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O termo anfigurismo tem origem no vocábulo anfiguri e corresponde, em sentido lato, a determinados efeitos estéticos deformadores da expressão literária. Essas «linguagens forjadas» estão presentes na literatura universal desde os textos de Aristófanes (cf. Etienne Souriau, 1965: 42-3). Mas, como observa Luís Adriano Carlos, numa sistematização da tradição anfigúrica que será aqui tomada como referência, estes fenómenos não ocorrem na história literária de uma forma constante mas cíclica.

Jorge de Sena (1992: 71), num dos seus verbetes, define «anfiguri» como «Termo retórico que se aplicava a um trecho ou discurso para não ser inteligível» ou  a «qualquer peça literária desordenadamente composta e sem claro sentido» por autores clássicos que procuravam produzir um efeito propositado de nonsense, «sugerir uma peculiar desordem do espírito, […] a irrupção do absurdo […] ou, ainda, se desejavam caricaturar a ilogicidade ou o primarismo de uma fala não-educada».

Verifica-se desde logo a presença de algumas características do anfigurismo em certas tragédias clássicas e no latinório dos cancioneiros medievais. A poesia dos Goliardos, reunida em Carmina Burana, constitui um bom exemplo na base da retórica anfigúrica. Estes poetas insurgiram-se face aos limites constrangedores da correcção da língua, que deliberadamente corromperam, e subverteram parodicamente temas litúrgicos. Apesar de promotores da dissolução dos próprios significantes, não deixam os seus textos de apresentar uma grande virtuosidade técnica, trabalhada ao nível da acentuação das palavras, do número de sílabas e da rima.

O anfigurismo toma uma nova dimensão em França com os livros Pantagruel de François Rabelais (1490-1533). Este autor constitui na escrita da Renascença o paradigma do progresso linguístico, abrindo, no entender de alguns críticos, as portas à Modernidade. Na base da extraordinária proliferação de vocabulário está o francês medieval com os seus dialectos; juntam-se-lhe línguas como o espanhol, o alemão, o irlandês e o árabe; mais as línguas antigas renovadas, o latim e o grego. A este fenómeno poliglótico misturam-se o calão e os jargões de estudantes, músicos, filósofos, alquimistas e astrólogos. Nos seus textos não faltam outros processos anfigúricos como os hibridismos ortográficos ou as formas poéticas cheias de trocadilhos, grosserias, onomatopeias, enigmas e enumerações extravagantes, sacrificando mesmo as matrizes sintáctico-semânticas convencionais.

O escritor inglês Laurence Sterne (1713-1768) retoma de François Rabelais uma série de processos experimentais sobre as estruturas discursivas em The Life & Opinions of Tristram Shandy. A invenção verbal, as súbitas variações poliglóticas, a polissemia e a ambiguidade, a desarrumação e a excentricidade de palavras fragmentadas e desarticuladas sintacticamente promovem um género de anti?romance que, no entender de Luís Adriano Carlos (1986: 33), «prefigura já os sinais turbulentos de uma nova situação, na qual a ruptura do significante enquanto limite (codificado) irá finalmente fazer parte integrante do sistema: a modernidade».

O Petit Glossaire pour Servir à l’Inteligence des Auteurs Décadents et Symbolistes, de Jacques Plowert, data de 1888 e tem como objectivo a iniciação do leitor no hermetismo vocabular através de técnicas de (de)formação de palavras. Com os simbolistas, a poesia ambiciona ser sugestão (Mallarmé), num mundo oculto onde, através das «correspondências» (Baudelaire), o «poeta vidente» (Rimbaud) invade o mistério das palavras. O resultado não poderia ser outro senão a manifestação do discurso anfigúrico no carácter hermético das composições simbolistas, carregadas de palavras estranhas, obscuras e inacessíveis, no entanto autónomas pelo poder emancipador do significante na experimentação das formas linguísticas.

Pela mesma altura, mas em Inglaterra, Lewis Carroll (1832-1898), através do onirismo ou do lúdico, cria um efeito de nonsense muito admirado posteriormente pelo Surrealismo, tendo sido inclusivamente traduzido em França por Louis Aragon. Carroll criou um universo ficcional muito revolucionário para a época, jogando com o vocabulário como se de um puzzle se tratasse – matemático, é certo, pois o conjunto das palavras, das ideias e das personagens sem qualquer sentido aparece como um todo ordenado nos textos Alice’s Adventures in Wonderland (1865) ou em Through the Looking Glass (1871). A linguagem portmanteau de Humpty Dumpty, que viria mais tarde a ser explorada por James Joyce, vem provar que, para Carroll, não há limites para o que se pode dizer ou fazer com as palavras.

Nos finais do século XIX, surgem na Alemanha as paródias grotescas de Christian Morgenstern (1871-1914), que constituem um admirável exemplo do anfigurismo moderno. Este poeta impôs-se pelo lirismo espirituoso dos seus textos filosófico?místicos, ao mesmo tempo grandiloquentes e intencionalmente patéticos, vocacionados para promover o carácter enigmático das libertinagens fonéticas entre a ironia e o humor. Antes dos dadaístas, Morgenstern escreveu sem palavras, contribuindo para o poder criador e autónomo da linguagem poética.

Mas o paradigma do anfigurismo moderno é sem dúvida a obra Finnegans Wake de James Joyce (1882-1941). Como uma linguagem em permanente gestação, o inglês mistura-se com dezenas de outras línguas, destruindo qualquer tentativa de reestruturação morfológica. As transgressões são exploradas no seu limite através das oposições, tensões, combinações, dispersões, permutações, condensações, mots valise, dos jogos musicais, dos trocadilhos, ou ainda pela multiplicidade de vozes que injectam no texto fragmentos de variadas culturas. Joyce coloca-nos perante um verdadeiro labirinto de lapsos encadeados, numa maquinaria infernal, na «utopia de um discurso duma eficácia mágica» (Rabaté, 1976).

Jorge de Sena, no verbete já referido, cita o exemplo de João Guimarães Rosa (1908-1967) e da sua escrita moderna com alcance anfigúrico. Os seus contos, desde o fantástico ao anedótico, passando pelo satírico, o jocoso ou o patético, exploram de forma singular e renovadora a linguagem literária brasileira. Este feiticeiro de palavras, como ficou conhecido, misturava arcaísmos com regionalismos jamais escritos e com os vocábulos de vários idiomas e fazia aparecer um texto repleto de neologismos. Fazendo largo uso da semântica, da sintaxe e da morfologia populares, Guimarães Rosa não se submetia à tirania da gramática, iludindo o convencionalismo linguístico.

O próprio Jorge de Sena (1919-1978) foi devedor do anfigurismo nos Quatro Sonetos a Afrodite Anadiómena, por ele descritos como «Exemplo de linguagem anfigùricamente inventada para significar o que seria extremamente grosseiro ou chocante para ser descrito pelos seus nomes (e não para evitá-lo, mas para transfigurá-lo)» (Sena, 1992: 72). Neste conjunto de poemas, a linguagem parece desintegrar-se, deixando, no entanto, a estrutura sintáctica ilesa. Por conseguinte, a estrutura semântica encontra um sentido, que não o tradicional, nas imagens suscitadas pelas associações sonoras das próprias palavras.

Na esteira de escritores como Joyce, Carroll ou Morgenstern, a obra poética de Ângelo de Lima (1872-1921) apresenta uma linguagem plena de vazios que correspondem a palavras ou frases que não tiveram tempo de fixar-se no texto, tornando-o ilisível e obscuro. O conjunto de textos deste poeta louco, como ficou conhecido nos enredos literários, representam, segundo Isabel Melo (2003), o caso mais paradigmático do anfigurismo português.

São vários os fenómenos detectados ao nível da gestação vocabular nos seus textos poéticos, nomeadamente os hapax legomena, os mots valise e os metaplasmos. Como salientou Luís Adriano Carlos (1987: 9), ao transformar as matrizes convencionais do significante linguístico-poético, a poesia de Ângelo de Lima excede a dos modernistas de Orpheu, concluindo o processo interseccionista – que, nas suas mãos, havia ficado pelo plano dos significados – e antecipando modelos de significação que outras figuras e movimentos iriam privilegiar. Verifica-se, pois, em Ângelo de Lima a expressão do «interseccionismo morfológico», transpondo desta forma o interseccionismo sintáctico-semântico de Fernando Pessoa, que ficou iconizado pelo poema «Chuva Oblíqua», publicado em Orpheu 2. O efeito plurissignificativo dos significantes desfigurados em Ângelo de Lima obriga, pois, a que se ultrapasse a questão da legibilidade e que se analise a sua obra, como afirma Melo (2003: 64), em termos de lisibilidade, uma das características dos textos da Modernidade (cf. Ferraris, 1980: 282; e Adriano Carlos, 1986: 82).

Apesar de alguns destes processos de transfiguração verbal estarem presentes em textos de várias épocas, nunca a sua utilização foi feita de forma tão recorrente e consciente como pelos autores modernos. Tome-se como exemplo a poesia concretista brasileira ou a experimental dos anos 60 e os labirintos, os acrósticos, os anagramas, cronogramas e lipogramas que surgem das pesquisas de Ana Hatherly na poesia portuguesa seiscentista e setecentista; ou, anos antes, a poética anfigúrica, em nome da espontaneidade e do automatismo, que se descobre na revolução semântica do surrealismo como caminho para a supra-realidade, já longe, no entanto, do discurso niilista levado ao extremo pelos dadaístas.

Vários são pois os processos da tradição da retórica anfigúrica que contribuem para a fragmentação da linguagem na poética da Modernidade. No entanto, é essencialmente a nível morfológico, na dissolução deliberada do significante, que os autores modernos procuram a remotivação do signo linguístico.

 

{bibliografia}

CARLOS, L. A. (1986). Jorge de Sena e a Escrita dos Limites: Análise das Estruturas Paragramáticas nos Quatro Sonetos a Afrodite Anadiómena. Dissertação de Mestrado. Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

CARLOS, L. A. (1989). «Poesia Moderna e Dissolução». Línguas e Literaturas, VI. Porto: FLUP.

CARLOS, L. A. (1987). «Entre duas Efemérides: Evocação de Ângelo de Lima». Critério, Série Nova, 1. Porto: Universidade Católica Portuguesa.

FERRARIS, D. (1980). «Quaestio de Ligibilibus aut Legendis Scriptis». Poétique, 43. Paris: Seuil.

MELO, I. S. (2003). O Anfigurismo na Poesia de Ângelo de Lima. Dissertação de Mestrado. Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

RABATÉ, J. P. (1976). «Lapsus Ex Machina». Poétique, 26. Paris: Seuil.

SENA, J. (1992). «Anfiguri». Amor e Outros Verbetes. Lisboa: Edições 70. (Também in Grande Dicionário da Literatura Portuguesa e de Teoria Literária (1977). Lisboa: Iniciativas Editoriais).

SOURIAU, E. (1965). «Sur l’Esthétique des Mots et des Langages Forgés». Revue d’Esthétique, 18. Paris: Editions du Centre National de la Recherche Scientifique.