrições psicológicas complexas dos protagonistas e o julgamento que os seus pares deles fazem. Outro ponto relevante é o papel especialmente ativo desempenhado pelas mulheres.

O mundo das sagas forma um espaço que é uno. O que é dito e repetido desde há gerações, ou a memória do povo que é por fim vertida em prosa de forma totalmente anónima, forma a própria paisagem espacial, histórica, folclórica e demográfica da Islândia desde finais do século IX. O universo das sagas, e em particular o corpus islandês (Íslendingabók, ou Sagas dos Islandeses), constitui um microcosmos internamente coeso e ligado entre si, interrelacionando amiúde protagonistas, factos e histórias. O Livro das Colonizações (Landnámabók), no qual encontramos o retrato detalhado desta população, permite-nos também perceber a função agregadora das sagas como veículo não só de informações relevantes sobre um passado comum, mas também os elos socioculturais que unem e pretendem manter unidas as gentes ainda tão recentemente chegadas ao território insular.

O período de composição escrita das sagas começa em finais do século XI e conhece o seu expoente máximo ao longo do século XIII. O que é escrito, claro, remonta às estórias do período das sagas (sögu-öld), que conhece o seu fim em 1030, com as mortes de dois grandes estadistas islandeses, Snorri Godi e Skapti, o Legislador. Segundo o historiador Snorri Sturluson, autor da Edda em prosa, foi Ari Thorgilsson, o Sábio, o primeiro a escrever as estórias antigas e, portanto, foi também o pai da historiografia islandesa (Ólason & Tómasson, 2006, 99). São da sua autoria o Livro do Rei, o Livro das Colonizações e o Livro dos Islandeses, todos marcadamente historiográficos. Sturla Thordsson, compilador da Sturlungasaga, uma coleção de sagas de vários autores, é tido como o último autor de sagas do período das sagas. Entre Ari e Sturla, um conjunto mais ou menos vasto de autores/compiladores de sagas permanece anónimo. O texto vive independentemente daquele que o compõe e das idiossincrasias subjetivas que pode colocar no texto.

Quanto à categorização dos textos, estes podem ser divididas em dois grandes grupos: as sagas menores e as sagas maiores. As temáticas acima mencionadas são comuns a ambos os grupos.

Assim, as sagas menores são narrativas essencialmente biográficas que dizem respeito à vida de heróis islandeses dos séculos X e XI. O conjunto destas sagas era constituído pelas histórias da vida dos antigos poetas, cujos versos eram regularmente introduzidos na própria composição, e pelas aventuras dos primeiros colonos. Desde a data do seu nascimento, ou mesmo antes disso, os eventos eram narrados até ao momento da morte do herói. A maior parte dos relatos dizem respeito à vida das famílias que colonizaram a Islândia ao longo do último quartel do século IX e dos seus descendentes.

Já as sagas maiores lidam com temas mais diretamente relacionados com questões político-legais, com as histórias dos reis e da nobreza islandesa e com matérias mitológicas. Destacam-se pela intensidade dos relatos e pela excelência da composição.

Além disso, têm também sido apresentados vários subtipos de sagas que se agregam sob cada um dos dois grupos principais. As mais célebres destas sagas são as que dizem respeito à vida dos reis da Noruega (konungasögur), muitas delas compiladas no Heimskringla, e que pertencem às sagas maiores. Igualmente célebre é a Saga dos Volsungos, que pertence ao subtipo das sagas lendárias e mitológicas dos heróis e deuses germânicos pré-islandeses (fornaldarsǫgur), também ela uma saga maior. A Saga de Njáll, que é considerada a mais “eminente obra-prima da literatura islandesa” (Edmund Gosse, 1911, 1000), também deve ser classificada como uma saga maior. De autoria anónima, terá sido composta entre 1230 e 1280 e lida extensamente com matérias de direito de um caso ocorrido algures no final do século X ou princípio do século XI. Já as sagas sobre a vida dos santos (beilagra manna sögur) e as sagas sobre os acontecimentos e figuras locais da época da migração e colonização (samtídarsögur) pertencem ao conjunto de sagas menores (Kellogg, 2000, xx). A célebre Saga de Gunnlaug Língua-de-Serpente, que relata a história de amor de dois poetas cuja disputa por Helga acaba num duelo, é exemplificativa deste tipo de sagas. Igualmente paradigmáticas são a trágica Saga de Gisli e a Saga de Kormákr, que se crê ser uma das mais antigas sagas islandesas.

 

Referências:

  • Clute, John & Grant, John (1999). The Encyclopedia of Fantasy. London: Orbit.
  • Gosse, Edmund (1911). “Saga”, in Encyclopædia Britannica, 11th ed., vol. 12, pp. 1000-1001. Cambridge: Cambridge University Press.
  • Kellogg, Robert (2000). Introduction. In Ö. Thorsson (ed.), The Sagas of Icelanders (xv-liv), London: Penguin Classics.
  • Magnusson, Magnus & Pálsson, Hermann (1966). King Harald’s Saga. Harmondsworth: Penguin Books.
  • Ólason, Vésteinn & Tómasson, Sverrir (2006). The Middle-Ages. In D. Neijmann (ed.), A History of Icelandic Literature, vol. 5, (64-173), Lincoln: University of Nebraska Press.
  • Smiley, Jane (2000). Preface. In Ö. Thorsson (ed.), The Sagas of Icelanders (ix-xiv), London: Penguin Classics.
  • Sturluson, Snorri (2015) Heimskringla. Trans. Alison Finlay & Anthony Faulkes, vol. 3. London: Viking Society for Northern Research.
  • Thorsson, Örnólfur (2000). The Sagas of Icelanders. London: Penguin Classics.