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Designação compósita, de carácter sobretudo editorial, crítico e institucional, que reúne a ficção científica e a fantasia num mesmo domínio de produção e recepção literárias, sem as reduzir a um género único nem apagar as diferenças entre os respectivos modos de construção do impossível. O termo identifica, portanto, uma constelação macrogenérica: um espaço de relações entre tradições narrativas que se afastam do realismo estrito, constroem mundos alternativos ou introduzem entidades, leis e acontecimentos incompatíveis com a experiência quotidiana, mas o fazem segundo princípios diversos de inteligibilidade.

A forma deriva da expressão inglesa science fiction and fantasy e ocorre também sob as grafias SF&F, S/F, SF/F e SFF. O uso de S&F é mais frequente na edição, na crítica jornalística, nas convenções de autores e leitores, nos prémios, nas livrarias e nos estudos dedicados às literaturas do imaginário do que enquanto categoria poética rigorosamente delimitada. Não equivale, por conseguinte, a uma definição formal de género: funciona antes como uma categoria de agregação, útil para estudar tradições que possuem histórias parcialmente comuns, circuitos editoriais próximos e numerosas formas híbridas.

S&F não é sinónimo de ficção científica. A ficção científica constitui apenas uma das duas grandes áreas nomeadas pela expressão. Em termos gerais, pode dizer-se que: a fantasia admite que o impossível seja constitutivo do mundo narrado e possa depender de magia, intervenção divina, criaturas fabulosas, cosmologias míticas ou leis naturais distintas das conhecidas; S&F abrange ambas as tradições e, sobretudo, as obras situadas nas suas zonas de contacto.

A diferença não depende simplesmente da presença de naves espaciais ou de dragões. Uma narrativa pode utilizar cenários tecnológicos e possuir uma estrutura essencialmente mítica; inversamente, pode apresentar fenómenos aparentemente sobrenaturais que acabam por receber uma explicação natural ou científica. A distinção reside antes no regime de causalidade proposto pela obra e no pacto interpretativo estabelecido com o leitor.

Na ficção científica, o insólito tende a ser racionalizado: uma máquina do tempo, uma inteligência artificial ou uma sociedade extraterrestre são apresentados como hipóteses compreensíveis no interior de determinada extrapolação. Na fantasia, o impossível pode ser aceite como propriedade fundamental do mundo: a magia existe, os mortos regressam ou os deuses intervêm sem que tais factos tenham de ser traduzidos para uma explicação científica. Em muitas obras de S&F, porém, os dois regimes coexistem. É o caso da chamada fantasia científica (science fantasy), na qual artefactos tecnológicos, poderes mágicos, mitos e viagens cósmicas pertencem à mesma arquitectura ficcional.

O termo também não deve ser confundido automaticamente com literatura fantástica, expressão que, em parte da tradição crítica europeia e latino-americana, possui um sentido mais restrito. A partir de Tzvetan Todorov, o fantástico pode ser definido pela hesitação entre uma explicação natural e uma explicação sobrenatural do acontecimento insólito. A fantasia moderna, pelo contrário, não exige essa hesitação: pode apresentar o sobrenatural como indiscutivelmente real. Do mesmo modo, realismo mágicomaravilhosohorrorutopiadistopia e ficção especulativa intersectam o campo de S&F, mas não são seus equivalentes necessários.

No plano teórico, o esforço de fundamentação de uma categoria mais ampla do que a ficção científica em sentido restrito deve-se sobretudo a Robert A. Heinlein, que propôs já em 1947 o termo speculative fiction como alternativa mais rigorosa a science fiction, e que seria depois retomado, com inflexões distintas, por Judith Merril nas suas antologias anuais a partir de 1960, e mais tarde reivindicado por autoras como Margaret Atwood e Ursula K. Le Guin, esta última particularmente empenhada em desfazer as fronteiras rígidas entre ficção científica, fantasia e realismo mágico em ensaios como os reunidos em The Language of the Night (1979). Do lado da teorização mais estritamente formalista da ficção científica como género distinto, a obra de Darko Suvin, Metamorphoses of Science Fiction (1979), com a sua noção de “estranhamento cognitivo” (cognitive estrangement), tornou-se referência obrigatória precisamente para estabelecer, com rigor conceptual, a fronteira teórica entre ficção científica e fantasia que a sigla S&F, na sua vocação classificatória mais pragmática, tende a esbater.

As genealogias de S&F recuam frequentemente às antigas narrativas de viagens extraordinárias, metamorfoses, descidas ao mundo dos mortos e encontros com povos fabulosos. A Odisseia, atribuída a Homero, as Metamorfoses, de Ovídio, e a História Verdadeira, de Luciano de Samósata, fornecem modelos duradouros de viagem cósmica, transformação corporal e invenção de mundos. Não são ficção científica no sentido moderno, porque antecedem a formação histórica da ciência moderna e do próprio conceito de literatura de género, mas integram a pré-história dos motivos posteriormente reelaborados por S&F. As tradições épicas, os romances de cavalaria, os relatos visionários e os ciclos arturianos contribuíram, por sua vez, para a fantasia moderna: estabeleceram motivos como a demanda, a espada encantada, a floresta perigosa, a profecia, o reino oculto e o conflito entre ordens cósmicas.

Na literatura portuguesa, a História do Imperador Clarimundo, de João de Barros, e diversos livros de cavalarias quinhentistas participam desta tradição do maravilhoso. Também Os Lusíadas, de Luís de Camões, combina matéria histórica, mitologia clássica, profecia e intervenção divina. A obra não pertence a S&F enquanto categoria moderna, mas constitui um antecedente importante da representação literária portuguesa de viagens extraordinárias, máquinas do mundo e espaços desconhecidos.

Entre os séculos XVI e XVIII, a expansão marítima, a astronomia, a filosofia natural e a literatura utópica criaram condições decisivas para o futuro desenvolvimento da ficção científica. A Utopia, de Thomas More, as viagens lunares de Johannes Kepler e Francis Godwin, The Blazing World, de Margaret Cavendish, e As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, associaram a invenção de sociedades e mundos imaginários à sátira política e à reflexão filosófica. Este período é importante para S&F porque nele se consolidou uma separação progressiva entre, por um lado, o maravilhoso herdado do mito e do romance e, por outro, a conjectura baseada nos novos discursos científicos. A fronteira nunca foi absoluta: máquinas, espíritos, mundos lunares e alegorias políticas podiam coexistir numa mesma obra.

O romantismo e o romance gótico deram nova centralidade ao sobrenatural, ao monstruoso e ao sublimeFrankenstein; or, The Modern Prometheus (1818), de Mary Shelley, é habitualmente considerado uma obra fundadora da ficção científica moderna, pois transforma a criação artificial da vida num problema científico, moral e social. Edgar Allan Poe, E. T. A. Hoffmann e Nathaniel Hawthorne exploraram, por vias diferentes, as relações entre ciência, loucura, técnica, imaginação e sobrenatural. Durante o século XIX, Jules Verne e H. G. Wells consolidaram a narrativa de antecipação e o chamado scientific romance. Verne privilegiou a viagem tecnológica e a divulgação científica; Wells utilizou invenções conjecturais (a máquina do tempo, a invasão extraterrestre, a manipulação biológica) para interrogar a evolução, o imperialismo e as divisões de classe.

A fantasia moderna formou-se paralelamente através da recuperação do folclore, do conto de fadas, da mitologia e do romance medieval. George MacDonald e William Morris foram decisivos para a criação de mundos secundários autónomos, preparando a obra de autores como Lord Dunsany, E. R. Eddison e J. R. R. Tolkien. A existência de S&F enquanto campo reconhecível dependeu da moderna cultura editorial. As revistas populares anglo-americanas das primeiras décadas do século XX separaram e, simultaneamente, aproximaram a fantasia, a ficção científica e o horror. Publicações como Weird Tales e Amazing Stories criaram comunidades de leitores, vocabulários críticos, convenções narrativas e identidades autorais.

A partir de 1926, Hugo Gernsback popularizou a expressão scientifiction, depois substituída por science fiction. Nos Estados Unidos, a ficção científica da chamada Idade de Ouro, associada a editores como John W. Campbell Jr., privilegiou frequentemente a resolução racional de problemas e a confiança na ciência, ainda que apresentasse posições políticas e filosóficas muito variadas.

Na fantasia, The Hobbit e The Lord of the Rings, de Tolkien, exerceram uma influência excepcional sobre a fantasia épica posterior. Contudo, o campo inclui tradições muito distintas da fantasia tolkieniana: a fantasia urbana, a fantasia histórica, o realismo mitopoético, a reescrita de contos tradicionais e as narrativas de mundos permeáveis, exemplificadas, entre outros autores, por C. S. Lewis, Mervyn Peake, Ursula K. Le Guin e Michael Moorcock.

A designação agregadora science fiction and fantasy ganhou utilidade porque os dois géneros passaram a compartilhar editoras, colecções, revistas, agentes literários, convenções e prémios. O desenvolvimento institucional tornou-se particularmente visível na criação de organizações e distinções dedicadas simultaneamente ou paralelamente à ficção científica e à fantasia.

Nas décadas de 1960 e 1970, a New Wave contestou os limites estilísticos e temáticos da ficção científica convencional. Autores como J. G. Ballard, Brian Aldiss, Samuel R. Delany e Joanna Russ aproximaram o género da experimentação modernista e pós-modernista, deslocando a atenção do espaço exterior para a linguagem, o corpo, a sexualidade e a subjectividade. Ursula K. Le Guin ocupa uma posição central em S&F porque trabalhou de modo distinto, mas complementar, nos dois campos. As narrativas do universo hainiano interrogam a antropologia, o género sexual e a organização social por meio da ficção científica; o ciclo de Terramar utiliza a fantasia para pensar a linguagem, o poder, a morte e o equilíbrio ecológico.

A crítica feminista revelou que as sociedades futuras e os mundos imaginários podiam servir para questionar a divisão sexual do trabalho, a reprodução, a família e a identidade. Obras de Octavia E. Butler, Margaret Atwood, Marge Piercy, James Tiptree Jr., Angela Carter e Sheri S. Tepper alteraram profundamente o campo, embora nem todas as autoras aceitassem sem reservas a classificação das suas obras como ficção científica ou fantasia.

Desde finais do século XX, os estudos de S&F têm revisto a antiga concentração nos Estados Unidos e na Europa ocidental. O afrofuturismo, as ficções indígenas, as tradições asiáticas, africanas e latino-americanas e as perspectivas pós-coloniais demonstraram que a imaginação tecnológica e o maravilhoso não pertencem exclusivamente à modernidade europeia.

O afrofuturismo, associado a autores como Octavia E. Butler, Samuel R. Delany, Nnedi Okorafor e N. K. Jemisin, reinterpreta o futuro, a tecnologia e o cosmos a partir da experiência histórica da diáspora africana. As ficções pós-coloniais usam frequentemente mundos alternativos para examinar a escravatura, a violência imperial, a apropriação cultural e as consequências ambientais do capitalismo.

No século XXI, o campo inclui tendências como a ficção climática, o solarpunk, o steampunk, a fantasia urbana, as histórias alternativas e as narrativas sobre inteligência artificial, engenharia genética e catástrofes planetárias. Estas designações não constituem compartimentos estanques: uma mesma obra pode ser simultaneamente distópica, climática, afrofuturista e fantástica.

A sua amplitude também encerra riscos. O termo pode transformar tradições historicamente distintas numa categoria comercial demasiado vaga; pode aplicar retrospectivamente classificações modernas a textos antigos; e pode subordinar literaturas não anglófonas a modelos de género formados no mercado editorial anglo-americano. Por isso, S&F deve ser utilizado como instrumento comparativo e institucional, não como essência trans-histórica da literatura imaginativa. Em sentido rigoroso, S&F designa menos um género do que um campo de diferenças relacionadas. A ficção científica e a fantasia partilham a faculdade de suspender os limites do mundo empírico, mas divergem quanto às causas, às regras e aos efeitos dessa suspensão. O valor crítico da expressão reside precisamente em conservar a conjunção: o «&» não declara identidade, mas proximidade, intersecção e possibilidade de trânsito.

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