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Termo que deriva da crítica contextual, forma de crítica literária desenvolvida em particular por Murray Krieger e Eliseo Vivas, durante a última fase do New Criticism norte-americano, cuja metodologia consiste na interpretação do texto literário como objecto auto-referencial, que dispensa qualquer apontamento do mundo que lhe é exterior. O método é descrito por Krieger em The New Apologists for Poetry (1956) e em Theory of Criticism (1976). Nesta proposta, o único contexto relevante na análise de um poema é o próprio poema. De alguma forma, a ideia de que nada de interesse crítico existe para além do texto repudia a noção mais literal de crítica contextual, a não na ideia de que se trata de uma crítica con-textual, virada unicamente para o texto, o que justifica a preferência dada às chamadas close readings. Se pretende deixar de lado tudo o que não está directamente no texto literário, a este método seria, assim, mais conveniente a designação de crítica textual ou intratextual. A desconstrução de Derrida vai seguir este preceito, acreditando que “não há nada para além do texto”. Neste ponto, os New Critics referidos e o próprio Derrida não se distinguem da atitude inicial dos formalistas russos que dispensavam os aspectos históricos (= os contextos) da obra de arte literária, para se concentrarem apenas na apreciação do texto como “objecto estético”.

Uma leitura formalista/estruturalista de uma obra de arte interessa-se apenas por aquilo que se observa objectivamente — basta contemplar a obra; uma leitura contextualista tradicional obriga-nos a saber quem criou a obra, como a criou, onde a criou, porque a criou. Naturalmente, uma crítica global da obra de arte seria aquela que fosse capaz de não deixar de lado nenhuma das questões: a literatura enquanto literatura e a literatura como acto social.

O termo tem uma outra aplicação mais universal, fora do quadro do New Criticism e mais próxima do seu significado literal: crítica que se concentra nos aspectos sociais, políticos, históricos, económicos, etc. que envolvem o texto literário, na sua produção/criação, na sua edição e/ou na sua recepção. A forma mais corrente de contextualismo é que procura enquadrar historicamente uma dada obra literária, interpretando-a em função da época em que foi produzida, da escola a que eventualmente está ligada, dos movimentos político-sociais que a influenciaram. Praticamente tudo o que é objecto de estudo na crítica contextual assim descrita fica de fora na crítica formalista, tal como a conhecemos durante a vigência do formalismo russo e do estruturalismo francês. Enquanto o contextualismo nos remete para tudo aquilo que envolve a obra de arte, o formalismo e o estruturalismo concentram-se apenas nos problemas restritos da composição ou da configuração da obra.

Nos campos da filosofia e da teologia, verifica-se nas últimas décadas um regresso à tendência para contextualizar todas as investigações sobre a natureza humana. À partida, qualquer investigação contextualista é de certa forma redundante, porque ninguém existe fora de contexto., isto é, ninguém se pode afirmar fora de uma determinada realidade linguística, social ou cultural, ninguém vive fora do seu tempo e do seu espaço. Mesmo um sábio epicurista ou um sábio estóico, que alegam que o homem deve isolar-se, esconder-se na sombra da sociedade (lathe biosas — latenter vivendo), para que nada possa perturbar o tranquilo gozo da vida, só podem ser compreendidos no exacto momento histórico em que viveram. O individualismo, seja de que espécie for, deriva sempre de uma situação histórica que o determinou. Isto não significa que toda a investigação sobre o indivíduo seja apenas definida pelo contexto em que ele vive ou que a ele está irremediavelmente ligado. Hoje, em particular na filosofia da ciência, o que se passa é que tudo se explica em função de um contexto. Esta forma radical de investigação — a que se deve em grande parte o conceito geral de contextualismo —, iniciada por Kuhn, Feyerabend e Toulmin, conduziu a novas formas de cepticismo e relativismo, que privilegiam uma investigação das bases históricas de informação (= contexto) de um dado objecto de estudo, em detrimento da simples observação experimental que sempre serviu de suporte primário à investigação científica. O contextualismo radical daqui nascido não admite outro tipo de investigação, a que se acrescenta a crença na impossibilidade de obter um conhecimento objectivo e seguro do mundo. Resulta então que todo o conhecimento está condicionado por informações históricas (=contextuais) que nos impedem de saber com rigor e em definitivo aquilo que se passa no mundo de hoje. Nas palavras conhecidas de G. K. Chesterton: “We don’t know enough about the unknown to know that it’s unknowable.”; nas palavras também conhecidas de Derrida, “um contexto nunca é absolutamente determinável” (Margens da Filosofia, Rés, Porto, s.d., p.403). A isto chamou William Dembski a “falácia do contextualismo”, que corresponde a essa atitude céptica em relação ao conhecimento científico: “It is the fallacy that results from asserting with too much confidence that there is nothing about which we can legitimately have confidence. It is the fallacy of knowing too much about the very thing that’s supposed to be an object of ignorance. It is the fallacy of trying to have your cake and eat it too.” Porque a desconstrução em particular e os métodos pós-estruturalistas em geral têm privilegiado leituras con-textuais — isto é, dentro do texto, nada fora do texto, incluindo as referências históricas, culturais, sociais, etc. —, é fácil perceber que a falácia contextual também afecta todos os que defendem o mesmo tipo de ceptismo hermenêutico (todos os textos são indeterminados semanticamente; não há interpretações garantidas) para a literatura, pouco diferente do relativismo hoje defendido na filosofia da ciência.

{bibliografia}

E. W. Said: The World, The Text and the Critic (1978); Jacques Derrida: “Assinatura Acontecimento Contexto”, in Margens da Filosofia (Porto, s.d.; 1ª ed., Paris, 1972); John M. Ellis: “The Relevant Context of a Literary Text”, in The Theory of Literary Criticism: A Logical Analysis (1974); M. Molho: “Texte et contexte”, in Actes du Congrès de la Societé des Hispanistes Françaises, vol. III, Limoges (1981); Murray Krieger: “Contextualism Was Ambitious” e “Contextualism and the Relegation of Rhetoric”, in The Play and Place of Criticism (1967).

http://maine.maine.edu/~zubrick/Formal.html