Designa, em sentido literário e linguístico, a valorização deliberada dos recursos considerados próprios da língua vernácula de uma comunidade, quer pela preferência dada ao seu léxico, à sua sintaxe e às suas formas tradicionais, quer pela resistência à influência excessiva de idiomas estrangeiros. O termo pode referir-se tanto a uma orientação doutrinária, próxima do purismo linguístico, como a uma prática estilística, caracterizada pelo emprego de palavras, construções, ritmos e expressões reconhecidos como idiomáticos. Em sentido mais restrito, chama-se também vernaculismo a uma palavra, locução ou construção peculiar à língua nacional ou a determinada variedade vernácula.
Na literatura, o vernaculismo não consiste simplesmente em escrever na língua materna. Pressupõe normalmente uma escolha consciente perante outras possibilidades: escrever na língua vulgar em vez de numa língua erudita ou internacional; preferir palavras tradicionais a estrangeirismos; aproximar a escrita da fala popular ou regional; ou defender uma norma nacional contra modelos linguísticos externos. O seu significado varia, portanto, conforme a época e o contexto. Pode representar a consolidação de uma literatura nacional, a conservação purista da língua culta, a afirmação de variedades populares ou a apropriação pós-colonial de uma língua anteriormente imposta.
O adjectivo vernáculo procede do latim vernaculus, «doméstico», «nativo» ou «próprio do país», por sua vez relacionado com verna, palavra que designava o escravo nascido em casa. Em latim, vernaculus podia qualificar a língua adquirida no meio doméstico, por oposição a uma língua aprendida posteriormente ou importada de outra comunidade.
A história etimológica do vocábulo contém uma ambivalência que os usos modernos nem sempre conservam: aquilo que é íntimo, doméstico e nativo aparece também ligado a uma relação social de dependência. Nos estudos contemporâneos sobre literaturas coloniais e pós-coloniais, esta origem pode adquirir particular relevância, uma vez que a língua «nativa» nem sempre coincide com a língua de maior prestígio político, escolar ou editorial.
Em português, vernaculismo apresenta três acepções principais:
- qualidade do que é vernáculo, isto é, próprio da língua de uma comunidade;
- preferência doutrinária pelo vernáculo, acompanhada ou não de rejeição dos estrangeirismos;
- forma linguística vernácula, como palavra, expressão ou construção idiomática.
O praticante ou defensor dessa orientação pode ser chamado vernaculista. O adjectivo não é necessariamente pejorativo, mas pode adquirir esse valor quando designa um zelo purista considerado excessivo, arcaizante ou artificial.
A vernacularização é o processo histórico pelo qual uma língua até então limitada a usos orais ou locais passa a desempenhar funções literárias, religiosas, jurídicas, científicas ou administrativas. Esse processo envolve habitualmente a criação de ortografias, gramáticas, dicionários, traduções e modelos estilísticos. A composição da Divina Comédia em italiano, a tradução da Bíblia para alemão por Martinho Lutero e a defesa renascentista das línguas nacionais constituem momentos importantes da vernacularização europeia.
O vernaculismo, por seu turno, é a atitude estética ou ideológica que atribui valor particular ao que se considera vernáculo. Pode acompanhar a vernacularização, mas não se confunde com ela. Uma língua plenamente estabelecida como idioma literário pode continuar a ser objecto de campanhas vernaculistas contra o predomínio de uma língua estrangeira.
O vernaculismo aproxima-se do purismo, mas os termos não são inteiramente equivalentes. O purismo procura preservar ou restituir uma língua considerada correcta, íntegra ou isenta de elementos estranhos. O vernaculismo valoriza aquilo que é reconhecido como próprio da língua e pode fazê-lo sem exigir a eliminação absoluta dos empréstimos.
Há, além disso, um vernaculismo inovador, interessado na fala quotidiana, nos dialectos e na criatividade popular, que se opõe ao purismo normativo. Para o purista, uma forma popular pode constituir uma corrupção; para o vernaculista modernista ou pós-colonial, a mesma forma pode representar a vitalidade da língua.
O nacionalismo linguístico associa uma língua à identidade e à soberania de uma nação. O vernaculismo pode servir esse programa, sobretudo em períodos de formação nacional, mas pode também afirmar identidades regionais, populares ou colonizadas contra a norma do próprio Estado nacional.
Assim, o emprego de uma variedade local pode ser nacionalista quando procura unificar uma comunidade política, mas pode tornar-se anti-centralista quando contesta a variedade elevada a padrão oficial.
O regionalismo literário representa espaços, costumes e falares de determinada região. Embora faça frequentemente uso de vernaculismos, possui um campo temático mais amplo: paisagem, organização social, modos de trabalho, tradições e conflitos entre centro e periferia.
Um texto pode ser vernaculista sem ser regionalista, como sucede numa defesa geral da língua nacional contra estrangeirismos. Do mesmo modo, uma obra regionalista pode empregar uma língua literária convencional, sem reproduzir de maneira significativa o falar local.
O arcaísmo é uma forma que deixou de pertencer ao uso corrente. Pode ser recuperado por motivos históricos, solenes, cómicos ou puristas. Nem todo o vernaculismo é arcaico: a fala popular contemporânea pode ser tão importante para o vernaculista como a tradição antiga. A identificação entre vernaculismo e arcaização resulta de concepções segundo as quais a fase mais autêntica de uma língua se encontraria necessariamente no passado.
A poesia galego-portuguesa medieval constitui um momento decisivo da afirmação literária do vernáculo no espaço peninsular. As cantigas de amigo, de amor e de escárnio e maldizer demonstram a capacidade da língua vulgar para desenvolver convenções métricas, musicais e retóricas complexas.
Não se deve, contudo, atribuir aos trovadores uma doutrina nacional da língua comparável à dos séculos posteriores. O galego-português era uma língua de cultura poética utilizada para além das fronteiras políticas, e a sua escolha obedecia a convenções cortesãs próprias.
A imprensa, o humanismo e a Reforma protestante aceleraram a vernacularização. A tradução bíblica de Martinho Lutero exerceu grande influência na formação do alemão escrito, embora não tenha criado sozinha uma língua nacional uniforme. A sua importância resulta da conjugação entre autoridade religiosa, ampla circulação impressa e utilização de formas linguisticamente acessíveis.
Em França, Joachim du Bellay, na Défense et illustration de la langue française (1549), defendeu que o francês podia alcançar a dignidade das línguas clássicas mediante o enriquecimento vocabular, a tradução criadora e a imitação dos grandes autores. Esta posição revela uma aparente contradição característica do vernaculismo renascentista: para afirmar a autonomia do idioma nacional, o escritor podia recorrer extensamente aos modelos gregos, latinos e italianos.
Na Inglaterra dos séculos XVI e XVII, os debates sobre o emprego de palavras latinas, francesas e italianas opuseram defensores do enriquecimento lexical a críticos dos chamados inkhorn terms, vocábulos eruditos considerados afectados ou desnecessários. A controvérsia antecipou muitos debates modernos entre abertura linguística e purismo.
Nos séculos XVII e XVIII, a fundação de academias e a elaboração de dicionários e gramáticas associaram o cultivo da língua à autoridade política. A Académie française, fundada em 1635, procurou regular e aperfeiçoar o francês. Projectos comparáveis surgiram em Itália, Espanha e noutros países.
Nesta fase, a valorização do vernáculo passou frequentemente a significar valorização de uma norma culta nacional, e não da totalidade das variedades efectivamente faladas. Dialectos, falares rurais e línguas minoritárias podiam ser excluídos em nome da unidade idiomática. O vernaculismo nacional contribuía, deste modo, para libertar a escrita do domínio de uma língua internacional, mas podia simultaneamente subordinar outros vernáculos existentes no interior do território.
O crescimento da influência cultural francesa, sobretudo a partir do século XVII, provocou reacções puristas em diversas literaturas europeias. A crítica dos galicismos tornou-se uma forma recorrente de defesa das línguas nacionais.
O Romantismo atribuiu à língua popular uma função central na definição do carácter nacional. As recolhas de contos, canções, lendas e tradições orais realizadas pelos irmãos Grimm e por muitos outros investigadores e escritores procuravam descobrir na cultura do povo uma continuidade histórica anterior ao cosmopolitismo das elites.
A literatura romântica recuperou dialectos, tradições medievais e formas populares. Este vernaculismo podia favorecer o reconhecimento de culturas marginalizadas, mas também contribuía para a construção retrospectiva de uma comunidade nacional supostamente homogénea. A selecção e edição dos materiais populares não eram operações neutras: transformavam práticas locais variadas num património nacional organizado.
Durante o século XIX, os movimentos de independência e unificação política ligaram estreitamente língua, literatura e soberania. Em territórios sob domínio imperial, a recuperação ou padronização de uma língua podia tornar-se instrumento de emancipação. Noutros casos, a imposição da língua nacional serviu para reduzir a diversidade linguística interna.
As vanguardas do século XX alteraram o sentido do vernaculismo. Em vez de procurarem apenas a pureza da tradição, numerosos modernistas valorizaram a fala urbana, a publicidade, a canção popular, a gíria, o erro gramatical e as misturas linguísticas. O vernáculo deixou de ser necessariamente uma herança intacta e passou a ser concebido como matéria móvel, heterogénea e criadora.
Em autores como James Joyce, a linguagem local, os jogos multilingues e a invenção verbal põem em causa a ideia de uma língua nacional homogénea. A literatura modernista pode ser vernacularizante sem ser purista: apropria-se da energia da fala, mas também expõe as contaminações e os conflitos presentes em qualquer idioma.
O Modernismo de 1922 radicalizou a crítica da norma lusitana e da linguagem académica. Mário de Andrade, sobretudo em Macunaíma, reuniu vocábulos, lendas, ritmos e construções provenientes de diferentes regiões do Brasil. O resultado não reproduz uma variedade real e homogénea; compõe uma língua literária deliberadamente heterogénea, contrária à identificação da brasilidade com uma única norma.
Em Gramatiquinha da Fala Brasileira, projecto que permaneceu inacabado, Mário de Andrade reflectiu sobre a distância entre a escrita normativa e os usos brasileiros. O seu objectivo não era simplesmente converter qualquer fala em regra, mas libertar a criação literária da submissão automática ao padrão europeu.
A obra de João Guimarães Rosa constitui um dos pontos culminantes do vernaculismo criador em língua portuguesa. Em Sagarana, Grande Sertão: Veredas e Primeiras Estórias, a linguagem combina falares sertanejos, arcaísmos, regionalismos, latinismos, estrangeirismos e neologismos.
Rosa não transcreve simplesmente a fala do sertão. Constrói uma língua literária que produz a impressão de oralidade e enraíza a narrativa num espaço cultural específico, ao mesmo tempo que ultrapassa os limites do regionalismo documental. O seu vernaculismo é experimental: demonstra que o recurso às matrizes locais pode gerar uma linguagem de grande complexidade filosófica e poética.
Nas literaturas africanas escritas em português, o vernaculismo assume particular importância porque a língua literária está ligada à história colonial. Os escritores podem adoptar a norma europeia, transformá-la por contacto com línguas africanas, alternar códigos ou escrever noutra língua. Cada escolha envolve condições concretas de escolarização, circulação editorial e acesso ao público.
De notar que o vernaculismo de um gramático que censura os usos populares não é o mesmo de um romancista que os incorpora; a rejeição de estrangeirismos não equivale à apropriação criadora da língua colonial; e a valorização da norma nacional pode opor-se à afirmação de vernáculos regionais.
O termo é mais produtivo quando não serve para declarar uma forma linguística absolutamente autêntica, mas para analisar quem define o que é próprio da língua, em que circunstâncias o faz e com que consequências literárias, sociais e políticas.
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