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Do alemão Vorurteil, literalmente “juízo prévio”, “pré-juízo”; verte-se habitualmente por “preconceito”, embora esta tradução corrente arraste conotações pejorativas que o termo técnico, na hermenêutica filosófica contemporânea, procura precisamente desfazer. Designa, na hermenêutica filosófica de raiz gadameriana, o conjunto de pressupostos, antecipações de sentido e pertenças históricas que o intérprete traz consigo antes de qualquer acto de compreensão e que, longe de constituírem um mero obstáculo subjectivo a eliminar em nome de uma leitura objectiva e neutra do texto, funcionam antes como condição de possibilidade estrutural de toda a compreensão. O Vorurteil, neste sentido técnico, não é sinónimo de erro ou de arbitrariedade subjectiva, mas designa o horizonte de sentido, herdado da tradição e da linguagem em que o intérprete está historicamente inserido, sem o qual nenhuma pergunta ao texto (e, portanto, nenhuma resposta do texto) seria sequer possível.

A palavra alemã Vorurteil possui, evidentemente, uma vida semântica anterior à sua tecnicização hermenêutica, correspondendo, na linguagem corrente e na filosofia iluminista, ao equivalente exacto do francês préjugé ou do português “preconceito”: um juízo formado antes do exame crítico da evidência, e por isso mesmo ilegítimo do ponto de vista da razão autónoma. É precisamente contra esta herança iluminista, que Hans-Georg Gadamer designa, em Wahrheit und Methode (1960), como o “preconceito contra os preconceitos” (das Vorurteil gegen die Vorurteile), que se dirige a sua reabilitação filosófica do termo. Gadamer sustenta que o próprio ideal iluminista de uma razão inteiramente livre de pressupostos históricos é ele próprio um pré-juízo, e que a pretensão a um conhecimento sem Vorurteile ignora a condição radicalmente histórica e linguística de todo o sujeito que compreende.

A génese desta reabilitação encontra-se já preparada, embora em registo distinto, na filosofia de Martin Heidegger, mestre de Gadamer, que em Sein und Zeit (1927) descreveu a estrutura da compreensão (Verstehen) como sempre estruturada previamente por uma “posição prévia” (Vorhabe), uma “visão prévia” (Vorsicht) e uma “concepção prévia” (Vorgriff) — o chamado “círculo hermenêutico”, segundo o qual não há acesso a um fenómeno sem que este já esteja, de algum modo, previamente articulado pela compreensão que dele se tem. Gadamer transpõe esta estrutura ontológica heideggeriana para o domínio da teoria da interpretação de textos e da tradição histórica, distinguindo entre “pré-juízos legítimos” (berechtigte Vorurteile), produtivos e reveladores, e “pré-juízos ilegítimos” ou precipitados, que efectivamente distorcem e obstruem a compreensão — distinção que, segundo o próprio Gadamer, só pode ser feita a posteriori, no próprio processo interpretativo, e nunca por um método prévio de purificação da consciência do intérprete.

O conceito articula-se estreitamente, na obra gadameriana, com a noção de “autoridade da tradição” e com a de “consciência da história dos efeitos” (wirkungsgeschichtliches Bewusstsein): é porque o intérprete se encontra já inserido numa tradição que lhe fornece antecipadamente pré-juízos de sentido que se torna possível o diálogo com o texto, entendido como um interlocutor que responde a partir de um horizonte distinto e cuja compreensão resulta, idealmente, de uma “fusão de horizontes” (Horizontverschmelzung) entre o horizonte do intérprete, com os seus Vorurteile, e o horizonte histórico da obra interpretada. A recepção crítica desta tese, nomeadamente na célebre controvérsia entre Gadamer e Jürgen Habermas, este último desconfiado do potencial conservador de uma valorização filosófica da autoridade e da tradição, tornou o conceito de Vorurteil um dos pontos mais debatidos da hermenêutica filosófica da segunda metade do século XX, situando-se no centro da discussão sobre os limites e as condições de possibilidade de uma crítica ideológica das tradições recebidas.

Embora o conceito seja de proveniência filosófica alemã, a sua produtividade crítica fez-se sentir na reflexão sobre a leitura e a recepção de obras da literatura de língua portuguesa marcadas por uma consciência aguda dos pré-juízos históricos que condicionam a sua própria escrita e a sua interpretação. É particularmente pertinente, neste sentido, a obra ensaística de Eduardo Lourenço, cuja análise da “mitologia” da identidade portuguesa em O Labirinto da Saudade (1978) pode ler-se como uma tentativa de tornar explícitos e de trabalhar criticamente os pré-juízos históricos (o mito sebastianista, a ideia de império, a auto-imagem de excepcionalidade lusitana) que estruturam, muitas vezes de modo inconsciente, a leitura que os portugueses fazem de si próprios e da sua literatura.

Também a ficção de José Saramago, sobretudo em História do Cerco de Lisboa (1989), tematiza directamente, através da figura do revisor Raimundo Silva, a questão dos pré-juízos historiográficos sedimentados na narrativa oficial da nação, ao propor uma reescrita da história a partir da introdução deliberada de uma palavra (o “não”) que subverte o pré-juízo cristalizado da tradição historiográfica sobre a reconquista de Lisboa.

Outros exemplos práticos: a leitura de Sermões, do Padre António Vieira, é igualmente condicionada por preconceitos sobre a rhetórica religiosa e sobre o século XVII. Se o leitor suppõe que o sermão é apenas uma peça de doutrinação, poderá não reconhecer a sua elaboração argumentativa, a sua dimensão política e a sua crítica moral. Inversamente, se o lê exclusivamente através de categorias políticas actuais, corre o risco de apagar a lógica teológica e providencial dentro da qual o texto constrói os seus argumentos.

A recepção de Iracema, de José de Alencar, evidencia a importância histórica do Vorurteil. A leitura nacionalista tradicional tende a tratar a personagem indígena como símbolo transparente da origem brasileira. Uma leitura posterior, informada pelos estudos pós-coloniaes e pelas discussões sobre representação, interroga esse símbolo e observa a transformação da cultura indígena em matéria de uma narrativa construída por um auctor não indígena. O objectivo não é simplesmente substituir uma interpretação consagrada por uma condenação automática, mas tornar visíveis os pressupostos históricos que orientaram ambas.

Em A Paixão segundo G. H. (1964), de Clarice Lispector, o leitor pode esperar que a narrativa psicológica explique de modo estável a experiência da protagonista. O romance resiste a esse preconceito interpretativo: a linguagem repete-se, hesita e procura nomear aquilo que não se deixa integrar facilmente numa identidade coerente. O texto modifica a expectativa de que uma narrativa interior deva conduzir a uma explicação conclusiva do sujeito.

A importância do Vorurteil não implica aceitar todas as crenças herdadas nem abandonar os critérios de validade interpretativa. A hermenêutica não transforma qualquer reacção subjectiva numa leitura legítima. O texto, a língua, o género, o contexto histórico e a coerência argumentativa continuam a impor limites. A consciência dos preconceitos serve precisamente para tornar a interpretação mais responsável.

Há também um limite ético e político. A noção de que toda a compreensão parte de preconceitos não deve ser usada para naturalizar o racismo, o sexismo ou outras formas de exclusão. Alguns preconceitos são historicamente produzidos por relações de poder e devem ser criticados, não simplesmente reconhecidos como perspectivas equivalentes. A hermenêutica literária ganha rigor quando distingue entre a historicidade inevitável da interpretação e a validade concreta dos juízos que ela põe em circulação.

 

Bibliografia:

  • Dilthey, Wilhelm. Introduction to the Human Sciences: An Attempt to Lay a Foundation for the Study of Society and History. Edited by Rudolf A. Makkreel and Frithjof Rodi, translated by Michael Neville, Princeton UP, 1989.
  • Gadamer, Hans-Georg. Truth and Method. 2nd rev. ed., translated by Joel Weinsheimer and Donald G. Marshall, Continuum, 2004.
  • Gadamer, Hans-Georg. Philosophical Hermeneutics. Translated and edited by David E. Linge, University of California Press, 1976.
  • Heidegger, Martin. Being and Time. Translated by John Macquarrie and Edward Robinson, Harper Perennial Modern Classics, 2008.
  • Lourenço, Eduardo. O Labirinto da Saudade: Psicanálise Mítica do Destino Português. Dom Quixote, 1978.
  • Palmer, Richard E. Hermeneutics: Interpretation Theory in Schleiermacher, Dilthey, Heidegger, and Gadamer. Northwestern UP, 1969.
  • Ricoeur, Paul. Interpretation Theory: Discourse and the Surplus of Meaning. Texas Christian UP, 1976.
  • Ricoeur, Paul. From Text to Action: Essays in Hermeneutics, II. Translated by Kathleen Blamey and John B. Thompson, Northwestern UP, 1991.
  • Saramago, José. História do Cerco de Lisboa. Caminho, 1989.
  • Vattimo, Gianni. Etica dell’interpretazione. Rosenberg & Sellier, 1989.
  • Warnke, Georgia. Gadamer: Hermeneutics, Tradition and Reason. Polity Press, 1987.