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Termo inglês que se refere originalmente a uma víscera glandular, vulgo “baço”, que tem a função de destruir os glóbulos vermelhos. Torna-se termo literário quando os poetas decadentistas da segunda metade do século XIX o tomam simbolicamente como a origem da destruição de algo mais intangível: a alegria de viver. Por outras palavras, esse órgão é tido como o responsável por todos os estados de melancolia ou estados mórbidos de languidez. A entrada do termo na literatura tem pouco a ver com a sua origem inglesa, mesmo para além do lugar-comum que não reconhece tal fleuma no povo britânico. Na literatura, o termo aparece primeiro em Shakespeare, mas não ainda com a conotação precisa que os poetas decandentistas do século XIX lhe vão atribuir. Em The Taming of the Shrew, um Lord afirma: “Haply my presence / May well abate the over-merry spleen / Which otherwise would grow into extremes.” (Induction I, 134-136, The Complete Oxford Shakespeare, 3 vols., editado por Stanley Wells e Gary Taylor, Guild Publ., Londres, 1990). Spleen traduz aqui apenas um estado de alegria, de jovialidade. No primeiro Henry IV, o spleen a que se refere Lady Percy significa apenas temperamento instável: “Out, you mad-headed ape! / A weasel hath not such a deal of spleen / As you are tossed with.” (II, 4, 75-77). Em Romeo and Juliet, o spleen de que fala Benvolio diz respeito a um tipo de temperamento orgulhoso: “All this […] / Could not take truce with the unruly spleen / Of Tybalt deaf to peace,…” (III, 1, 154-156). E em A Midsummer Night’s Dream, o termo traduz simplemente paixão, nas palavras de Lysander sobre o verdadeiro amor: “Brief as he lightning in the collied night, / That, in a spleen, unfolds both heaven and earth” (I, 1, 145-146).

Em inglês, o termo é já no século XIX considerado arcaico, mas Baudelaire vai recuperá-lo em As Flores do Mal (1857) e O Spleen de Paris – Pequenos Poemas em Prosa (1868), tornando-o modelo de poeta decadente. Todos os termos capazes de se incorporarem na retórica da decadência ou do espírito decadente – tédio, nolição, inércia, niilismo, mal-estar-perante-a-morte, náusea, ennui, fastio -, se convocados numa única instância, dão-nos a exacta significação do spleen na estética de Baudelaire e de todos os que o seguiram na poesia e na vida. Para o triunfo do spleen, é um momento decisivo na obra poética de Baudelaire a sequência de As Flores do Mal que toma o nome de “Spleen e Ideal”. Aqui, uma das formas de expressão mais devastadoras do spleen, o tédio, ameaça prolongar-se ad infinitum: “Nada iguala a extensão dos longos dias mancos / Quando o tédio, esse fruto da incuriosidade, / Sob os pesados flocos da neve dos anos, / Atinge as proporções da imortalidade.” (trad. de Fernando Pinto do Amaral, Assírio & Alvim, 2ªed.,Lisboa, 1993, p.195). As variantes de comportamento ditado pelo spleen podem incluir um pseudo-filosófico apelo de rebelião contra a pobreza, como em “Caustiquemos os pobres!”, de O Spleen de Paris, onde, “num estado de espírito vizinho da vertigem ou da estupidez” (trad. de António Pinheiro Guimarães, Relógio d’Água, Lisboa, 1991, p. 140), o Poeta tenta aplicar uma sua teoria agredindo e sendo agredido por um pobre insignificante, ou um apelo tribal à bebedeira, como em “Embriaga-te”: “para não sentires o tremendo fardo do Tempo que te despedaça os ombros e te verga para a terra, deves embriagar-te sem cessar.” (p.105). Com Baudelaire estavam lançados os dados à universalização do conceito de spleen como símbolo tanto de um certo mal-de-vivre, que é capaz de levar à rebelião social (mas sempre no sentido de desafio das convenções e da ética, porque nunca o poeta decadente pega em armas de fogo) como no sentido de um insuportável tédio que leva a desprezar tudo à volta.

Na poesia portuguesa simbolista-decadentista, tal comportamento será adoptado ainda com mais fervor do que o modelo Baudelaire. O comportamento dos poetas decadentistas de facto e por destino, daqueles que lutaram de facto com uma curta esperança de vida por causa da tísica pulmonar, é desde logo mais extremo e real do que o spleen retorizado por Baudelaire. O exemplo dos portugueses assemelha-se ao daqueles doentes que sofrem de um caso particular de esquizofenia a que Eugen Bleuler em 1911 chamou autismo. O desprendimento de si que facilmente neles se reconhece, e em particular em António Nobre, resulta da impossibilidade de comunicar com outrem (“Um doente faz medo. Por isso fogem dele.”, , 13ªed., Livraria Tavares Martins, Porto, 1966, p.205); no desejo de se retirar deste mundo (“Ó morte, vem buscar-me…”), que é produto do delírio (“Febre a cem graus! Delírio: o céu de Luas-Cheias / Desde o oriente ao sol-põe, de Norte a Sul coberto”, p.200), que constrói um novo mundo que é inacessível a todos aqueles que estão fora do eu (“E a cismar e a cismar sem que me veja alguém / Na Dor, na Vida, em Deus, nos mistérios do Além?”, p.47). Esta é a verdadeira natureza do spleen tal como nos foi dado pelo exemplo maior de António Nobre. Não se trata de comum debilidade mental, mas, primeiramente, visto de fora do sujeito, um desarranjo da comunicação com o exterior-próximo; se visto de dentro, trata-se de um desarranjo que é motivado por uma angústia completa numa situação que ultrapassa o mero caso individual.

Assim está António Nobre no acto final do seu drama quando descreve os “Males de Anto”, que são “Cancros de Tédio a supurar Melancolias!” (p.199). Este estado mórbido de tristeza e depressão apresenta-se à consciência como uma dor depois de se apresentar ao corpo como “Quistos da Dor” (p.199). No fundo, o que António Nobre esconde é um vago medo da morte que foi nomeado como “Dor” para indicar que se trata dum medo sem objecto. Mas na realidade trata-se de uma coisa bem precisa: o sujeito angustiado, perdido num delírio de auto-acusação, tem medo da sua própria acção e sofre com o pensamento de a executar. Quando António Nobre simula executar a acção de eliminação da Dor (e, portanto, da morte),

Vede! Quistos da Dor! Furo-os com uma lança:

Que nojo, olhai! são as gangrenas da Esperança!

Lanceto mais ainda: as ilusões sombrias!

Cancros do Tédio a supurar Melancolias!

Gangrenas verdes, outonais, cor de folhagem!

O pus do Ódio a escorrer nesta alma sem lavagem!

Tristezas cor de chumbo! Spleen! Perdidos sonos!

Prantos, soluços, ais, (o Mar pelos Outonos)

A febre do Oiro! O Amor calcado aos pés! Génio! Ânsia!

Medievalite! O Sonho! As saudades da Infância!

a simulação não é verdadeira acção, mas tão só o resultado de um impulso ilusório (“as ilusões sombrias”), vindo directamente do Tédio, do Spleen, da Melancolia, do Tédio, da Ânsia, do Sonho. Nenhum destes estados pode fazer agir de outra forma que não seja a da ilusão de fazer, por isso, na realidade, a acção de erradicar o sofrimento é travada de forma definitiva. É a esta atitude da consciência que disfarça, para si mesma, a verdade que Sartre chamou má-fé e que nós podemos reconhecer em António Nobre, para podermos perceber a possibilidade de a angústia física poder conduzir à angústia metafísica. Dois versos fundamentais dão-nos de imediato a prova de que precisamos: “E a tortura do Além e quem lá mora! / Isso é, talvez, a minha maior aflição.” (“Sonetos”, 18, p.164). A angústia de António Nobre completa-se e revela-se nestes dois versos, quando verificamos que a tísica cedeu à Alma ou consciência reflexiva perante as possibilidades da morte.

Alberto Osório de Castro (1868-1946) publica em Coimbra, na Primavera de 1890, o soneto “Spleen”, cuja oratória espiritual é em tudo semelhante à dos seus pares decadentistas: “A branca noite lembra uma tristeza russa.” /…./ “E tudo me parece afogado, atenuado…”, /…./ “No lago ebúrneo a alma é um lis desmaiado.” /…./ “Indiferente pairar no abismo tenebroso! / Vagamente sonhar talvez…. Ah! Nem sonhar! / Dispersar-me ao furor do tufão silencioso.” De notar que o spleen depende apenas de negatividades, de anulações de tudo o que mexe, de absoluta asfixia da acção.

Outro poeta que sofreu do mal-do-século foi José Duro. O de António Nobre abria com o presságio de que se tratava do “livro mais triste que há em Portugal”; o Fel termina com uma confissão programática de tristeza, idêntica no conteúdo ao : “O poeta nunca morre embora seja agreste / A sua aspiração e tristes os seus versos”. O que em Nobre é presságio, em Duro é dado como um troféu que se leva da vida. Em ambos os casos está presente uma feição muito especial da dor: a melancolia existencial, que encontra a sua expressão mais clássica no spleen. O spleen conduz o tísico a este estado e desperta nele a percepção da clivagem entre o doente e o mundo. É também uma doença, uma maladie fin de siècle, que atinge inclusive um homem saudável como Eça de Queirós, que lhe chamou um “monstro impalpável” e que o incomodou durante a sua missão diplomática em Inglaterra. Mas enquanto o spleen de Eça é o resultado da influência tainiana do meio, nos poetas decadentistas, José Duro e António Nobre, sobretudo, mas também no maestro Crugges de Os Maias, que aparece amiúde em cena com acessos de spleen, como um “trambolho fúnebre” (cap.XV), é um sintoma de doença física. Aliás, Eça há-de opinar acerca destes poetas e figuras decadentistas e demarcar-se de tal estética finissecular de decadentes, nefelibatas, delinquescentes, satânicos, neuróticos, etc. No célebre artigo “O francesismo”, desfere uma crítica violenta ao decadentismo que podíamos remeter de uma forma geral à poesia de José Duro: “Eu, pelo menos, educado com Musset e Hugo, não ouso aproximar-se desses coribantes e dos seus livros. Jamais abri um desses livros amarelos, dentro dos quais passam estrofes com bulhas e gritos intoleráveis. Sei apenas que esses novos se chamam a si mesmos, com uma sublime sinceridade, «os decadentes», «os incoerentes», «os alucinados». Têm as suas coteries, como quem diria os seus colégios sacerdotais, redigem os seus anais, em cadernetas que se chamam o Journal dos Incoerentes, a Revista dos Alucinados… Zelosos dos seus privilégios, detestando as confrarias rivais, todo o tempo em que não desonram o Monte Olimpo, com desabaladas orgias de ritmo, o passam, como os gramáticos do Baixo Império, a questionarem sobre precedências e valores relativos da sua escola: é assim que alguns poetas ultimamente declaravam em todos os jornais que fulano de tal, poeta, não era de modo nenhum o chefe dos incoerentes, e que esse chefe ilustre dos incoerentes, o homem inspirado e supremo, que em si resumia toda a incoerência, era Verlaine, só Verlaine, e não outro. E Verlaine, indisputadamente, guarda a coroa da incoerência.” (Notas Contemporâneas, Obras Completas de Eça de Queiroz, vol.XV, Círculo de Leitores, Lisboa, 1981, p.166).

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