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Aquele que julga, avalia, comenta ou investiga as obras literárias. Esta breve definição é suficiente para desencadear uma tempestade de protestos por quem pratica esta actividade, o que também faz parte da natureza do crítico: rebelar-se contra todas as tentativas de definição ou descrição da crítica literária como actividade profissional.

Um primeiro equívoco na tentativa arriscada de delimitação da natureza do crítico literário é esperar que, numa situação ideal, ele esteja ao serviço dos autores para os dar a conhecer ao mundo, através de reportagens, entrevistas ou biografias. Não é muito segura estoutra forma de fazer crítica literária: o biografismo in-significante. E talvez ninguém mais do que Fernando Pessoa podia protestar contra esse papel do crítico. Há um passo de uma célebre carta a João Gaspar Simões que podia ser tomado como um bom princípio de definição do que seja a actividade do crítico literário: “A função do crítico deve concentrar-se em três pontos: (1) estudar o artista exclusivamente como artista, e não fazendo entrar no estudo mais do homem que o que seja rigorosamente preciso para explicar o artista; (2) buscar o que poderemos chamar a explicação central do artista (tipo lírico, tipo dramático, tipo lírico elegíaco, tipo dramático poético, etc.; (3) compreendendo a essencial inexplicabilidade da alma humana, cercar estes estudos e estas buscas de uma leve aura poética de desentendimento.” (Obras em Prosa, vol.V, Círculo de Leitores, p.303.) Pessoa continua a auto-definir-se, advertindo que os aspectos humanos “ao crítico não compete tocar, pois de nada lhe serve que toque”. Infelizmente, a tradição crítica portuguesa (e não só) tem optado por esta via e, talvez por isso mesmo, de nada serve. O crítico literário que persegue a via da investigação científica não deve ser biografista nem retratista, um pouco ainda ao sabor da tradição de um Sainte-Beuve. Uma posição anti-biografista facilmente pode encontrar apoio em Alfred Michiels que fez na altura devida a seguinte observação sobre Sainte-Beuve: “Um sistema, uma ideia interessavam-lhe menos que uma anedota; fala muito do homem, muito pouco do autor, quase nada das suas doutrinas.” E podemos ainda encontrar apoio nas recomendações de António Sérgio, que, nos seus Ensaios (Tomo III), sustentava que o mais importante é falar “das obras, somente delas, sem jamais fugir para a biografia do autor, ou para divagações literareiras sobre a psicologia deste – confusão de disciplinas de muita pseudocrítica actual e da história da literatura segunda a tradição portuguesa.” A condenação das tendências genéticas da crítica portuguesa conclui no facto de a prática biografista não passar de pura diversão: “Em presença da obra, informações biográficas, considerações históricas, discussões sobre as fontes não passam de diversão.”

A função da crítica é por vezes tão mal compreendida como a função do crítico, abrindo-se as portas a uma velha rivalidade entre autor e crítico, que merecia aliás uma história própria. Deixamos de parte o ponto mais quente desta história: a famosa “escola do elogio mútuo”, que Antero denunciou durante a polémica “Bom Senso e Bom Gosto” na crítica literária feita em Lisboa, de alguma forma se perpetuou até aos nossos dias, deixando crescer uma crítica mais emocional do que criteriosa.

Na instância autor/crítico, temos essencialmente três tipos: 1) aquele que esporadicamente sentiu a necessidade de fazer crítica literária e/ou pretensos exercícios de poética (Sophia de Mello Breyner Andresen, António Ramos Rosa, E. Melo e Castro, Vergílio Ferreira, etc.); 2) aquele que foi efectivamente crítico e/ou teórico e escritor (Fernando Pessoa, Jorge de Sena, Vitorino Nemésio, David Mourão-Ferreira, Alexandre Pinheiro Torres, etc.); 3) e aquele que nunca produziu crítica literária e não aceita geralmente intromissões críticas na sua obra sob pena de a desvirtuar (todos os que não encaixam em 1) e 2). Os que pertencem às duas primeiras espécies tendem a desconfiar da actividade dos críticos profissionais, que vêem como infractores da arte ou desmancha-prazeres da jouissance da leitura. Regra geral, defendem-se com a questão: “Não quis dizer nada do que o crítico disse que o meu texto dizia!”. Para o crítico intencionalista, esta questão é a razão de ser da sua filosofia, pelo que agradece ao autor que a repita sempre. Para o crítico não intencionalista, que é o que privilegiamos, tal questão é exterior à crítica, pois não mais o autor é autor de um texto que entregou ao público leitor. Jorge de Sena adverte em “Sistemas e correntes críticas”: “Nenhuma obra de arte tem que temer das análises que a desmontem e a desfibrem, ou que persigam, nas entrelinhas e nas elipses de um estilo, os mais ocultos sentidos. Se ela for realmente uma estrutura significativa, um objecto estético, uma criação (e não é necessário que o seja em nível genial!), as análises apenas porão em relevo, apenas tornarão visível e sensível e descritível e compreensível a complexidade que a crítica intuitiva se deleita em ‘sentir’ sem nos dizer objectivamente de que será que ela se constrói.” (Dialécticas Aplicadas da Literarura, pp.114-115).

A crítica literária é hoje praticada por duas espécies de indivíduos: a dos críticos e a dos recenseadores. A partir daqui, considero crítico literário todo aquele indivíduo que também sabe ou soube ser teórico, conhece ou reconhece o que é ser teórico. Assim, o crítico é aquele que mais próximo está de um filósofo: não aceita nenhum pensamento sem se interrogar aprioristicamente sobre a validade desse pensamento. Por isso, o crítico é por definição aquele que, perante uma obra de arte, procura demonstrar a verdade que tal obra lhe comunicou. Este ponto permite-nos não só distinguir a natureza da actividade do crítico e do recenseador como também do crítico e do teórico puro. O crítico demonstra, ou seja, deduz algo cujo objectivo é provar as premissas reconhecidas na obra de arte como verdadeiras; o recenseador mostra apenas as premissas e não se preocupa em provar nenhuma; o teórico é aquele que os precede a todos: faz as deduções que permitirão quer a demonstração da verdade quer o seu simples reconhecimento. O recenseador é o herdeiro do criticus clássico – um censor das letras – de quem Horácio se defende na Epístola a Mecenas. Mas é o próprio Horácio quem veste também a pele de criticus/censor na abertura da Epístola aos Pisões (vulgo Ars Poetica), quando censura os maus poetas que se perdem em digressões que ele compara a remendos de púrpura (purpureus pannus). Ora, se existe uma relação muito forte entre crítico (não o criticus) e teórico, não há qualquer possibilidade de aproximação entre estes e o recenseador. Por outro lado, o crítico e o teórico são leitores incansáveis de um mesmo texto literário, ao passo que o recenseador raras vezes lê a mesma obra duas vezes. Ora, sabendo que a leitura crítica de um texto, para ser verdadeira e fecunda, exige múltiplas leituras de um mesmo texto, é evidente que a tradição que confundir crítica com recensão, invertendo os termos ou as condições em que ambos existem, acabará por ser nem uma coisa nem outra.

Para arrumar a casa excessivamente cheia de ambiguidades da crítica literária, talvez ajudasse uma ampliação da distinção entre os dois tipos de críticos que acabámos de identificar. Que tipos de crítica literária é possível definir? Na mesma linha da distinção entre crítico e recenseador, chamaremos crítica de recensão àquele domínio de estudo do texto literário que está comprometido com uma instituição (um jornal, uma revista, uma biblioteca pública, etc.); está sujeito à exigência de actualidade (só se ocupa das publicações recentes); se atém à apreciação do saber prático do autor que investiga; não está obrigado à disciplina do interrogatório ou da refutação; pode utilizar de uma forma mais ou menos livre os juízos judicativos; e pode colocar-se ao serviço de divulgação dos textos e dos autores que são objecto de censo, recensão, revisão, apreciação, sendo esta última condição um desejo desde sempre manifestado por muitos autores e editores, um pouco como moeda de troca. Prova desta intenção é o exemplo da tomada de opinião que o editor João Rodrigues deixou no inquérito que Fernando Venâncio fez para a revista Ler (nº28, Outono 1994): “O primeiro papel da crítica em Portugal, neste momento, seria contribuir para vencer a evidente imobilidade do mercado, as dificuldades da rede de leitura pública, o obsoleto das bibliotecas públicas e escolares. De acordo: o comentário, positivo ou negativo, é óptimo. Mas os críticos em Portugal ainda não têm o direito de serem só ‘juízes’: devem ser também promotores da leitura.” Esta posição, que é subscrita por muitos escritores, obriga-nos de facto a separar o crítico-recenseador, que é uma espécie de delegado de propaganda literária, na visão de João Rodrigues, do crítico-investigador.

Existe, pois, um outro tipo de crítica a que chamarei de investigação, que nada tem a ver com estas condições definidas para a actividade específica da recensão. A crítica de investigação só eventualmente estará comprometida com uma instituição (geralmente, a universidade e só quando se transformam trabalhos académicos em estudos de crítica literária ou vice versa), não tem obrigatoriamente que dirigir o objecto de investigação para obras publicadas recentemente, devendo inclusive ser responsável pela institucionalização da possibilidade de uma dada obra não recente poder manter uma certa actualidade; estará sempre sujeita, na sua situação ideal, à disciplina do interrogatório e da refutação do sistema de crenças do texto que investiga bem como das próprias proposições que vai desenvolvendo a partir daí; não utiliza juízos judicativos, porque o seu objectivo é a sabedoria prática aplicada aos textos literários e não a doxa ou prescrição sobre eles, por isso preferindo os juízos problemáticos, que exigem uma revisão constante das suas possibilidades de sentido e aplicação; nunca se coloca ao serviço da divulgação dos autores que estuda, no sentido em que muitos escritores vivos o pretendem: o de colocar uma estampilha de genialidade na obra publicada, sendo contudo possível um outro tipo de divulgação bem mais sério: o da canonização da obra de arte literária, embora, neste caso, tal processo nunca esteja nas mãos de um só indivíduo e num só momento da história.

São a finalidade e o método que distinguem a crítica judicativa de recensão e a crítica científica de investigação. A primeira não revê, por norma, os seus juízos; a segunda vive dessa revisão constante dos sentidos determinados para um texto. É sabido que António Sérgio, no “Prefácio à Segunda Edição”, dos seus Ensaios (Tomo III), defendeu a tese de que “a eliminação da crítica judicativa é impossível” (p.20). Certo, mas se pensarmos apenas na crítica de recensão que está obrigada a prescrever sem sistematização sobre um dado texto. É a finalidade e o método que distinguem a crítica judicativa de recensão e a crítica científica de investigação. A primeira não revê, por norma, os seus juízos; a segunda vive dessa revisão constante dos sentidos determinados para um texto. O problema da ausência de um trabalho verdadeiramente elênctico do crítico literário – na tradição portuguesa virá desde as Cartas do Cavaleiro de Oliveira até hoje – reside no facto de ele se perder em discursos judicativos de tal forma que julga dar respostas àquilo que ainda nem sequer foi perguntado.

Em suma, o indivíduo que persegue a via recenseadora está normalmente convencido de que possui o poder (divino, diriam os socráticos) do conhecimento necessário à constituição da doxa; o indivíduo que persegue a via elênctica costuma identificar-se pela afirmação de que o seu amor ao saber é precisamente o sinal da sua carência. Sócrates diz que não sabe todas as respostas às perguntas que faz, mas que possui as convicções verdadeiras sobre essas questões. Em crítica literária, não devemos ter a pretensão de saber todas as respostas ao texto/obra inquiridos – o importante é possuir uma intuição correcta acerca dessas respostas.

{bibliografia}

António Sérgio: “Prefácio da Segunda Edição”, in Ensaios, Tomo I (3ªed., Livraria Sá da Costa, Lisboa, 1980); Cleanth Brooks: “The Formalist Critic”, Kenyon Review, 13 (1951); Edward W. Said: The World, The Text and The Critic (1983); Fernando Pessoa: “Carta a João Gaspar Simões” (11-12-1931), in Obras em Prosa, vol.V (Círculo de Leitores, Lisboa, 1987); Fernando Venâncio: “Ah, A Crítica”, Ler, 28, (1994); Georg Lukács: “O escritor e o crítico”, in Marxismo e Teoria da Literatura, ed. Por Carlos Nelson Coutinho (1968); Henry Peyre: Writers and Their Critics (1944); J. Hillis Miller: “The Critic as Host”, in Deconstruction and Criticism, ed. Por Harold Bloom et al. (1979); Jorge de Sena: “Sistemas e Correntes Críticas”, in Dialécticas da Literatura (1973); Oscar Wilde: The Critic as na Artist (1891); R. C. Davis e R. Schleifer (eds.: Criticism and Culture – The Role of Critique in Modern Literary Theory (1991); T. S. Eliot: To Criticize the Critic (1965); Wilson, Foerster, Ransom e Auden: The Intent of Critic (1941).