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Neologismo híbrido, na medida em que articula o adjetivo latino alter (outro) e o substantivo grego graphia (escrita), o significante “alterbiografia” remete, explicitamente, ao significado da escrita da vida de outrem, constituindo, destarte, um texto de representação em que se refletiria um alter ego. Analisando as relações entre o diário e a narrativa, Maurice Blanchot ressalta, como característica fulcral do diário, a sua total liberdade, dentro da ordem ou da desordem escolhida; no entanto, essa liberdade sedutora encontra um obstáculo assustador: o pacto com o calendário, que pesa sobre o diário, submetido, então, à regularidade dos “dias comuns”. Também o livro de memórias goza do mesmo estatuto ambíguo do diário, dado que sua liberdade de rumo prende-se à âncora do tempo, sobretudo do tempo encarado como passado. Já o texto alterbiográfico navega em águas estranhas, porque reflete e refrata, ao mesmo tempo, a vida, não vivida por quem escreve, mas por quem se ficcionaliza num diário ou livro de memórias, talvez falacioso, todavia sedutor. Se ao romance atribui-se liberdade de imaginação, ao diário e ao livro de memórias recusar-se-ia a livre figuração, devendo, portanto, esses gêneros aterem-se a uma espécie de verossimilhança. Porque agencia, a seu bel-prazer, a categoria do tempo e de uma possível verosimilhança, o gênero alterbiográfico opera a travessia entre o romanesco, o diário e o memorialismo. No diário, o calendário constitui um eixo, ao passo que, no livro de memórias, o categoria do tempo exerce o papel de âncora. Na alterbiografia – simulacro de biografia – cronos poderá ser ludibriado no jogo da ficção e da realidade da vida de outrem, não biografado, antes alterbiografado. Tratando do pacto autobiográfico, Philippe Lejeune retoma o famoso enunciado de Arthur Rimbaud – “Je est un autre” – e pondera que “le jeu est (…) fatalement lié à l’identité”; portanto, quando, na alterbiografia, o narrador lança mão do pronome na primeira pessoa, trava um jogo com a alteridade de seu (alter)biografado, cuja sombra abarca o texto, onde o narrador-protagonista se transveste do sujeito-objeto de que fala, consignando lembranças, falsas lembranças, em que não se mascara o sujeito, mas o próprio jogo. Como paradigma do gênero alter-biográfico, podemos tomar o livro do filósofo francês Bernard-Henri Lévy, Les derniers jours de Baudelaire, que tem um subtítulo significativo – roman -, signo que denuncia a incursão no terreno do imaginário, da irrealidade da pura ficção, onde o narrador faz de conta que é o próprio Baudelaire que, embora acometido de afasia e de agrafia , inscreve suas lembranças. Será a alterbiografia mais um “miroir d’encre”, em que vidas, reais e fictícias, se entrecruzam na malha do texto, tingido de um pessoano fingimento. Figurando-se ser, em Livro do desassossego, Bernardo Soares, Fernando Pessoa tece, de 1913 a 1935, em vertiginoso e genial jogo de mise en abyme, a “biografia sem factos” de um “ajudante de guarda-livros da Baixa Lisboa”, que nunca existiu realmente. Ao fim e ao cabo, esse livro em fragmentos de uma “personalidade literária” atinge o paroxismo da alterbiografia, até porque só foi publicado postumamente, em 1982, e dele existem várias versões, às vezes com autoria ficcional diferencial (Vicente Guedes, Barão de Teive, além de Bernardo Soares e do próprio Fernando Pessoa), com estéticas diferentes, mas sempre com o mesmo título, com textos maiores e menores, que se completam e se contradizem, constituindo um “anti-livro”, um “não-livro”, um projeto de livro, um “livro por vir” e configurando a alterbiografia como uma fecunda “floresta do alheamento”.

{bibliografia}

Maurice Blanchot, O livro por vir , 193 (1984); Philippe Lejeune, Le pacte autobiographique, Poétique, 146 (1983) ; Roland Barthes, Roland Barthes, 152 (1977); Bernard-Henri Lévy, Les derniers jours de Baudelaire (1988); Michel Beaujour, Miroirs d’encre (1980); Fernando Pessoa, O livro do desassossego (2002).