IDENTIDADE

Termo de origem latina, formado a partir do adjectivo “idem”(com o significado de “o mesmo”) e do sufixo “-dade” (indicador de um estado ou qualidade). Como tal, a etimologia desta palavra conduz à sua aplicação como qualificadora daquilo que é idêntico ou o mesmo, sendo, portanto, identificadora de algo que permanece. No pensamento grego, Sócrates e Platão destacam-se pela sua preocupação em definir o que são as coisas, ou seja, em descobrir e fixar as essências das coisas, restabelecendo o ponto de vista da verdade na filosofia. No sentido socrático e platónico, a definição parte do princípio da identidade e permanência dos entes e, para ultrapassar o problema da unidade e da multiplicidade, Platão recorre ao “mundo das ideias”, sendo que o ser verdadeiro não está nas coisas, mas sim fora delas. As ideias são unas, imutáveis, eternas e permitem, ao contrário das coisas sensíveis, definições rigorosas. Nesta linha de pensamento, a identidade encontra-se nas ideias, pelo facto destas não estarem sujeitas ao movimento e à multiplicidade. Generalizando, em termos filosóficos, a identidade traduz coincidência de uma substância consigo mesma e o primeiro princípio lógico do pensamento é o princípio de identidade, o qual compreende o sentido da lei suprema do ser (princípio metafísico) e o da lei suprema do pensamento (princípio lógico). No contexto das teorias literárias pós-estruturalistas, mais concretamente no que respeita ao trabalho desenvolvido por Wolfgang Iser na Estética da Recepção e na Teoria da Resposta do Leitor, o termo identidade associa-se ao problema da identificação de um estatuto da literatura, partindo-se das características que, no texto literário, se mantêm iguais ao longo do tempo. Ao restituir ao leitor o seu papel preponderante na continuidade do fenómeno literário, uma vez que se encara a existência do texto como apenas possibilitada pela leitura do mesmo, a actuação do leitor contribui para a identidade desse mesmo texto, sendo que essa leitura faz parte do próprio estatuto do texto literário, ou seja, da sua dependência existencial face ao leitor. Por outro lado, a indeterminação do objecto literário, o qual não existe independentemente do texto que o criou, mina a possibilidade da sua correspondência com um objecto concreto do mundo real. A realidade do texto literário é-lhe conferida através da participação e da resposta do leitor que, no entanto, não poderá encontrar referência numa situação real. Esta indeterminação do texto literário é-lhe peculiar, assim como o é a participação do leitor no sentido de uma compensação da mesma. Tais factores contribuem para o estabelecimento do estatuto do texto literário, são factores que se mantêm nos textos e, como tal, conferem-lhe uma identidade. A identidade encontra-se, portanto, intimamente ligada à relação entre texto e leitor. Segundo a Crítica Fenomenológica, a obra literária implica da parte do autor, um acto de auto-descoberta, pelo que a linguagem é a revelação do eu como sujeito do pensamento. Esse eu torna-se testemunha do fenómeno que tem lugar em si mesmo. O texto literário nasce de um momento de consciência e a linguagem revela as sucessivas formas de construção do cogito do autor, as quais, não sendo sempre harmoniosas, levantam obstáculos ao leitor. O conflito entre a identidade revelada no texto e a identidade do leitor tem o seu ponto de partida no acto da leitura, no momento da compreensão do processo de auto-conhecimento que se revela no texto e, mais concretamente, na compreensão das visões variadas que constituem esse cogito. A essas visões, o crítico fenomenologista, Roman Ingarden, chamou schematized views. Tais visões contribuem para a identidade do texto literário, porque vão ao encontro da sua característica permanente: a indeterminação. A ligação entre essas visões e a consequente ultrapassagem dos obstáculos criados pelo texto têm lugar na mente do leitor. É a ele que cabe o papel de estabelecer essas ligações, contrabalaçando o carácter indeterminado do texto que lê. Assim, qualquer texto literário convida a uma forma de participação do leitor, a uma actuação sobre a revelação do cogito do autor. A realidade do texto literário nasce desta participação da mente do leitor sobre o texto com vista à realização de uma verdade ou de um sentido possível do mesmo. Daí a resistência da obra literária à passagem do tempo, pelo que a sua indeterminação permite continuamente o trabalho do leitor no sentido da sua participação na mesma. Neste contexto, poder-se-á encarar a leitura como um processo de manutenção da identidade do fenómeno literário. Dentro das teorias que privilegiam o papel do leitor existem, contudo, posições divergentes no que respeita à essência do objecto literário. No caso do filósofo alemão Wolfgang Iser, cuja teoria assenta em grande parte na fenomenologia de Roman Ingarden, a indeterminação de um texto literário provém da ausência de ligações entre as várias visões do objecto apresentadas nesse texto e são esses gaps, segundo a terminologia de Iser, característicos dos textos literários que lhe conferem uma estrutura objectiva. Mais tarde, Wolfgang Iser virá a abandonar a ideia de texto literário como possuidor de uma estrutura objectiva, indo ao encontro da descrição da leitura proposta por Jean-Paul Sartre. Para Sartre, a relação entre texto e leitor implica uma troca contínua de pedidos e ofertas entre ambos, sendo que cada qual se deixa guiar pelo outro. Por seu turno, Stanley Fish, crítico que se inclui na Teoria da Resposta do Leitor, considera que o objecto literário ganha uma carga simbólica pela importância da mente do leitor na atribuição do sentido do mesmo. Partindo da inexistência de sujeitos e objectos puros e da ideia de texto literário como síntese mental do leitor, Stanley Fish privilegia o conceito de “comunidade interpretativa”, sendo que as diferentes normas e estratégias de leitura adoptadas produzem diferentes comunidades de leitores. Tal como é afirmado por outro crítico da Teoria da Resposta do Leitor, David Bleich, os valores subjectivos comuns a uma dada comunidade conduzem à aceitação das interpretações como “verdadeiras”. Também para este crítico, o objecto literário é um objecto simbólico, aceitando o princípio de que o observador faz sempre parte daquilo que é observado. Não obstante estas divergências e sendo a leitura considerada, em ambas as teorias, como um acto de participação no objecto literário, a identidade desse objecto associa-se sempre à sua dependência existencial face ao leitor. Convém então referir o papel da Teoria Psicanalítica na compreensão dessa relação entre leitura e identidade. Assim, o conceito de identidade é crucial para entender a possibilidade de várias interpretações de um texto como consequência da actuação das diferentes personalidades dos leitores. À partida tal questão parece estar resolvida com o já referido conceito de “comunidade interpretativa “cunhado por Stanley Fish, uma vez que são os valores comuns a essa comunidade que regem a validade das diferentes interpretações. No entanto, quando nos centramos no acto individual da leitura torna-se necessário ter em conta os possíveis conflitos entre o cogito revelado no texto e a identidade do próprio leitor que nele participa. Norman Holland, cujo trabalho se inscreve na Teoria Psicanalítica, parte dos conceitos de igualdade e de diferença para explicar a identidade de um dado sujeito e as variações que nela ocorrem pelo confronto com novas questões. A leitura e o confronto com os obstáculos levantados pelo cogito revelado no texto permitem a re-construção da identidade do leitor. No acto da leitura, o leitor defende a sua identidade face ao texto, modelando aquilo que lê e, por outro lado, “empresta” a sua identidade a esse texto através daquilo a que Holland chama fantasies. Partindo do princípio de Lichtenstein, segundo o qual a motivação mais básica do organismo é a manutenção da sua identidade, Holland explica a leitura como uma re-criação da identidade do leitor pelas respostas que o mesmo escolhe perante as questões que lhe são colocadas pelo texto. As respostas alcançadas pelo leitor tornam-se então parte da identidade com que ele partirá para questões futuras. A identidade é assim compreeendida numa dialéctica de igualdade e diferença, pelo que existe uma transacção entre texto e leitor que conduz à re-criação da identidade do segundo. O sentido de um texto literário deve, portanto, ser visto em relação à identidade do leitor desse texto. A ideia da re-criação da identidade do leitor a partir do acto de ler prende-se com a questão da sua experiência no que respeita à re-descoberta de uma consciência individual presente no texto e da forma como a mesma se revela nesse texto. A participação do leitor implica também um acto de consciência, porque descobrir o cogito de um autor significa assumir o mesmo processo de auto-descoberta, ou seja, a re-criação da própria identidade. A descoberta desse cogito é uma forma do leitor aprender mais sobre a sua própria consciência, porque a leitura é um processo de descoberta, no qual as surpresas, frustrações e inversões permitidas pelas disjunções do cogito revelado no texto provocam a reflexão por parte do leitor acerca das suas pressuposições. Num outro contexto, quando considerada como topos literário, a identidade aparece não raras vezes associada à necessidade do conhecimento da origem. Na literatura medieval, a procura da origem para o estabelecimento da identidade é um tema frequente. O desconhecimento da origem é a causa de um presente sem significação e a viagem do herói constitui-se simbolicamente como um processo de auto-descoberta, de regressso a esse passado desconhecido. A compreensão da origem é fulcral para a significação do presente, para o estabelecimento da identidade. Já na Tragédia Clássica, nomeadamente em Édipo Rei, é o desconhecimento da origem que deixa o herói à mercê das circunstâncias trágicas, minando a construção do presente e a coerência da sua identidade.Nos textos medievais, o nome e a origem apresentam-se como as bases da identidade e a falha destas bases quer por causas humanas (num contexto social), quer por causas divinas (pela interferência de Deus ou do destino) conduz à excepcionalidade da experiência do herói, ou seja, a sacrificação do presente em nome do estabelecimento da identidade. Em termos psicológicos, a identidade é uma das propiedades do ser individual, consistindo na continuidade do reconhecimento do indivíduo como ele próprio, apesar dos diferentes estados de consciência. Tal continuidade é assegurada pela memória, pelo que a elipse do passado do herói implica o seu retorno a esse mesmo passado com vista ao estabelecimento de uma identidade perdida. Ainda no âmbito da identidade como topos literário, é pertinente a referência à literatura portuguesa do século XX, bem como ao contexto político, social e cultural em que a mesma se inscreve. A ideia de Portugal e a procura de uma identidade portuguesa é tema de diálogo em diversos textos, em consequência dos acontecimentos relacionados com a presença portuguesa além-mar. A passagem da ideia do Portugal colonizador à ideia do Portugal colonial, desesperançado pelo Ultimato de 1890 e, finalmente, à imagem da nação confinada às suas próprias fronteiras (com o 25 de Abril de 1974) e perseguida por um passado expansionista dá lugar ao tratamento literário da problemática da identidade portuguesa. A esta questão tenta a literatura portuguesa deste século dar resposta desde os quadros dramáticos da História de Portugal de Oliveira Martins. Fernando Pessoa é a figura máxima da problemática da identidade nacional, encontrando o futuro de Portugal no Quinto Império, na opção pelo império da língua e da cultura portuguesas no mundo como superação do sentimento da perda do passado cantado por Camões. A identidade da Pátria constrói-se na língua e na cultura e é esse diálogo linguístico e cultural que Pessoa ambiciona fomentar no meio intelectual português, antecipando-se à redução geográfica e política trazida pelo fim do colonialismo. Neste diálogo sobre a identidade nacional, virão a intervir vários autores deste século e, consequentemente, várias elaborações estéticas de uma ideia de pátria ainda em construção.Por tudo o que ficou dito anteriormente, o conceito de identidade implica, ao contrário do que poderá sugerir uma primeira acepção da palavra, um processo de diálogo com vista à re—criação. Se por um lado, a identidade pode ser entendida como a manutenção de determindados traços, tal facto não exclui toda uma actividade inerente a essa mesma manutenção, baseada na ocorrência de variações nos traços dominantes. A identidade implica processos de re-construção e de re-criação que, uma vez levados a cabo, servirão de base a variações futuras.{bibliografia}Alan Tomlinson (ed.): Consuption, Identity and Style (1990); António Marques: “Problemas da Identidade: Entre a Metafísica e a Descrição”, Revista da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas — Identidade, Tradição e Memória, n.o9 (1996); Cassiano Reimão: “A Cultura Enquato Suporte de Identidade, de Tradição e de Memória”, Revista da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas — Identidade, Tradição e Memória, n.o9 (1996); David Bleich: “The Subjective Character of Critical Interpretation”, Twentieth-Century Literary Criticism — A Reader (1993); Georges Poulet: “The Self and Other in Critical Consciousness”, Twentieth-Century Literary Criticism — A Reader (1993); Helder Godinho: “O Desconhecimento da Origem e a Procura da Identidade”, Revista da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas — Identidade, Tradição e Memória, n.o9 (1996); Horst Ruthrof: “Identity and Difference”, Poetics (1988); Iain Chambers: Migrancy, Culture, Identity (1993); J. Rutherford (ed.): Identity: Community, Culture, Difference (1990); João Sàágua: “Curiosidades Sobre a Teoria Lógica da Identidade”, Revista da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas — Identidade, Tradição e Memória, n.o9 (1996); John Rajchman: The Identity in Question (1995); Kwane Anthony Appiah e Henry Louis Gates, Jr. (ed.): Identities, Critical Inquiry, n.o18/4 (1992); Mark H. Gelber (ed.): Identity and Ethos (1986); Norman Holland: “Reading and Identity: A Psychoanalytic Revolution”, Twentieth-Century Literary Criticism — A Reader (1993); Roman Ingarden: “Some Epistemological Problems in the Cognition of the Aesthetic Concretization of the Literary Work of Art”, Twentieth-Century Literary Criticism — A Reader (1993); Wolfgang Iser: “Indeterminacy and the Reader’s Response”, Twentieth-Century Literary Criticism — A Reader (1993).

IDENTIDADE

Termo de origem latina, formado a partir do adjectivo “idem”(com o significado de “o mesmo”) e do sufixo “-dade” (indicador de um estado ou qualidade). Como tal, a etimologia desta palavra conduz à sua aplicação como qualificadora daquilo que é idêntico ou o mesmo, sendo, portanto, identificadora de algo que permanece. No pensamento grego, Sócrates e Platão destacam-se pela sua preocupação em definir o que são as coisas, ou seja, em descobrir e fixar as essências das coisas, restabelecendo o ponto de vista da verdade na filosofia. No sentido socrático e platónico, a definição parte do princípio da identidade e permanência dos entes e, para ultrapassar o problema da unidade e da multiplicidade, Platão recorre ao “mundo das ideias”, sendo que o ser verdadeiro não está nas coisas, mas sim fora delas. As ideias são unas, imutáveis, eternas e permitem, ao contrário das coisas sensíveis, definições rigorosas. Nesta linha de pensamento, a identidade encontra-se nas ideias, pelo facto destas não estarem sujeitas ao movimento e à multiplicidade. Generalizando, em termos filosóficos, a identidade traduz coincidência de uma substância consigo mesma e o primeiro princípio lógico do pensamento é o princípio de identidade, o qual compreende o sentido da lei suprema do ser (princípio metafísico) e o da lei suprema do pensamento (princípio lógico). No contexto das teorias literárias pós-estruturalistas, mais concretamente no que respeita ao trabalho desenvolvido por Wolfgang Iser na Estética da Recepção e na Teoria da Resposta do Leitor, o termo identidade associa-se ao problema da identificação de um estatuto da literatura, partindo-se das características que, no texto literário, se mantêm iguais ao longo do tempo. Ao restituir ao leitor o seu papel preponderante na continuidade do fenómeno literário, uma vez que se encara a existência do texto como apenas possibilitada pela leitura do mesmo, a actuação do leitor contribui para a identidade desse mesmo texto, sendo que essa leitura faz parte do próprio estatuto do texto literário, ou seja, da sua dependência existencial face ao leitor. Por outro lado, a indeterminação do objecto literário, o qual não existe independentemente do texto que o criou, mina a possibilidade da sua correspondência com um objecto concreto do mundo real. A realidade do texto literário é-lhe conferida através da participação e da resposta do leitor que, no entanto, não poderá encontrar referência numa situação real. Esta indeterminação do texto literário é-lhe peculiar, assim como o é a participação do leitor no sentido de uma compensação da mesma. Tais factores contribuem para o estabelecimento do estatuto do texto literário, são factores que se mantêm nos textos e, como tal, conferem-lhe uma identidade. A identidade encontra-se, portanto, intimamente ligada à relação entre texto e leitor. Segundo a Crítica Fenomenológica, a obra literária implica da parte do autor, um acto de auto-descoberta, pelo que a linguagem é a revelação do eu como sujeito do pensamento. Esse eu torna-se testemunha do fenómeno que tem lugar em si mesmo. O texto literário nasce de um momento de consciência e a linguagem revela as sucessivas formas de construção do cogito do autor, as quais, não sendo sempre harmoniosas, levantam obstáculos ao leitor. O conflito entre a identidade revelada no texto e a identidade do leitor tem o seu ponto de partida no acto da leitura, no momento da compreensão do processo de auto-conhecimento que se revela no texto e, mais concretamente, na compreensão das visões variadas que constituem esse cogito. A essas visões, o crítico fenomenologista, Roman Ingarden, chamou schematized views. Tais visões contribuem para a identidade do texto literário, porque vão ao encontro da sua característica permanente: a indeterminação. A ligação entre essas visões e a consequente ultrapassagem dos obstáculos criados pelo texto têm lugar na mente do leitor. É a ele que cabe o papel de estabelecer essas ligações, contrabalaçando o carácter indeterminado do texto que lê. Assim, qualquer texto literário convida a uma forma de participação do leitor, a uma actuação sobre a revelação do cogito do autor. A realidade do texto literário nasce desta participação da mente do leitor sobre o texto com vista à realização de uma verdade ou de um sentido possível do mesmo. Daí a resistência da obra literária à passagem do tempo, pelo que a sua indeterminação permite continuamente o trabalho do leitor no sentido da sua participação na mesma. Neste contexto, poder-se-á encarar a leitura como um processo de manutenção da identidade do fenómeno literário. Dentro das teorias que privilegiam o papel do leitor existem, contudo, posições divergentes no que respeita à essência do objecto literário. No caso do filósofo alemão Wolfgang Iser, cuja teoria assenta em grande parte na fenomenologia de Roman Ingarden, a indeterminação de um texto literário provém da ausência de ligações entre as várias visões do objecto apresentadas nesse texto e são esses gaps, segundo a terminologia de Iser, característicos dos textos literários que lhe conferem uma estrutura objectiva. Mais tarde, Wolfgang Iser virá a abandonar a ideia de texto literário como possuidor de uma estrutura objectiva, indo ao encontro da descrição da leitura proposta por Jean-Paul Sartre. Para Sartre, a relação entre texto e leitor implica uma troca contínua de pedidos e ofertas entre ambos, sendo que cada qual se deixa guiar pelo outro. Por seu turno, Stanley Fish, crítico que se inclui na Teoria da Resposta do Leitor, considera que o objecto literário ganha uma carga simbólica pela importância da mente do leitor na atribuição do sentido do mesmo. Partindo da inexistência de sujeitos e objectos puros e da ideia de texto literário como síntese mental do leitor, Stanley Fish privilegia o conceito de “comunidade interpretativa”, sendo que as diferentes normas e estratégias de leitura adoptadas produzem diferentes comunidades de leitores. Tal como é afirmado por outro crítico da Teoria da Resposta do Leitor, David Bleich, os valores subjectivos comuns a uma dada comunidade conduzem à aceitação das interpretações como “verdadeiras”. Também para este crítico, o objecto literário é um objecto simbólico, aceitando o princípio de que o observador faz sempre parte daquilo que é observado. Não obstante estas divergências e sendo a leitura considerada, em ambas as teorias, como um acto de participação no objecto literário, a identidade desse objecto associa-se sempre à sua dependência existencial face ao leitor. Convém então referir o papel da Teoria Psicanalítica na compreensão dessa relação entre leitura e identidade. Assim, o conceito de identidade é crucial para entender a possibilidade de várias interpretações de um texto como consequência da actuação das diferentes personalidades dos leitores. À partida tal questão parece estar resolvida com o já referido conceito de “comunidade interpretativa “cunhado por Stanley Fish, uma vez que são os valores comuns a essa comunidade que regem a validade das diferentes interpretações. No entanto, quando nos centramos no acto individual da leitura torna-se necessário ter em conta os possíveis conflitos entre o cogito revelado no texto e a identidade do próprio leitor que nele participa. Norman Holland, cujo trabalho se inscreve na Teoria Psicanalítica, parte dos conceitos de igualdade e de diferença para explicar a identidade de um dado sujeito e as variações que nela ocorrem pelo confronto com novas questões. A leitura e o confronto com os obstáculos levantados pelo cogito revelado no texto permitem a re-construção da identidade do leitor. No acto da leitura, o leitor defende a sua identidade face ao texto, modelando aquilo que lê e, por outro lado, “empresta” a sua identidade a esse texto através daquilo a que Holland chama fantasies. Partindo do princípio de Lichtenstein, segundo o qual a motivação mais básica do organismo é a manutenção da sua identidade, Holland explica a leitura como uma re-criação da identidade do leitor pelas respostas que o mesmo escolhe perante as questões que lhe são colocadas pelo texto. As respostas alcançadas pelo leitor tornam-se então parte da identidade com que ele partirá para questões futuras. A identidade é assim compreeendida numa dialéctica de igualdade e diferença, pelo que existe uma transacção entre texto e leitor que conduz à re-criação da identidade do segundo. O sentido de um texto literário deve, portanto, ser visto em relação à identidade do leitor desse texto. A ideia da re-criação da identidade do leitor a partir do acto de ler prende-se com a questão da sua experiência no que respeita à re-descoberta de uma consciência individual presente no texto e da forma como a mesma se revela nesse texto. A participação do leitor implica também um acto de consciência, porque descobrir o cogito de um autor significa assumir o mesmo processo de auto-descoberta, ou seja, a re-criação da própria identidade. A descoberta desse cogito é uma forma do leitor aprender mais sobre a sua própria consciência, porque a leitura é um processo de descoberta, no qual as surpresas, frustrações e inversões permitidas pelas disjunções do cogito revelado no texto provocam a reflexão por parte do leitor acerca das suas pressuposições. Num outro contexto, quando considerada como topos literário, a identidade aparece não raras vezes associada à necessidade do conhecimento da origem. Na literatura medieval, a procura da origem para o estabelecimento da identidade é um tema frequente. O desconhecimento da origem é a causa de um presente sem significação e a viagem do herói constitui-se simbolicamente como um processo de auto-descoberta, de regressso a esse passado desconhecido. A compreensão da origem é fulcral para a significação do presente, para o estabelecimento da identidade. Já na Tragédia Clássica, nomeadamente em Édipo Rei, é o desconhecimento da origem que deixa o herói à mercê das circunstâncias trágicas, minando a construção do presente e a coerência da sua identidade.Nos textos medievais, o nome e a origem apresentam-se como as bases da identidade e a falha destas bases quer por causas humanas (num contexto social), quer por causas divinas (pela interferência de Deus ou do destino) conduz à excepcionalidade da experiência do herói, ou seja, a sacrificação do presente em nome do estabelecimento da identidade. Em termos psicológicos, a identidade é uma das propiedades do ser individual, consistindo na continuidade do reconhecimento do indivíduo como ele próprio, apesar dos diferentes estados de consciência. Tal continuidade é assegurada pela memória, pelo que a elipse do passado do herói implica o seu retorno a esse mesmo passado com vista ao estabelecimento de uma identidade perdida. Ainda no âmbito da identidade como topos literário, é pertinente a referência à literatura portuguesa do século XX, bem como ao contexto político, social e cultural em que a mesma se inscreve. A ideia de Portugal e a procura de uma identidade portuguesa é tema de diálogo em diversos textos, em consequência dos acontecimentos relacionados com a presença portuguesa além-mar. A passagem da ideia do Portugal colonizador à ideia do Portugal colonial, desesperançado pelo Ultimato de 1890 e, finalmente, à imagem da nação confinada às suas próprias fronteiras (com o 25 de Abril de 1974) e perseguida por um passado expansionista dá lugar ao tratamento literário da problemática da identidade portuguesa. A esta questão tenta a literatura portuguesa deste século dar resposta desde os quadros dramáticos da História de Portugal de Oliveira Martins. Fernando Pessoa é a figura máxima da problemática da identidade nacional, encontrando o futuro de Portugal no Quinto Império, na opção pelo império da língua e da cultura portuguesas no mundo como superação do sentimento da perda do passado cantado por Camões. A identidade da Pátria constrói-se na língua e na cultura e é esse diálogo linguístico e cultural que Pessoa ambiciona fomentar no meio intelectual português, antecipando-se à redução geográfica e política trazida pelo fim do colonialismo. Neste diálogo sobre a identidade nacional, virão a intervir vários autores deste século e, consequentemente, várias elaborações estéticas de uma ideia de pátria ainda em construção.Por tudo o que ficou dito anteriormente, o conceito de identidade implica, ao contrário do que poderá sugerir uma primeira acepção da palavra, um processo de diálogo com vista à re—criação. Se por um lado, a identidade pode ser entendida como a manutenção de determindados traços, tal facto não exclui toda uma actividade inerente a essa mesma manutenção, baseada na ocorrência de variações nos traços dominantes. A identidade implica processos de re-construção e de re-criação que, uma vez levados a cabo, servirão de base a variações futuras.{bibliografia}Alan Tomlinson (ed.): Consuption, Identity and Style (1990); António Marques: “Problemas da Identidade: Entre a Metafísica e a Descrição”, Revista da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas — Identidade, Tradição e Memória, n.o9 (1996); Cassiano Reimão: “A Cultura Enquato Suporte de Identidade, de Tradição e de Memória”, Revista da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas — Identidade, Tradição e Memória, n.o9 (1996); David Bleich: “The Subjective Character of Critical Interpretation”, Twentieth-Century Literary Criticism — A Reader (1993); Georges Poulet: “The Self and Other in Critical Consciousness”, Twentieth-Century Literary Criticism — A Reader (1993); Helder Godinho: “O Desconhecimento da Origem e a Procura da Identidade”, Revista da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas — Identidade, Tradição e Memória, n.o9 (1996); Horst Ruthrof: “Identity and Difference”, Poetics (1988); Iain Chambers: Migrancy, Culture, Identity (1993); J. Rutherford (ed.): Identity: Community, Culture, Difference (1990); João Sàágua: “Curiosidades Sobre a Teoria Lógica da Identidade”, Revista da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas — Identidade, Tradição e Memória, n.o9 (1996); John Rajchman: The Identity in Question (1995); Kwane Anthony Appiah e Henry Louis Gates, Jr. (ed.): Identities, Critical Inquiry, n.o18/4 (1992); Mark H. Gelber (ed.): Identity and Ethos (1986); Norman Holland: “Reading and Identity: A Psychoanalytic Revolution”, Twentieth-Century Literary Criticism — A Reader (1993); Roman Ingarden: “Some Epistemological Problems in the Cognition of the Aesthetic Concretization of the Literary Work of Art”, Twentieth-Century Literary Criticism — A Reader (1993); Wolfgang Iser: “Indeterminacy and the Reader’s Response”, Twentieth-Century Literary Criticism — A Reader (1993).

2009-12-29 08:11:45
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