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Princípio estruturante que preside à construção dos textos literários, cuja matéria é organizada de forma rigorosa, sem conclusões acidentais, mas de maneira a chegar a um fim (closure) que respeita uma lógica reconhecida pelo leitor. Não se deve traduzir closure (“fechamento, acto de concluir um texto”) por “clausura”, porque o termo inglês possui um sentido próprio na actual teoria literária, apesar de serem sinónimos num sentido que não interessa aqui: quando se referem a recintos fechados. A aplicação do conceito tanto pode dirigir-se a unidades mínimas como as sílabas (por exemplo, as rimas) como pode concentrar-se em unidades mais vastas como as frases e os próprios textos. O termo closure não deriva dos estudos literários mas da psicologia da Gestalt: psicólogos como Kurt Koffka (Principles of Gestalt Psychology, 1935) já haviam analisado a tendência do homem para a percepção da totalidade, daquilo que se completa/conclui por si mesmo. Para a literatura, o estudo teórico do conceito de closure começa nos anos 60, com os trabalhos de Frank Kermode, The Sense of Ending (1966) e Barbara Herrnstein Smith, Poetic Closure: A Study of How Poems End (1968).

A ideia de closure textual adapta-se à tradição crítica que tenta reduzir à unidade o conjunto de factos atribuídos ao texto literário. Aristóteles foi o primeiro a fazê-lo, na Poética, quando afirma que uma obra poética deve ser “una e completa” (1451a). Nos anos 60, teóricos como Frank Kermode e Barbara Hernstein Smith seguem o mesmo rumo na análise textual. Kermode diz para a literatura o que os psicólogos da Gestalt diziam para a percepção humana: todos temos tendência a criar um fim, o mesmo se passando com o texto literário. Smith defende que esta tendência para um fim que encerra um todo é produzida por um texto quando este apresenta uma conclusão lógica, que convence o leitor sobre o desfecho dos acontecimentos, sem nada mais para “contar”. O conceito de closure está, assim associado à ideia de estrutura formal do texto, cuja integridade parece estar garantida a priori de qualquer leitura. Esta condição do texto como objecto estético fechado e íntegro foi um dos cavalos de batalha do New Criticism americano.

A textualidade pós-estruturalista prefere ser uma disciplina essencialmente especulativa ou argumentativa e não uma ciência exacta, pelo que não se estranha a divergência em relação a um conceito que prevê de alguma forma um limite textual. Nas teorias pós-estruturalistas, prevalece a ideia de dis-closure do texto, isto é, o texto está sempre em aberto, nunca se pode fixar o seu sentido nem se podem colocar limites mesmo à sua estrutura formal. A desconstrução em particular não admitirá nunca a closure textual: as proposições dissimuladas no texto, os buracos negros do texto e os seus suplementos ou contradições internas de maior subtileza, mostram que um texto nunca se fecha sobre si mesmo, nunca se conclui e nunca poderá ser percebido como um todo. Os efeitos de différance, marca e disseminação podem servir para mostrar que o texto diz a sua própria história, o que impedirá sempre qualquer possibilidade de inaugurar um mecanismo de closure. O que caracteriza, por exemplo, o romance moderno é a sua tendência não para a integridade e para os desfechos definitivos da acção, mas a sua propensão para a abertura (dis-closure) da narrativa, explorando-se inclusive a ideia de resolução impossível da acção narrada ou propondo-se vários desenlaces, isto é, várias possibilidades de o texto construir o seuclosure.

A hermenêutica negativa de Paul Ricoeur e William V. Spanos, editor de boundary 2, tem como projecto a ideia de abertura total (dis-closure) do texto à interpretação, sem que o leitor esteja preso às leis formais preescritas para esse texto como o fizeram os New Critics, os estruturalistas ou os fenomenologistas da Escola de Genebra. Inspirado na fenomenologia de Heidegger, Spanos argumenta que o objecto da hermenêutica deve ser o de abrir (to dis-close) aquilo que a hermenêutica tradicional fechou dentro de um círculo.

{bibliografia}

David Richter: Fable’s End: Completeness and Closure in Rhetorical Fiction (1974); Geoffrey Hartman: Saving the Text : Literature/Derrida/Philosophy (1981); Marianna Torgovnick: Closure in the Novel (1981); Murray Krieger: “An Apology for Poetics”, in American Criticism in the Poststructuralist Age, ed. por Ira Konigsberg (1981); Rachel Blau du Plessis: Writing Beyond the Ending (1985); William Spanos: “Breaking the Circle: Hermeneutics as Dis-closure”, boundary 2, 2 (1977).